Antes de qualquer cargo, somos gente. E gente cuida do lugar onde vive
Por Leco Soares, vereador de Americana
Outro dia eu passei numa rua aqui de Americana e vi papel espalhado pelo chão, pisado, molhado de chuva, misturado com folha seca. Aquilo me incomodou.
Cada papel jogado ali representa uma escolha que alguém fez, e a cidade inteira sente o resultado depois.
Isso me fez pensar num assunto maior, que a gente vê tanto que já nem repara direito: o excesso de estímulo visual nas nossas ruas, esse tanto de imagem, cor e informação competindo por atenção o tempo inteiro. Isso tem um lado ambiental, ligado a material produzido, usado por pouco tempo e descartado logo em seguida. E tem também um lado social pouco comentado: excesso visual deixa o ambiente mais cansativo de habitar, de caminhar, de simplesmente existir dentro dele.
Esse mesmo raciocínio vale para outro tipo de excesso, ainda mais presente no dia a dia de cada família: a tela.
Vi recentemente a entrevista de um neuropediatra, referência nacional em desenvolvimento infantil, falando sobre o impacto do uso de tela sem supervisão em crianças e adolescentes. Segundo ele, esse uso sem acompanhamento pode prejudicar o desenvolvimento do cérebro nessa fase da vida. Quem já observou uma criança depois de tempo demais de tela reconhece o que ele descreve: agitação, irritação, dificuldade de prestar atenção em qualquer coisa que não tenha luz piscando e som chamando atenção o tempo inteiro.
A gente vive cercado de estímulo, seja na rua, seja na palma da mão. E vale a pergunta: que tipo de mundo a gente está deixando para as próximas gerações?
Que tipo de consciência a gente ensina, sem perceber, só pelo ambiente que constrói ao redor delas?
Sustentabilidade também é moderação
Sustentabilidade tem a ver com reciclagem, com cuidado com rio e área verde, mas também tem a ver com moderação, com escolher a quantidade certa de qualquer coisa, sabendo que espaço técnico para fazer mais não significa que fazer mais seja sempre a melhor escolha.
A regulamentação que limita quantidade de material visual em espaço público existe com um objetivo claro: manter esse equilíbrio, evitando que o ambiente coletivo fique sobrecarregado além do que a cidade e a mente das pessoas conseguem absorver bem.
Responsabilidade de todos
A responsabilidade por manter esse equilíbrio passa por todo mundo, junto. Por quem produz material, por quem descarta ele depois, por quem decide quanto tempo de tela permitir dentro de casa, por quem escolhe preservar um pouco de silêncio visual na rotina da família.
Cuidar de gente também é cuidar do ambiente que forma essa gente, físico ou digital. Saúde mental de criança tem relação direta com o tanto de estímulo que a rotina dela carrega, do mesmo jeito que saúde pública tem relação direta com meio ambiente.
Um mundo mais consciente para a próxima geração começa nas escolhas pequenas de hoje. Menos excesso na rua. Menos excesso na tela. Mais espaço para respirar, pensar e enxergar o que realmente importa.
Cuidar do outro, cuidar do planeta e cuidar da mente de quem vem depois da gente são partes do mesmo compromisso.
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