sábado, 26 setembro 2026
SETEMBRO AMARELO

Escuta e acolhimento ajudam a identificar sinais de sofrimento emocional

Região registrou 92 mortes por suicídio entre janeiro e maio; psicóloga orienta como perceber mudanças de comportamento e oferecer apoio
Por
Emilly Ferreira
Atendimento em saúde mental é oferecido pelo SUS. Foto: Divulgação

A região registrou 92 mortes por suicídio entre janeiro e maio de 2026, segundo dados do Ministério da Saúde. Campinas concentra o maior número de ocorrências, com 38 registros, seguida por Americana, com 11, e Sumaré, com dez.

Os números chamam atenção para um problema que muitas vezes permanece oculto para quem está por perto. Durante o Setembro Amarelo, campanha de conscientização e prevenção do suicídio, o debate sobre sofrimento emocional, acolhimento e acesso à ajuda ganha espaço.

Na sequência do levantamento aparecem Piracicaba, com nove mortes; Santa Bárbara d’Oeste, com oito; e Limeira, com sete. Hortolândia registrou cinco casos, enquanto Cosmópolis e Paulínia tiveram dois cada. Nova Odessa não teve ocorrência notificada no período.

Sofrimento pode permanecer silencioso
Por trás das estatísticas estão pessoas e famílias afetadas pelo luto. Para a psicóloga Anna Julia, a falta de pertencimento e de propósito pode fazer parte da experiência de quem enfrenta um sofrimento intenso. “Eu vejo que é uma falta de pertencimento mesmo. Muitas vezes falta de sentimento de utilidade, de que você tem um propósito, um sentido de vida mesmo. De que você é importante ali, de que você é visto, de que você é valorizado.”

Segundo a profissional, a pessoa pode chegar a um nível de sofrimento em que deixa de enxergar alternativas para lidar com o que está vivendo. O levantamento também mostra concentração de ocorrências entre pessoas de 30 a 49 anos, faixa que reúne 45 dos 92 registros, quase metade do total.

Para Anna Julia, esse período da vida pode ser marcado pela combinação de responsabilidades profissionais e familiares. “É uma faixa em que as pessoas acabam se atrelando muito ao trabalho mesmo, à produtividade. É uma faixa em que muitos estão tendo filhos também, cuidando de filhos, da família. E eu sinto que é uma sobrecarga, um peso muito grande para eles estarem à frente dessas famílias.”

A psicóloga destaca ainda que a falta de tempo para olhar para si e cuidar da própria saúde emocional pode contribuir para que sinais de sofrimento sejam ignorados.

Mudanças de comportamento podem ser sinais
O sofrimento intenso nem sempre aparece de forma evidente. Mudanças bruscas de comportamento, isolamento e perda de interesse por atividades que antes faziam parte da rotina podem indicar que algo não vai bem.

Também é importante observar alterações na maneira como a pessoa se relaciona com os outros. Anna Julia explica: “A gente consegue perceber alguns padrões de comportamentos. Aquela pessoa costuma falar mais, costuma ser mais radiante, contar do dia dela, perguntar como estão as coisas, costuma ser mais extrovertida, e aí começa a se isolar, começa a estar mais irritada e não ter muita paciência com as coisas.”

Falas indiretas sobre querer fugir, sumir ou ir embora também merecem atenção. Nesses momentos, segundo a psicóloga, ouvir com disponibilidade pode ser uma forma de acolhimento.

Escutar também é uma forma de cuidar
O tema do Setembro Amarelo 2026 do CVV (Centro de Valorização da Vida) é “Escutar é estar presente”. A campanha reforça a importância de ouvir com atenção, sem julgamentos e sem tentar oferecer respostas prontas.

A psicóloga recomenda perguntar diretamente como a pessoa está e de que maneira é possível ajudar. “É sempre bom perguntar: como que eu posso te ajudar? Como que você está se sentindo? Me fala de como está aí, deixa eu adentrar o seu mundo também, conhecer a sua realidade.”

Para quem está próximo de alguém em sofrimento, a orientação é acolher e, quando necessário, ajudar na busca por atendimento profissional. Também é importante reconhecer os próprios limites e não assumir sozinho a responsabilidade pelo cuidado.

Buscar ajuda não significa fraqueza
A resistência em procurar atendimento psicológico ainda pode estar ligada ao preconceito. Algumas pessoas associam a terapia à fraqueza ou a transtornos mentais graves e temem ser julgadas ou rotuladas.

Para Anna Julia, porém, a terapia pode ser procurada antes que o sofrimento alcance um estágio grave. “É um espaço mesmo de saúde, de acolhimento, não é um espaço de apontar o dedo e falar: ‘você é culpado das coisas que você está fazendo’.”

A profissional também destaca que a terapia pode contribuir para o autoconhecimento, a autoestima, os relacionamentos e a compreensão de situações que provocam sofrimento.

Onde procurar ajuda
Quem passa por um momento de sofrimento emocional pode procurar uma unidade de saúde ou um serviço especializado. O SUS (Sistema Único de Saúde) oferece atendimento em saúde mental, com encaminhamento definido conforme a avaliação de cada caso.

Em situações de sofrimento intenso, também é possível buscar o atendimento do CVV pelo 188, gratuitamente e 24 horas por dia. O serviço oferece escuta sigilosa e acolhedora por telefone, além de canais digitais.

Em caso de emergência ou risco imediato, a orientação é procurar um serviço de urgência ou acionar o atendimento de emergência.

A mensagem do Setembro Amarelo é que ninguém precisa enfrentar o sofrimento sozinho. Escutar, acolher e ajudar na busca por atendimento podem ser passos importantes para quem precisa de apoio.

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