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Após quarentena, momento será de valorizar o que é essencial

Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da PUC fala sobre mudança de hábitos de consumo pós-pandemia, o que define como “quarentena voluntária”
by Rogério Verzignasse

A alta de apenas 0,07% do IPCA (Índice de Preços do Consumidor Amplo), divulgada pelo IBGE no final da semana retrasada, é o menor índice registrado para um mês de março desde o lançamento do Plano Real (1994). Mas a inflação baixa não é exatamente um motivo para comemoração.

Apesar das quedas dos preços dos bens industriais e dos serviços, os alimentos ficaram 1,13% em média mais caros no período. O cidadão prioriza os gastos com comida. A procura aumenta, o preço cresce.

Diante do quadro, as redes de supermercados precisam elaborar estratégias para garantir o abastecimento das gôndolas, e torcer para a crise atual não se prolongue a ponto de comprometer o abastecimento.

A análise é do professor Izaías de Carvalho Borges, diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da PUC-Campinas (Pontifícia Universidade Católica). Na visão dele, o mercado, pós-pandemia, deve considerar o novo comportamento do consumidor que, por um período inestimável, deve ficar sem comer fora, fazer compras no shopping ou gastar com viagens ou lazer.

Confira os principais trechos da entrevista concedida pelo professor à reportagem do TodoDia.

TodoDia – Tivemos em março o menor índice de IPCA desde o lançamento do Plano Real. O dado surpreende os analistas?
Borges – De forma alguma. A demanda por produtos e serviços caiu por conta do isolamento social. O que pouca gente se dá conta é que, no momento em que acabar a quarentena oficial, vai continuar a voluntária. Ou seja, o consumidor vai evitar shoppings e restaurantes, por exemplo. A economia não vai voltar ao normal como um passe de mágica.

O consumidor, a seu ver, assumiu um comportamento diferente, que pode se tornar definitivo?
As pessoas, pelo que vimos, aumentaram o consumo de itens de necessidade básica. O cidadão voltou a comer em casa, e isto explica o aumento, a alta nos preços dos alimentos.

Mas o consumidor deixou de comer fora porque os restaurantes estão fechados…
Não. Vivemos uma época de crise, de muita incerteza em relação ao futuro. O brasileiro se pergunta: Vou perder o emprego? Meu salário vai diminuir? Meu negócio vai falir? O dólar vai continuar subindo? Então, as pessoas priorizam o básico, e reduzem o consumo de tudo aquilo que consideram supérfluo. Comer fora passou a ser supérfluo.

Tal comportamento pode provocar transformações radicais no mercado…
Os supermercados devem mudar de estratégia, devem valorizar vendas do que é essencial. E já percebemos isso nas grades redes. O que é considerado supérfluo perde evidência nas prateleiras.

Mas a procura maior por alimentos e a dificuldade dos supermercados em receber produtos dos fornecedores não podem provocar no futuro uma crise no abastecimento?
O tamanho da recessão e do desemprego, se vamos ou não enfrentar desabastecimento, se o preço da comida vai ou não continuar subindo… Tudo depende em muito, da política econômica do governo federal. E convenhamos, o cenário é conturbado. A pandemia, por si só, já seria capaz de criar incertezas. Mas o governo, politicamente, vive um momento caótico. Com um governo que parece sem rumo, fica difícil prever o que nos espera. Coisa boa não será.

Mas a recessão era esperada, é mundial, fruto da pandemia. O senhor acredita que a instabilidade política pode tornar a crise pior por aqui?
No Brasil, a recuperação econômica será mais difícil. A pandemia chegou quando ainda estávamos tentando sair de uma recessão. E, depois, o presidente Bolsonaro teve um comportamento reprovável. Chamou a doença que afeta o planeta inteiro de “gripezinha”, e é lento na tomada de decisões. Num contexto de crise global como a provocada pelo novo coronavírus, esse jeito de fazer política é um passaporte para o abismo.

O produtor rural pode, a seu ver, de alguma forma, sofrer efeitos da pandemia?
O Brasil é um grande produtor agrícola, mas produção no campo depende de política de crédito, preço mínimo, subsídio. Depende da confiança de quem produz em quem governa. Outro temor dos produtores é saber que a imagem de um governo que virou pária internacional pode afetar o agronegócio brasileiro. Apesar do câmbio favorável à exportação, teme-se no campo que os países importadores simplesmente rejeitem os produtos brasileiros.

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