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Quarentena na região tem uma mulher agredida a cada 3h30

Foram 202 casos de violência doméstica em um mês, logo no início do isolamento, nas cinco cidades da região
by Claudete Campos

A cada 3 horas e meia uma mulher foi agredida pelos maridos, companheiros ou namorados em cinco cidades da região no primeiro mês de quarentena. A média é de 6,7 casos por dia. Em apenas um mês, 202 mulheres foram vítimas de violência doméstica em Americana, Santa Bárbara d’Oeste, Nova Odessa, Sumaré e Hortolândia. 

Os dados foram obtidos pelo TodoDia através da Lei de Acesso às Informações e compreendem o período entre 14 de março e 13 de abril, tão logo entrou em operação o registro eletrônico das ocorrências. 

Os registros policiais apontaram 83 casos de violência doméstica em Americana, 51 em Sumaré, 36 em Hortolândia, 19 em Santa Bárbara d’Oeste e 13 em Nova Odessa no período analisado. 

O número de agressões acendeu o sinal vermelho entre grupos de proteção das mulheres na região. 

A presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Americana, Léa Amábile, considerou o número de registros significativo. 

“É sim um número alto, considerando que muitas mulheres estão em isolamento e não têm acesso à Internet para poder fazer o boletim de ocorrência via site da Secretaria de Segurança Pública”, disse Lea. Ela acredita que o número seja de duas a três vezes maior, em decorrência deste obstáculo. 

Os dados estão subnotificados, acredita a presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Santa Bárbara, reverenda Ione da Silva. 

Ela afirmou que muitas mulheres não fazem o registro do boletim online porque não acreditam que a denúncia será eficaz como o presencial, o que não procede. 

PRISÕES 

Presidente da Comissão da Mulher Advogada de Hortolândia, Raquel Sales informou que ocorreram duas prisões por descumprimento de medidas preventivas nesse período. Os agressores já foram soltos. 

“Os casos de medida protetiva aqui em Hortolândia estão sendo enviados diretamente do Fórum para o Cram (Centro de Referência da Mulher), onde orientam as mulheres que não têm condições de custear advogados particulares e as enviam para a OAB para nomeação de advogados para divórcio e alimentos”, disse Raquel. 

O Cram de Hortolândia estava monitorando 25 dessas mulheres que tinham medidas protetivas. 

Raquel disse que o número de registro de crimes de ameaça às mulheres teve redução de 3.879 registros em abril do ano passado para 2.156 em abril deste ano, em todo o interior de São Paulo. 

Em contrapartida, o feminicídio no Estado dobrou: passou de oito em abril de 2019 para 16 no mesmo mês deste ano. 

“As mulheres pararam de denunciar e nós que estamos no movimento de observação percebemos diminuir muito número de boletins de ocorrências”, disse Raquel, preocupada com o cenário. 

SITUAÇÃO É PREOCUPANTE, DIZ COORDENADORA 

Para a advogada Ionita de Oliveira Krüger, coordenadora estadual da Comissão da Mulher da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) Seccional São Paulo, a situação é preocupante. 

“A violência contra a mulher é uma verdadeira chaga da sociedade e ela acontece em todas as classes sociais, viola direitos humanos, sendo assim, qualquer índice, qualquer comparativo que apresente agressão contra uma mulher traduz em uma sociedade que prepondera o machismo estruturante e isso inibe qualquer avanço”, diz. 

Para Ionita, as causas da violência contra as mulheres são o machismo, o patriarcado e a dominação. “A crise que estamos vivenciando não é a causadora desses comportamentos”, explicou. 

“Um conjunto de políticas públicas de atendimento humanizado, de acolhimento, com segurança, e interdisciplinar para a mulher que decide denunciar o seu agressor é medida de combate efetivo à violência doméstica, pois a impunição favorece as violências cotidianas, especialmente nesse período de distanciamento social, em que mulheres, meninas, idosos e até animais permanecem isolados por 24 horas”, explicou Ionita. 

DOBRA PROCURA POR ABRIGO  

Outro indicador que aponta para o aumento da violência doméstica foi a maior procura pelo Abrigo de Mulheres, em Santa Bárbara. Antes da pandemia, abrigava quatro mulheres e seus filhos. Depois, oito famílias. A capacidade é para 16 famílias. 

Somente em maio foram concedidas 23 medidas protetivas a mulheres em Santa Bárbara d’Oeste, segundo a reverenda Ione. É quase uma medida por dia. 

ANJO DA GUARDA 

A vereadora Germina Dottori (Podemos) também informou que o programa Anjo da Guarda da Mulher, em Santa Bárbara, no período de janeiro até 15 de março de 2020, contava com 32 mulheres no programa, com as medidas protetivas. De 15 de março até 15 de maio, foram mais 17 medidas protetivas. 

VÍTIMA E AGRESSOR JUNTOS 

“Com a pandemia, o cenário de vulnerabilidade ficou mais acentuado porque as mulheres estão confinadas em casa com os agressores”, lamenta a reverenda Ione da Silva. 

Ela afirma que a agressão pode ser uma válvula de escape nesse momento de pandemia, em que os homens estão confinados com as mulheres nos lares e que são impactados pela crise financeira. Uma parte desconta as frustrações nas mulheres. 

A vereadora Germina Dottori (Podemos), de Santa Bárbara d’Oeste, também considerou os números preocupantes. 

“Com relação à nossa região, uma mulher sendo agredida a cada 3,5 horas é um número muito alto e preocupa a todos. Pois foram sete mulheres agredidas diariamente nestas cinco cidades”, ressaltou a vereadora. 

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GERMINA | Para vereadora, números preocupantes (Foto: Arquivo | TodoDia Imagem)

Germina alerta para os danos à saúde física, psicológica, mental e patrimonial, havendo ainda redução da capacidade cognitiva e de intelecto tanto da mulher quanto de seus filhos. 

“É um prejuízo incalculável e imensurável. Muitas mulheres e seus filhos não conseguem se recuperar se não forem tratados por equipe multiprofissional”, completou. 

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