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Sumaré: Vila Soma entra na rota de testagem em massa da Unicamp

Áreas de vulnerabilidade fazem parte de força-tarefa da universidade em busca do controle da Covid-19
by Rogério Verzignasse

Áreas de vulnerabilidade de Sumaré fazem parte de uma força-tarefa da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) para a testagem em massa de Covid-19. 

O trabalho permite o controle efetivo da doença nas comunidades, identificando casos, ordenando o isolamento social, difundindo técnicas preventivas. 

O projeto é amplo, se expande por todo o Estado de São Paulo, e chega até a regiões de baixos índices de desenvolvimento humano, como as periferias do Vale do Ribeira, comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas do Litoral. 

Em Sumaré, ao longo de três meses, os técnicos da Unicamp testaram e orientam moradores da região da Vila Soma, conhecida área de ocupação que existe há quase uma década, e que hoje é habitada por 2,5 mil famílias. 

A ação da Unicamp foi articulada a partir de uma dirigente do Módulo de Saúde do bairro, que passou pela universidade, e é conhecedora de todas as carências e vulnerabilidades locais. 

Luciana Utsonomiya fez residência médica na Unicamp em 2005.  “Indicamos a Vila Soma para o projeto porque tínhamos preocupação com os trabalhadores, grande parte informais, que continuavam suas atividades na pandemia, e as famílias que viviam em moradias sem condições de cumprir as medidas de distanciamento”, afirmou. 

“Muitas não faziam acompanhamento regular no serviço de saúde da rede de atenção básica, além da mortalidade por faixa de renda estar relacionada a famílias com renda menor”, explicou. 

Sávio Cavalcanti, professor de sociologia da Unicamp e um dos articuladores da força-tarefa, fala da importância da parceria com a serviço público. “Com a ajuda da prefeitura, dos vereadores e da própria comunidade, conseguimos dar atenção a toda a comunidade”, disse. 

Para se ter uma noção da importância do trabalho, basta a constatação de que 64,8% dos 94 moradores testados na primeira etapa da ação estavam infectados pelo coronavírus. 

Diante da constatação, os técnicos já articulam novas testagens em massa e campanhas informativas na Vila Soma e arredores. 

PARCERIAS 

Mas, muito além de essencial para a saúde pública, o programa vai além. É nos núcleos historicamente apartados de atenção pública e carentes de políticas sociais que a equipe busca engajar os moradores e preservar aspectos culturais. 

As comunidades se tornam espaço de atuação da própria universidade, envolvendo pesquisadores e especialistas. 

O projeto nasceu da articulação entre a Unicamp, governos, institutos e associações responsáveis que conhecem cada núcleo e podem dar suporte à assistência aos carentes. 

O trabalho começou em agosto em aldeias indígenas na região de Mongaguá. Com rodas de conversa, se buscou sensibilizar a população sobre as formas de controle da pandemia, como o distanciamento social, a lavagem das mãos, o uso de máscaras. Mas os técnicos seguiram acompanhando a comunidade, identificando carências, resgatando costumes e valores. 

De acordo com Paulo Abati, médico infectologista da FCM (Faculdade de Ciências Médicas) da Unicamp, especializado em saúde indígena, a pandemia trouxe prejuízos sérios aos guaranis. 

“Os índios, por terem pouca área para o roçado, a caça e a coleta de alimentos, precisam com frequência visitar a cidade”, disse. “O isolamento total era impossível.”. 

Outro impacto sério, diz, é o chamado “etnocídio”. Um elemento cultural nas aldeias é a transmissão oral de conhecimento a partir dos mais idosos para os mais novos, sem registro em livros. 

“Como a pandemia faz mais vítima entre os mais idosos, a aldeia corre o risco de perder suas referências, sua própria cultura”, ressume. 

O trabalho começa a se expandir das aldeias para as comunidades carentes do Vale do Ribeira. Mas o trabalho nas áreas vulneráveis nem sempre é fácil. A testagem pelo método do swab (cotonete especial), por exemplo, provoca desconforto e foi rejeitado por muitos indígenas. 

“Nós atuamos sem uma visão etnocentrista. Com muito diálogo e humildade cultural”, diz Abati. 

De acordo com médica sanitarista Silvia Santiago, também integrante da força-tarefa, o apoio às áreas vulneráveis acabou mostrando uma soma de diferentes esforços e saberes, em diversas áreas de conhecimento – da medicina à sociologia – que ressalta a importância da universidade pública. “Não é o teste pelo teste”, disse, explicando que a ação revela o campo de trabalho imenso dos pesquisadores para a transformação social.  

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