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“Neta de aluguel” já ensinou “uns 70” vovós e vovôs o que a web pode lhes ajudar e alegrar no dia a dia
by Rogério Verzignasse

Bom, a dona Tereza, senhorinha de 78 anos, ficou feliz demais quando criou a própria página no Facebook. Agora ela deixa de lado um pouquinho as vassouras e as panelas, e se diverte conversando com as amigas, em tempo real. Encontrou na web até os parentes que não via há décadas.

Ela tem, lógico, as limitações de quem estudou na roça há mais de sete décadas: comete os errinhos de português, apanha da tecnologia touch quando escorre o dedo na tela do celular. Mas e daí? A dona se sente feliz para caramba, troca fotos, põe em dia os causos. E só lamenta que demorou tanto para descobrir a Internet.

A senhora – moradora da região do Jardim Girassol – é uma das centenas e centenas de pessoas idosas que, todos os dias, descobriram as maravilhas da modernidade. Graças a ajuda de filhos e netos que, do jeito deles, dão aos velhinhos as noções básicas do mundo digital. Mas, claro, nem todo mundo tem vocação e paciência para ensinar.

Diante da situação, aparecem pela cidade os jovens da geração Millenium – aqueles que nasceram quando já existiam os computadores – que encontram o maior prazer em compartilhar conhecimentos tecnológicos com os mais idosos. Mais que isso. Gente que fez da arte uma opção de ganhar um dinheirinho.

A publicitária Ana Paula Assato, 30, trabalha como “neta de aluguel” desde setembro de 2018. Ainda estuda: faz pós em gerontologia, porque descobriu a importância de dar atenção para as pessoas de mais idade. Ela conta que percebeu, na época, que a comunidade tinha muitos idosos ativos, trabalhando, cheios de energia, que ainda não dominavam os recursos de informática.

Bom, ela tinha dom para lidar com os idosos. Morava com a avó (que hoje tem 91 anos) e adorava ensinar os macetes do celular para o pai Seiske (aposentado, hoje com 66 anos). Por que não levar o trabalho para fora de casa?

Um vizinho ali, uma amiga aqui, um conhecido acolá. A moça conseguiu, em dois anos, “apresentar o computador o celular para dezenas de “vovós e vovôs” de aluguel. “Uns 70”, estima. Ela visitava cada um de vez em quando, sanava dúvidas, dava dicas.

E a relação com os “alunos”, até hoje, vai muito além das telinhas e teclados. Nasceram amizades fortes, celebradas em almoços e cafés. Contatos de confiança plena, camaradagem.

O começo não é fácil, ela sabe. A maioria dos velhinhos fica receosa, desconfiada, até envergonhada de não saber nada da arte. Mas, em pouco tempo, a “neta de aluguel” vira membro da família.

“O prazer de lidar com os velhinhos virou como uma profissão. A gente precisa ter toda cautela, toda paciência, saber ouvir”, diz. “Muitos idosos tiveram, inclusive, situações difíceis quando tentaram esclarecer dúvidas com os parentes. A recepção entre os mais jovens não foi das melhores”.

Ah, mas nem tido são rosas. Ana Paula às vezes nem é bem recebida por filhos e netos. E os discursos, invariavelmente, revela ciúme. Mas a moça tira de letra. A espontaneidade das aulinhas também acaba conquistado o coração dos mais jovens ao redor.

Aconteceram situações divertidas.  Como a de um senhorzinho que se negava a enviar mensagem de áudio pelo WhatsApp, afirmando que não era locutor e tinha a voz feia. Hoje o homem usa o recurso o dia todo para conversar com os parentes.

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