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TODODIA 19 de outubro de 2026
ELEITA DEPUTADA ESTADUAL

Mariana Conti destaca votação e prepara transição para a Assembleia Legislativa

Deputada estadual eleita fala sobre quase 10 anos na Câmara de Campinas, atuação como oposição, pautas regionais e futuro político

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Mariana Conti (Psol) deixará a Câmara de Campinas para atuar como Deputada Estadual na Alesp. Foto: CMC

A vereadora Mariana Conti (Psol) foi eleita deputada estadual com 126 mil votos e deixará a Câmara de Campinas após quase 10 anos de mandato. Em entrevista à TV TODODIA, ela falou sobre os fatores que contribuíram para o crescimento da votação, a experiência acumulada no Legislativo municipal e os principais temas que pretende levar à Assembleia Legislativa de São Paulo.

Mariana também avaliou a atuação como oposição ao governador Tarcísio de Freitas, falou sobre defesa do serviço público, meio ambiente, combate à violência contra a mulher e especulação imobiliária. A vereadora ainda comentou a cassação do vereador Vini, os próximos meses na Câmara e a possibilidade de, no futuro, disputar a Prefeitura de Campinas.

A votação para deputada
TV TODODIA: A senhora teve uma votação expressiva para deputada estadual, com 126 mil votos. A que atribui esse crescimento em relação à eleição anterior?

Mariana Conti: Minha campanha é uma campanha coletiva. Conseguimos reunir lutadores do Estado todo, militantes e pessoas com quem me conectei nas lutas ao longo da minha história e, principalmente, ao longo dos últimos anos. Acho que tivemos alguns elementos muito significativos nessa caminhada.

A luta contra a privatização da Sabesp foi uma delas. Também a luta contra os pedágios, porque o Tarcísio de Freitas proliferou pedágios pelo interior do Estado de São Paulo. Outro elemento foi a luta em defesa da solidariedade palestina. Fiz parte da missão humanitária que foi para a Palestina levar remédios e alimentos, em um cenário de enfrentamento global contra a extrema-direita mundial.

Isso me permitiu me conectar com pessoas de diferentes partes do Estado de São Paulo. Acho que todas essas lutas foram criando uma rede e, na eleição, conseguimos transformar essa conexão em uma votação muito expressiva.

TV TODODIA: O trabalho desenvolvido em Campinas também contribuiu para essa votação estadual?

Mariana Conti: Acho que teve uma coisa muito importante, que eu já vinha fazendo em Campinas, que é o combate à destruição do meio ambiente, contra a invasão dos data centers, contra obras que considero devastadoras e em defesa de planos emergenciais diante da emergência climática que estamos vivendo.

Eu pude também desenvolver essa atuação para além de Campinas. De certa forma, acho que meu mandato aqui virou exemplo, virou referência. As pessoas passaram a buscar esse trabalho e essa forma de atuação. Então, vejo essa votação também como uma expressão disso.

Experiência na Câmara
TV TODODIA: A senhora está prestes a completar 10 anos na Câmara de Campinas. O que leva dessa experiência para o trabalho na Assembleia?

Mariana Conti: Acho que levo muita coisa. Quando fui vereadora pela primeira vez, eu era a única mulher na Câmara de Vereadores. A gente já vinha de um histórico de baixíssima representação feminina. Quando entrei como militante feminista, uma pessoa que luta há muitos anos pelos direitos das mulheres, eu entrei também questionando aquele espaço.

Ser mulher em uma Câmara extremamente conservadora me deixou bastante experiente. Acho que isso também me ajudou, de alguma forma, a imprimir uma mudança na maneira de fazer política aqui na Câmara.

Hoje temos mais mulheres e eu tenho muito orgulho de ter sido parte pioneira desse processo. Muitas vezes a mudança não vem de imediato, mas vai sendo construída. Você não necessariamente vê o resultado no mesmo momento, mas aquilo vai abrindo caminho para que outras mudanças aconteçam.

TV TODODIA: Além da questão da representação feminina, o que a senhora considera ter aprendido como vereadora de oposição?
Mariana Conti: Outra coisa é ser uma vereadora de oposição combativa. Eu tenho muita convicção das coisas que entendo e acredito. E, por mais que em muitos momentos eu tenha sido minoria, tenha estado sozinha, eu defendi aquilo em que acreditava.

Ao longo do tempo, fui percebendo que as coisas se mostravam. Não que eu estivesse sempre certa, mas muitas vezes era importante ter aquela posição, mesmo quando parecia muito minoritária.

Um exemplo foi o enfrentamento ao Bolsonaro. Isso começa em 2018 e depois vem a pandemia, quando tivemos que enfrentar aqui o negacionismo e o movimento antivacina. Foi um momento muito difícil, mas, para mim, foi muito importante ter firmeza para defender aquilo em que eu acreditava, mesmo quando parecia que eu estava praticamente sozinha.

Depois, isso se mostrou uma posição extremamente importante. O que eu quero dizer é que a história revela as coisas. Com o tempo, a gente consegue perceber quem estava do lado certo e quem estava do lado errado.

Primeira deputada estadual de esquerda
TV TODODIA: A senhora será a primeira deputada estadual de esquerda eleita por Campinas. O que isso representa?

Mariana Conti: Eu acho que tenho essa sina de meio que abrir caminhos. Sou a primeira deputada estadual de esquerda da cidade de Campinas. Campinas nunca tinha eleito uma mulher de esquerda e acho que quebramos um tabu.

Acho que a gente vem para o mundo para quebrar tabus. Eu espero que essa eleição também represente isso, que seja uma abertura de caminho. Assim como aconteceu quando entrei na Câmara e era a única mulher, agora existe também essa responsabilidade de representar Campinas na Assembleia e mostrar que esse espaço pode ser ocupado por uma mulher de esquerda.

Atuação regional
TV TODODIA: É possível defender as pautas que a senhora já trabalha e, ao mesmo tempo, representar os interesses de Campinas e da região na Assembleia?

Mariana Conti: Claro que dá, porque as coisas se conectam. Uma coisa que tenho dito muito é que essas fronteiras entre cidades não existem quando falamos dos grandes problemas que vivemos.

Os processos de privatização, de destruição e que levam à corrupção não têm fronteiras. Sou muito defensora do serviço público contra a privatização. Muita gente fica indignada com os escândalos de corrupção, mas a verdade é que grande parte desses escândalos que contaminam nossas cidades tem relação com contratos de terceirização.

Então, quando você desmonta o serviço público, abre espaço para esse tipo de problema. A defesa do SUS, da escola pública e do sistema de saneamento não tem fronteiras. São lutas que passam por Campinas e também envolvem toda a região.

TV TODODIA: Quais dessas pautas a senhora pretende levar para a Assembleia?

Mariana Conti: Precisamos reverter as privatizações feitas pelo Tarcísio, como a da Sabesp. Você tinha uma empresa lucrativa e, de repente, começam a aparecer problemas, como água com cheiro de mofo. Isso chega às cidades da nossa região e também pressiona a Sanasa de Campinas.

Temos a defesa da escola pública. Temos professores adoecidos, queda nos índices que medem a qualidade da educação em São Paulo e salas de aula sendo fechadas. Isso precisa ser combatido.

Também precisamos de políticas de combate à violência contra a mulher. É preciso garantir casas-abrigo e políticas que realmente protejam as mulheres. São lutas que não ficam restritas a Campinas e que precisam ser tratadas de maneira regional.

Moradia e preço dos aluguéis
TV TODODIA: A senhora também tem falado sobre o preço dos aluguéis e a especulação imobiliária. Como pretende atuar nessa questão?

Mariana Conti: Tenho pensado muito nisso e acho que é necessário combater a especulação imobiliária e a alta do preço dos aluguéis. Essa já é uma das frentes de batalha aqui em Campinas.

A gente vê a especulação imobiliária recebendo isenção de IPTU e de outorga onerosa, e o custo disso sendo transferido para o preço dos aluguéis das pessoas. Acho que precisamos combater isso e considero essa uma das questões mais importantes nas nossas cidades.

Tenho visto que, quando você pega a medição do valor e do custo de vida, proporcionalmente o aluguel ocupa uma parcela cada vez maior. Ao mesmo tempo, temos muitos imóveis vazios em todas as cidades, que ficam parados apenas para fazer mercado imobiliário.

Você anda pelo Centro e vê vários imóveis vazios, enquanto muita gente está tendo dificuldade para encontrar onde morar. É uma situação totalmente contraditória.

Oposição a Tarcísio
TV TODODIA: A senhora passou quase 10 anos fazendo oposição em Campinas, primeiro ao governo Jonas e depois ao governo Dário. Como será fazer oposição ao governador Tarcísio de Freitas?

Mariana Conti: Para mim, o Tarcísio é o Dário e o Dário é o Tarcísio, porque a força que o Dário tem vem do Tarcísio. Dário, Tarcísio e Bolsonaro, para mim, são a mesma coisa. É a mesma lógica, a mesma política, a mesma lógica do clientelismo.

Eles se apresentam como mudança, como antissistema, mas são o sistema. Flávio Bolsonaro e os partidos que estão nesse campo fazem parte dessa mesma rede de clientelismo, de troca de favores e de uma política que eu combato.

Então, para mim, vai ser continuar. Claro que é interessante porque abre novas possibilidades, abre um novo trabalho, e isso também me anima. Quero combater essa lógica do clientelismo, do coronelismo, da troca de favores, da corrupção e desse conservadorismo que nos afunda.

Precisamos garantir vida, trabalho e diversidade para as pessoas.

Atuação como minoria
TV TODODIA: A senhora vai encontrar uma Assembleia Legislativa com forte presença da direita. Acredita que será um trabalho difícil?

Mariana Conti: Nós vamos ser minoria, mas temos muita gente e muita força. Acho que isso é interessante porque, ao mesmo tempo em que a direita cresceu, a esquerda também cresceu. Tivemos crescimento de mulheres de luta, de mulheres que têm uma atuação mais radical e combativa.

É preocupante porque o fascismo é uma ameaça real no Brasil e no mundo. Quando você tem Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, com todo o peso que isso representa, e uma intervenção cada vez maior sobre a América Latina e o Brasil, não é qualquer coisa.

Mas, ao mesmo tempo, acho que as pessoas estão tomando consciência. Vejo muita juventude tomando consciência e vejo as mulheres tomando consciência. As mulheres conhecem a cara da violência.

Acho que a extrema-direita está mostrando o que ela é, sem máscara. Isso pode fazer com que as coisas fiquem mais claras. Quero apostar nessa tomada de consciência e na ideia de que as coisas vão se revelar.

Cassação de Vini
TV TODODIA: Durante a campanha, houve também a cassação do vereador Vini após uma denúncia apresentada pela senhora. O que a eleição dele e a sua votação representam?

Mariana Conti: Para mim, o Vini é uma figurinha carimbada, como tantos políticos e pessoas das redes sociais que querem pegar um caldo, conseguir likes e se alojar na política.

Ele apareceu como novidade, com um discurso antissistema, mas, ao longo do tempo, fez coisas que considero típicas desse perfil. Atacou a universidade, atacou o servidor público, mas a denúncia que fiz revelou questões envolvendo negociações com empresários de transporte.

Isso não é uma exceção. Acho que as pessoas precisam ficar atentas. Às vezes as pessoas dizem que estão decepcionadas, e tudo bem, mas acho que isso precisa servir como aprendizado para ver em quem confiar e qual é o critério.

TV TODODIA: E qual deve ser, na sua avaliação, esse critério para o eleitor?

Mariana Conti: Quem pisa nos de baixo não vai proteger o interesse da população. Quem usa o escárnio e a humilhação contra pessoas comuns, trabalhadoras, que não têm condições de defesa, não vai defender o interesse da população.

Coragem não é chegar à universidade e brigar com os estudantes. Coragem é enfrentar o governador que quer privatizar o hospital da Unicamp, que é um serviço da população. É enfrentar os de cima, e não pisar nos de baixo.

Espero que isso sirva como uma lição. Acho que a votação também expressou isso. As coisas vão se revelando.

Tenho muito orgulho de ter feito a denúncia que levou à cassação, pela primeira vez na Câmara Municipal, de um vereador que eu denunciei por corrupção. E quero cassar outros. Na Assembleia Legislativa, inclusive, existem outras situações que também precisam ser acompanhadas.

Transição para a Assembleia
TV TODODIA: Até quando a senhora permanece na Câmara e o que pretende fazer nos próximos meses?

Mariana Conti: Agora preciso de força total no segundo turno. Depois, preciso concluir projetos, processos e as coisas que tenho feito aqui. Temos o orçamento da cidade e uma série de questões que precisamos concluir.

Também preciso planejar o próximo período. Preciso tirar férias, inclusive, porque já fui cobrada disso e é uma obrigação. Então, depois do segundo turno, será um período de concluir os processos que estão abertos, organizar o que precisa ser encerrado e planejar a próxima etapa.

TV TODODIA: A senhora está tranquila em relação à continuidade do trabalho na Câmara?

Mariana Conti: Fico muito confiante porque quem vai assumir aqui será o vereador Paulo Búfalo. É muito experiente, um parceiro e muito competente. Tivemos uma legislatura juntos e gostei muito de trabalhar com ele.

Eu acho que às vezes você conhece a pessoa quando trabalha junto. O Paulo é uma pessoa muito boa de se trabalhar. Então, agora vai ser fazer essa transição e planejar o próximo passo.

É uma coisa nova. Eu estou saindo de um trabalho que fiz durante quase 10 anos e indo para outro desafio, então também é um momento de organizar essa mudança e pensar em como dar continuidade ao trabalho.

Futuro político
TV TODODIA: A senhora pensa em disputar a Prefeitura de Campinas no futuro?

Mariana Conti: Ainda é muito cedo. O cenário político que vivemos é marcado pela instabilidade. É difícil prever dois meses, que dirá dois anos. Então, acho muito cedo para falar disso como uma decisão.

Mas é claro que eu não descarto uma candidatura a prefeita. Precisamos debater no campo da esquerda, no partido e com a sociedade. Essa não é uma decisão que eu tomo sozinha.

Eu nunca caminho sozinha. Então, se eu não caminho sozinha, não decido sozinha. Precisamos decidir juntos. Estou à disposição do que a vida exigir.

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Guilherme Pierangeli TODODIA — jornalismo das regiões de Campinas e Piracicaba
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