domingo, 4 outubro 2026
MERCADO DE TRABALHO

Pesquisa da Unicamp aponta jornadas maiores e baixa proteção entre trabalhadores de aplicativos

Levantamento indica que profissionais de plataformas trabalham mais horas, recebem menos por hora e têm menor cobertura previdenciária
Por
Nicoly Maia
A pesquisa discute como os algoritmos das plataformas interferem na rotina dos profissionais. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O mercado de trabalho brasileiro tinha cerca de 2 milhões de pessoas atuando por meio de aplicativos em 2025. O número representa 1,9% do total de ocupados no país. Os dados integram um módulo temático da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), elaborado em parceria entre o MPT (Ministério Público do Trabalho), a Unicamp e o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A Unicamp participou da elaboração do formulário, com a definição de perguntas sobre as condições de trabalho e a realidade dos profissionais que atuam em plataformas digitais.

Maior carga horária
A pesquisa aponta que os trabalhadores de aplicativos cumprem, em média, 5,4 horas semanais a mais do que os empregados com carteira assinada para alcançar uma renda equivalente no fim do mês. A diferença também aparece no rendimento médio por hora: R$ 16,20 entre os trabalhadores de plataformas, contra R$ 18,40 entre os formais, uma diferença de 12%.

A vulnerabilidade também aparece nos indicadores de proteção social. A informalidade atinge 42,7% dos trabalhadores que não atuam por plataformas, mas chega a 72,1% entre os profissionais que trabalham por meio de aplicativos.

Previdência social
A situação também afeta o acesso à Previdência Social. Apenas 34% dos trabalhadores de aplicativos têm cobertura previdenciária, enquanto o índice chega a 63% entre os demais trabalhadores da iniciativa privada. Com isso, uma parcela significativa fica sem acesso a benefícios como auxílio por incapacidade temporária, pensão por morte e aposentadoria.

O professor Marcelo Manzano, diretor do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho do Instituto de Economia da Unicamp, destaca os impactos da falta de proteção previdenciária. “É muito preocupante. A contribuição para a Previdência é fundamental para garantir um mínimo de proteção social. Isso vale tanto para a velhice, quando o trabalhador não tiver mais condições de trabalhar, quanto para situações de acidente ou afastamento. No caso dos entregadores e motoboys, por exemplo, se ocorre um acidente e ele precisa ficar afastado por alguns dias, semanas ou meses, ele fica sem renda. Se contribuísse para a Previdência Social, teria direito a uma renda mínima durante esse período. Além disso, fica sem acesso à aposentadoria. Isso significa submeter essas pessoas a um risco de falta de renda em momentos futuros.”

Dados da pesquisa
Considerando apenas os profissionais que têm as plataformas digitais como principal ocupação, o número chega a 1,8 milhão de trabalhadores. O contingente representa uma expansão de 9,1% em um ano e de 36,8% em relação a 2022. Entre as ocupações pesquisadas, o segmento de entregadores por aplicativo apresentou o crescimento mais acelerado, com alta de 18,6% entre 2024 e 2025.

O setor de transporte, armazenagem e correio concentra a maior parcela dessa mão de obra. Segundo o levantamento, 75% dos profissionais dessas atividades trabalham por meio de plataformas digitais.

Perfil dos trabalhadores
O grupo é formado majoritariamente por homens e trabalhadores informais. Os homens representam 84,4% dos profissionais cuja principal atividade é realizada por meio de plataformas. Entre motoristas e entregadores, a falta de alternativas no mercado de trabalho convencional aparece como a principal motivação para a adesão aos aplicativos, seguida pela busca por flexibilidade de horários.

A motorista de aplicativo Heloisa Oliveira de Oliveira, de Americana, trabalha na área desde 2017. Segundo ela, o número de profissionais aumentou nos últimos anos, mas os valores pagos pelas corridas não acompanharam os custos da atividade. “Tem muito mais motoristas na rua e a tarifa não aumentou. Hoje você tem corrida de seis reais e, com o preço que está o combustível, não tem condições. O mais difícil é que você precisa procurar estratégias para conseguir trabalhar.”

Algoritmos interferem na rotina
Além das condições de trabalho, a pesquisa discute como os algoritmos das plataformas interferem na rotina dos profissionais.

Marcelo Manzano explica que os trabalhadores nem sempre têm acesso aos critérios usados pelos sistemas para distribuir corridas e entregas. “As plataformas têm uma série de regras implícitas de funcionamento que os trabalhadores não conhecem e às quais não têm acesso. De alguma maneira, essas regras disciplinam, julgam e avaliam os trabalhadores, estabelecendo critérios de pontuação que nem sempre são conhecidos e que podem determinar se eles receberão melhores ou piores viagens ou se ficarão mais ou menos tempo parados.”

Segundo o professor, a distribuição de viagens e entregas também não ocorre de maneira homogênea. “O algoritmo controla essa distribuição de maneira obscura. Não é transparente. Os trabalhadores acabam submetidos a uma espécie de autoridade que não deixa claros quais são os critérios utilizados. Isso torna a vida deles muito mais difícil.”

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