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Atingidas em cheio pela pandemia

Levantamento mostra demissões maiores entre as mulheres na RMC em 2020, com sobrecarga ainda maior
by Claudete Campos

O desemprego atingiu mais as mulheres do que os homens em 2020, especialmente por causa do impacto da pandemia do novo coronavírus.

Enquanto o saldo de empregos (diferença entre admissões e demissões) com carteira assinada entre os homens ficou positivo em 2.742 vagas nas 20 cidades da RMC (Região Metropolitana de Campinas) ano passado, entre as mulheres esse número foi negativo, de 6.906. Isso deixou o saldo geral de empregos na RMC negativo em 4.164 vagas.

Em Campinas, o desemprego atingiu três vezes mais as mulheres do que os homens. Enquanto o saldo negativo de empregos entre homens foi de 1.528, esse número entre as mulheres chegou a 4.178.

Esta é apenas uma prévia de um levantamento que está sendo compilado pelo Observatório da PUC-Campinas e que foi divulgado com exclusividade ao TODODIA, às vésperas do Dia Internacional da Mulher, comemorado amanhã.

“Aqui mostra que o ajuste foi mais intenso entre as mulheres”, disse a economista Eliane Rosandiski, que está à frente do estudo.

Esse mesmo levantamento revelou ainda que metade dos acordos de flexibilização do contrato de trabalho, com redução de jornada e salários, envolveu mulheres. De 499 mil acordos firmados na RMC, 211 mil abrangeram mulheres.

A maioria desses acordos ocorreu nos setores de serviços, onde é maior a participação feminina. E esse foi, justamente, o setor mais afetado pela pandemia e o que demora mais para se recuperar.

Eliane acredita que muitos desses acordos foram feitos também para que as mulheres tivessem acesso ao auxílio emergencial, pois tinham direito a R$ 1,2 mil, quando comprovada redução da jornada e salário e se fossem chefe de família.

Os dados ainda estão em processo de tabulação, mas a economista já chegou a algumas conclusões. As mulheres foram mais demitidas nos setores de serviços, que têm um peso maior na atividade econômica.

Além disso, os acordos de flexibilidade dos salários foram feitos mais para os homens.  “A recuperação do emprego também se deu mais fortemente entre os homens”, revelou Eliane.

Para entender o impacto da pandemia do novo coronavírus, o TODODIA ouviu mulheres de todas as classes sociais e das mais variadas profissões, para dar uma dimensão de como a Covid-19 deixou sequelas econômicas, sociais, emocionais, físicas e à saúde dessas mulheres.

Elas estão sobrecarregadas com suas atividades profissionais, com os cuidados das casas e com o auxílio aos filhos nas tarefas escolares.

As seis mulheres entrevistadas mencionaram que tiveram que se reinventar nesta pandemia.

Consultório esvaziou

“Os impactos da pandemia de maneira geral são imensos. Como mulher, mãe, divorciada, profissional de saúde mental passei (e estou passando) por esse processo de forma visceral. Nos três primeiros meses a evasão dos atendimentos clínicos foi integral, muita incerteza, medo, pânico. O consultório ficou vazio da noite para o dia. Foram quase três meses para reorganizar equipamentos, me apropriar de tecnologias e critérios éticos para atendimento on-line e ao mesmo tempo estar integralmente com minha filha caçula de 8 anos. Inicialmente, como atividade terapêutica, me embrenhei na cozinha junto com meu namorado que já tinha essa expertise. Depois, começamos a cozinhar em casa como fonte de renda (empadas e pimentas) para amigos próximos, depois amigos dos amigos e fomos expandindo para outros tantos públicos. Atualmente, cerca de 90% dos atendimentos são exatamente de mulheres, mães também em processo de reinvenção, que se vincularam tanto em grupos quanto psicoterapia individual, bem como em grupos de estudo sobre a condição feminina e nosso papel social. Em casa, com flexibilidade de horários (faço atendimentos às vezes às 5h ou 23h), com filhos por perto, cachorro latindo, etc… tivemos que nos reinventar em tantos sentidos, dar conta de intensa sobrecarga, cruel e desumana muitas vezes, das dores, lutos e incertezas. Terapia e grupos de apoio se tornaram ainda mais essenciais”. | Emelin Macieu – Psicanalista 

A saudade das pessoas

Em 2019, Bruna decidiu pedir demissão da assessoria de imprensa de um sindicato para empreender na área de eventos e comunicação. Até março de 2020 os eventos estavam indo bem, mas com a pandemia foram todos cancelados. Então buscou formas de utilizar o conhecimento e criou um Manual de Conduta para Profissionais de Eventos. A partir deste manual criou Manuais de Conduta personalizados para empresas que desejavam elevar o padrão de atendimento focado na excelência e a treinar equipes. Deu certo. Se reinventou. Desde o início deste ano passou a atuar com mentoria de Imagem Corporativa e Construção de Marca. Direcionada a empresas e a profissionais que querem entender como transmitir a melhor imagem. Casada e sem filhos, passou a trabalhar mais em casa. Houve impacto na vida dela como pessoa, afinal, sempre trabalhou rodeada de pessoas e o isolamento fez mudar totalmente esse envolvimento. A participação em grupos de networking on-line ajudou a sanar essa carência. | Bruna Cardoso – Jornalista 

Todas estão sobrecarregadas

“É claro que todos fomos impactados com a pandemia, mas creio que em especial a vida das mulheres. A situação onde o acúmulo de tarefas foi algo além do normal, ou seja, o que já era difícil ficou ainda mais, e aí eu incluo todas as mulheres, independente de sua classe social. A dificuldade em lidar com os filhos em casa, ou melhor acumular a sua função normal com a função da professora, não é nada fácil. Realizar o seu próprio trabalho home office, a presença em muitos casos do marido/companheiro realizando seu trabalho em casa, uma nova realidade que gerou impacto muito grande na vida de todos. Com certeza todas as mulheres estão muito sobrecarregadas, a preocupação com o desconhecido é algo que gera muito medo. Nos encontramos em uma fase de adaptações, de aprender a desacelerar, lidar com algo novo e tão letal como esse vírus é algo que faz com que nos reinventemos para poder nos ajudar e ajudar a todos que estão a nossa volta. A mulher, no seio familiar, é a inspiração da família, é ela quem acolhe, dá colo, acalma. Agora imagina cuidar de tudo isso diante desta pandemia? Mas a força feminina é extraordinária, eu acredito nisso, e sei que isso tem salvado muitas famílias. Como eu disse, a mulher é como uma fênix, ressurge das cinzas. A criatividade da mulher é sempre surpreendente: a sua capacidade de encarar uma situação difícil e encontrar uma brecha para poder cuidar da sua família usando de todas as artimanhas possíveis”. | Ana Zulian – Advogada e conselheira estadual da OAB/SP 

O jeito foi vender geladinho

São Roque, em Americana, Flavia tem dois filhos, de 3 e 9 anos. Casada há cinco anos, teve de se reinventar, encontrar algo para fazer. Como tinha um filho de 3 anos, teve de sair do serviço para ficar com ele. Ela é revisora de roupas. Desde o início da pandemia, teve de se virar, pois seu esposo também trabalha por conta. Ele conserta celular, formata computador e é fotografo. Para aumentar a renda de casa, começou a fazer serviços de costura em casa. Dobra, embala e revisa as roupas. E para aumentar um pouco mais a renda, decidiu fazer o famoso bidu, geladinho, chupichupi… Tem vários nomes, mas o dela é o Bidu da Flávia. Assim segue conciliar os trabalhos em casa com as crianças. E quando surge algum bico, não recusa. O difícil é conseguir segurar as crianças dentro de casa. “Mas graças a Deus tenho saúde e força de vontade para trabalhar”, diz. | Eliana Flavia Rodrigues Silva 

Desempregada e em casa

Residente em Nova Odessa, com 26 anos e três filhos, os últimos meses não têm sido fáceis. Ficou grávida bem no começo da pandemia. Desempregada, foi morar com a mãe e passou a gestação toda com medo da Covid-19. Mal saía de casa. Ia ao médico com medo de pegar essa doença. A Covid também afetou a rotina das crianças, sem escola, sem poder sair para passear. Passaram necessidade. A mãe dela perdeu muitas faxinas por conta da Covid. Não consegue emprego e a família depende de doação de terceiros para sobreviver. “Meu maior desejo é que essa doença acabe, que as pessoas respeitem a quarentena para que um dia possamos conseguir um emprego, as crianças irem para a escola e que não precisaremos mais ter que ficar pedindo doação, porque isso não é vida (…) Fora o medo que dá de pegar e passar para as crianças que são pequenos. Vivemos com medo”. | Natana Kemboly Gonçalves da Silva

Se virando nos 30

Ela ficou totalmente home office. Logo que começou a pandemia teve o atendimento prejudicado. O que impactou, diz, foi a mulher ficar o dia todo dentro de casa e ter de cuidar dos filhos e do marido. A mulher recebeu carga de cuidar de tudo e todos e sofrendo o peso de tudo isso. “Ouviu várias histórias de mulheres paradas e que tiveram que se dedicar a outra atividade para sobreviver. Passaram a fazer bolos, pão de mel, salgados, a investir em conhecimento e conhecer as novas tecnologias para manter as vendas dos seus negócios. Tiveram sucesso e sofreram menos aquelas que tinham reservas e planejamento. Algumas tiveram a saúde prejudicada, porque pararam as atividades físicas”, diz. | Elza Cassitas Sferra – Consultora de empresas

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