Inteligência artificial já é usada por 58% das indústrias da região de Campinas e deve continuar avançando, segundo especialista da Unicamp
Pesquisa do Ciesp Campinas mostra avanço da tecnologia em dois anos; especialistas apontam mudanças no mercado de trabalho, com possível redução de vagas e maior demanda por qualificação

A inteligência artificial (IA) já é utilizada por 58% das indústrias entrevistadas em uma pesquisa do Ciesp Campinas (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo). Outros 25% pretendem adotar a tecnologia nos próximos meses. Somados, os dois grupos representam 83% das empresas que já utilizam ou planejam incorporar a ferramenta às atividades.
O levantamento também mostra que 17% das empresas reconhecem a necessidade da inteligência artificial, mas ainda não têm projetos em andamento. Nenhuma das entrevistadas afirmou que a tecnologia não é necessária para o negócio.

Os números indicam uma mudança significativa em relação a 2024, quando apenas 6% das empresas declaravam utilizar inteligência artificial e 27% consideravam a tecnologia desnecessária. Em dois anos, a ferramenta passou de uma presença limitada para uma realidade cada vez mais integrada ao planejamento industrial.
Além de modificar máquinas e processos produtivos, a expansão da IA começa a transformar as funções desempenhadas pelos trabalhadores. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que a tecnologia pode aumentar a produtividade, alterar a composição das equipes e reduzir a necessidade de profissionais em determinadas atividades.
Automação pode reduzir postos de trabalho
O presidente do Ciesp Campinas, José Henrique Toledo Corrêa, não descarta uma redução de vagas no curto prazo, à medida que as empresas ampliem o uso da tecnologia. Para ele, os profissionais e as organizações precisarão se preparar para essa mudança. “Provavelmente a gente vai ter redução, mas vai ter que se preparar. As empresas têm que estar preparadas para isso. E é importante que as funções vão da criatividade da pessoa que opera a inteligência artificial, porque a criatividade e a inteligência permite com que ela evolua dentro da inteligência artificial, fazendo a conexão do IoT que a gente fala. A ligação do hardware com o software, a inteligência artificial atuando diretamente nas máquinas e equipamentos, isso vai dar um grande, um grande pulo de produtividade sem a presença humana”, afirmou.
A integração entre inteligência artificial, softwares, sensores e equipamentos pode permitir que máquinas executem processos com cada vez menos intervenção humana. Ao mesmo tempo, a capacidade de realizar tarefas antes restritas às pessoas amplia o debate sobre quais funções serão mantidas, transformadas ou eliminadas.
Wagner Madeira da Silva é doutor em Ciências Econômicas pelo Instituto de Economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e autor de uma tese sobre os impactos da inteligência artificial na economia e nas estratégias das empresas. O trabalho, orientado pelo professor Célio Hiratuka, tem o título “Inteligência Artificial: Impactos Econômicos e Estratégias das Corporações na Aurora da Sexta Revolução Tecnológica”.
Para Madeira, uma das principais diferenças da atual transformação tecnológica é o alcance sobre o trabalho intelectual. Segundo ele, as ferramentas já conseguem executar atividades que anteriormente dependiam exclusivamente da capacidade humana. “O que acontece agora é que é a primeira vez na história que a tecnologia substitui o trabalho intelectual. Então, o impacto dessa revolução agora, que vale para a indústria, mas vale para os outros setores também, é que você começa a substituir, a viabilizar o empregado virtual que realiza tarefas que antes só humanos seriam capazes de fazer. Então, não é o trabalhador braçal que está sendo substituído”, explicou.

IA pode ampliar a produtividade de profissionais menos experientes
O avanço da tecnologia também pode alterar a relação entre trabalhadores com diferentes níveis de experiência. De acordo com Wagner Madeira, estudos de caso indicam que ferramentas de inteligência artificial podem ajudar profissionais menos qualificados a executar tarefas mais complexas. “Existem estudos de casos que mostram que um primeiro efeito é o acesso de trabalhadores menos qualificados a funções mais qualificadas”, afirmou.
O especialista citou o exemplo de uma grande consultoria empresarial que disponibilizou ferramentas avançadas de inteligência artificial aos funcionários. Nesse caso, o ganho de produtividade e qualidade teria sido marginal entre os consultores seniores, mas expressivo entre os profissionais juniores, que conseguiram realizar tarefas antes desempenhadas por colegas mais experientes.
Esse movimento pode modificar a estrutura das equipes. Atividades que exigiam a divisão de tarefas entre profissionais de diferentes níveis podem passar a ser realizadas por grupos menores, com o auxílio de sistemas capazes de executar etapas do trabalho.
O diretor de Comércio Exterior do Ciesp, Anselmo Riso, avalia que a tendência não é necessariamente o desaparecimento de profissões inteiras, mas a redução da quantidade de pessoas necessárias para determinadas funções. “O mais provável não é simplesmente acabar com profissões ou funções, mas reduzir a quantidade de pessoas necessárias. Em algumas funções, principalmente aquelas tarefas repetitivas, previsíveis e baseadas em dados, como na palha de produção, operador de máquina, administrativo, digitação, lançamento. Então tudo isso vai mudar em todas as áreas”, disse.
Atividades realizadas remotamente estão entre as mais expostas
A possibilidade de substituição não se restringe ao ambiente industrial. Segundo Wagner Madeira, tarefas que podem ser realizadas integralmente por computador também estão entre aquelas que podem avançar para a automação por inteligência artificial.
O especialista compara essa transformação à experiência do trabalho remoto durante a pandemia de Covid-19. Na avaliação dele, atividades que passaram a ser executadas a distância podem ser realizadas, em tese, por sistemas de IA, dependendo de suas características. “A título de especulação, são especulações que eu faço no meu trabalho, é que isso vai… Ele vai ser capaz de substituir tudo o que você pode fazer remotamente. Então, uma grande comparação é a pandemia, o período da pandemia de COVID-19”, afirmou.
Madeira acrescentou que a possibilidade de substituição envolve tarefas que antes eram desempenhadas por profissionais em regime de home office. Ele também levantou a hipótese de que sistemas de inteligência artificial possam executar determinadas atividades sem que os demais integrantes de uma equipe percebam imediatamente se o trabalho foi realizado por uma pessoa ou por uma máquina.
A avaliação é apresentada pelo especialista como uma projeção sobre os possíveis efeitos da tecnologia, e não como uma substituição já concretizada em todas as funções realizadas remotamente.
Desenvolvimento de softwares também passa por mudanças
Outro campo citado na reportagem é o desenvolvimento de sistemas. A inteligência artificial já consegue escrever códigos, corrigir erros e participar de diferentes etapas da produção de softwares, o que pode alterar a organização das equipes de programação.
Wagner Madeira afirmou que a área se tornou um dos principais exemplos de aplicação da tecnologia. Segundo ele, um programador sênior pode utilizar ferramentas de IA para executar partes do desenvolvimento que antes seriam distribuídas entre vários profissionais iniciantes. “Um programador júnior, hoje ele é dispensável, ele é dispensável porque a pessoa que concebia o software e passava para um programador sênior que ia dividir a tarefa entre uma equipe de programadores júniores para cada um fazer um módulo, hoje, eventualmente, esse programador sênior, ele consegue sozinho fazer, ele vai colocar uma inteligência artificial para fazer cada pedaço do software”, explicou.
O especialista também apontou o avanço dos chamados agentes de programação, sistemas capazes de trabalhar com determinado grau de autonomia e revisar etapas do próprio desenvolvimento. “Já existem atualmente os agentes de programação que têm uma certa autonomia, essas inteligências vão conversar, uma vai corrigir a outra e vão chegar até o sistema de software pronto sozinho”, afirmou.
Nesse cenário, funções de entrada no mercado de tecnologia podem sofrer mudanças, enquanto profissionais com capacidade de definir tarefas, avaliar resultados e coordenar processos ganham importância.
Conhecimento técnico e capacidade de decisão ganham importância
Embora algumas atividades possam ser automatizadas, a inteligência artificial também pode ampliar as possibilidades de atuação de profissionais menos experientes. A condição, segundo os especialistas, é que eles saibam utilizar as ferramentas e definir corretamente o que precisa ser feito.
Para Anselmo Riso, a transformação tende a aumentar a demanda por trabalhadores que combinem conhecimento técnico com capacidade de tomar decisões. Ele ressaltou que a necessidade de atualização não se limita aos jovens que estão ingressando no mercado de trabalho. “O mais importante é que as funções que tendem a crescer são as funções que exigem conhecimento técnico e capacidade de tomar decisões. Então é importante que as pessoas, como o Zé colocou, não são jovens, mas também algumas pessoas da nossa faixa, vamos dizer assim, que estão atuando no mercado, que têm uma vontade de se modernizar e entender como trabalhar com a IA”, afirmou.
O presidente do Ciesp Campinas também destacou que a atividade manual continua necessária em diversas empresas. Segundo ele, o nível de automação da indústria brasileira ainda permite a manutenção de vagas que dependem da atuação humana. “Mas ainda há necessidade de cargos humanos ainda, vamos dizer assim, de existem muitas vagas para nas empresas, para pessoas, não é? Porque ainda mesmo com a com a inteligência artificial. As empresas precisam da atividade manual. O Brasil não é um país que tenha automatização em excesso, não é? Então a gente sabe que tem vagas para muitas pessoas, ainda mais que as pessoas têm que se preparar”, declarou.
A adaptação, portanto, não envolve apenas o receio de perder o emprego. Também inclui a atualização profissional para acompanhar as mudanças dentro das próprias empresas e aproveitar os ganhos de produtividade proporcionados pelas novas ferramentas.
Mercado de trabalho pode passar por polarização
Outro possível efeito da inteligência artificial é a polarização do mercado de trabalho, com diferentes níveis de exposição à automação entre as funções. Wagner Madeira avalia que a substituição dependerá, entre outros fatores, dos custos e das vantagens de utilizar sistemas tecnológicos ou manter trabalhadores em determinadas atividades. “Claro, existem funções que dificilmente você vai ter o humano substituído”, afirmou.
O especialista citou como exemplo os cargos de presidente de empresa e de faxineiro, que, por razões distintas, apresentariam dificuldades para serem substituídos. Na avaliação dele, a tecnologia pode ampliar a demanda por determinadas funções de gestão, ao mesmo tempo que modifica atividades administrativas e operacionais.
Essa mudança também diferencia a atual fase tecnológica de processos anteriores de automação, que tiveram efeitos mais concentrados no chão de fábrica e nos sistemas administrativos. Com a inteligência artificial, a possibilidade de executar tarefas intelectuais amplia o alcance da transformação para outras áreas das organizações.
Adoção da tecnologia deve avançar nas empresas
A velocidade das mudanças ainda dificulta prever como o mercado de trabalho estará organizado nos próximos anos. Enquanto as ferramentas evoluem, empresas e profissionais precisam se adaptar às possibilidades de aplicação e aos impactos da inteligência artificial.
Para Wagner Madeira, a tendência é que a adoção se torne generalizada. “Eu diria que todo mundo vai usar. Esse número vai bater em 100% e muito rapidamente, porque não há alternativa”, afirmou.
O especialista também classificou o avanço da IA como uma revolução tecnológica de grande impacto. “O advento da IA, que, de acordo com as minhas pesquisas, é uma revolução tecnológica, seria a sexta revolução tecnológica, ela tem esse caráter mesmo de explosivo e quem não usar vai sucumbir”, disse.
Na indústria da região de Campinas, os dados do Ciesp indicam que a inteligência artificial já faz parte do presente. Com 58% das empresas entrevistadas utilizando a tecnologia e outros 25% planejando adotá-la nos próximos meses, o desafio passa pela adaptação dos processos produtivos e pela preparação dos profissionais para um ambiente em que máquinas e sistemas também executam tarefas intelectuais.
Esta matéria foi útil para você?
Newsletter TODODIA
As mais lidas do dia, direto no seu e-mail. Grátis.
Veja também
37 anos do TODODIA: a visão do fundador que transformou um legado em um ecossistema de comunicação
Roberto Romi Zanaga, presidente e fundador do TODODIA, relembra a trajetória da marca, a decisão de encerrar o jornal impresso e a visão empresarial que orienta sua transformação…
Escuta e acolhimento ajudam a identificar sinais de sofrimento emocional
Região registrou 92 mortes por suicídio entre janeiro e maio; psicóloga orienta como perceber mudanças de comportamento e oferecer apoio
Amai transforma experiência com autismo em rede de apoio para mães atípicas
Entidade de Santa Bárbara d’Oeste completa 15 anos e atende gratuitamente 81 pacientes de até 18 anos
