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Após Boeing romper acordo, governo vê na China saída para a Embraer

A disponibilidade de recursos e o potencial de crescimento do mercado asiático são vistos como facilitadores desse processo
by Folhapress

Após o fracasso da operação entre Embraer e Boeing, membros da área econômica consideram que a busca de negociações com a China pode ser a saída para a companhia brasileira. 

A disponibilidade de recursos e o potencial de crescimento do mercado asiático são vistos como facilitadores desse processo. A hipótese foi levantada em meio às discussões sobre o futuro da Embraer, que abriu uma batalha com a Boeing. 

Ainda não há diretriz concreta por parte do governo sobre os próximos passos que serão tomados em relação à companhia. Para membros da equipe econômica, alguns fatores são listados como favoráveis a essa solução por meio de operações ou parcerias com companhias chinesas. 

Diferentemente da já madura situação da aviação regional na Europa e nos Estados Unidos, a avaliação é que a China está em plena expansão desse mercado. Outro fator é a abundância de recursos do país asiático, que já começa a dar sinal de saída da crise provocada pela pandemia do coronavírus. 

O governo chinês tem uma estatal que produz jatos para voos regionais, a Comac (Commercial Aircraft Corp of China), que tenta competir nesse mercado e já fez parcerias com gigantes mundiais. 

A visão não é unânime no Ministério da Economia. Uma ala da pasta alerta para o fato de que a Embraer tem características estratégicas e, por isso, não dá para considerar apenas o valor oferecido para dar aval a uma operação desse tipo. Há quem defenda até que a Embraer siga sozinha com suas operações, sem parcerias. 

No sábado (25), foi oficializado o cancelamento da compra da área de aviação civil da Embraer pela Boeing, o que teria sido o maior negócio aeroespacial da história brasileira. 

O acordo, que começara a ser costurado em 2017, teve o apoio do Planalto durante a gestão do ex-presidente Michel Temer (MDB) e foi ratificado pelo presidente Jair Bolsonaro no começo de 2019. 

Privatizada em 1994, a Embraer é uma empresa de capital aberto e pulverizado. No entanto, o governo detém uma ação especial, chamada de golden share, que pode ser usada para barrar a transferência de controle para outra companhia, impedir mudança de sede e capacitação de terceiros em tecnologia para programas militares. 

Esse poder de veto não quer dizer que a União é dona da empresa. A golden share garante esse direito mesmo quando a União tem participação minoritária no capital social da companhia. 

Esse mecanismo é uma forma de o governo manter certo controle sobre uma empresa privatizada, especialmente as consideradas estratégicas. 

A cúpula militar do governo, que nunca foi unânime sobre o acordo entre as duas empresas, tem a avaliação de que a desistência é uma oportunidade para que Bolsonaro adote mais cautela na atual política de privatizações. 

Na avaliação do núcleo fardado do Palácio do Planalto, o setor aeroespacial é estratégico para a proteção do país. Por isso, o compartilhamento de tecnologia poderia fragilizar a defesa aérea. 

Os militares ouvidos pela reportagem ponderam, no entanto, que a quebra do acordo em meio à crise econômica causada pelo novo coronavírus não é animadora. 

O cenário, para eles, demonstra que outras empresas brasileiras correm o risco de perder grande valor de mercado ao longo da pandemia. 

Apesar do discurso de parcimônia com o plano de privatizações da ala liberal do governo, os militares não defendem a reestatização da empresa. 

No sábado, o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos aproveitou o negócio frustrado para emitir uma nota pedindo a reestatização da Embraer. 

Em uma rede social, o secretário especial de desestatização do Ministério da Economia, Salim Mattar, também rechaçou a ideia dos sindicalistas de que o governo retome o controle da empresa. 

Ao anunciar o cancelamento da operação, a Boeing afirmou ter rescindido o contrato porque a fabricante brasileira não teria cumprido todas as suas obrigações para executar a separação da sua linha de aviões regionais. 

A Embraer divulgou nota acusando a Boeing. “A Embraer acredita firmemente que a Boeing rescindiu indevidamente o MTA (Acordo Global da Operação) e fabricou falsas alegações”, diz o texto. 

O objetivo, segundo a nota, seria tentar evitar compromissos de fechar a transação e pagar à Embraer o preço de compra de US$ 4,2 bilhões (R$ 23,5 bilhões na sexta). 

A fabricante brasileira afirma que tomará as medidas cabíveis contra a Boeing “pelos danos sofridos”. Em 2019, o processo de separação custou R$ 485,5 milhões à empresa. A Boeing passa por dificuldades financeiras, embora a empresa negue que sejam o motivo da rescisão. 

Uma crise interna foi motivada pela paralisação da produção do 737 MAX por problemas técnicos que geraram acidentes fatais e a queda de demanda mundial de aviões pela pandemia do coronavírus. 

A crise da Covid-19 também desvalorizou a Embraer, levantando dúvidas sobre o preço a ser pago pela brasileira. “Há vários meses temos mantido negociações produtivas a respeito de condições do contrato que não foram atendidas, mas em última instância, essas negociações não foram bem-sucedidas”, disse Marc Allen, presidente da Boeing para a parceria com a Embraer e operações. 

 

Por Bernardo Caram, Gustavo Uribe e Thiago Resende

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