
O crescimento das apostas on-line tem levado cada vez mais pessoas a procurar ajuda médica por causa da dependência. A facilidade de acesso pelo celular, a expectativa de ganhos e a tentativa de recuperar o dinheiro perdido estão entre os fatores que podem contribuir para o desenvolvimento do transtorno do jogo.
Em entrevista à TV TODODIA, o médico psiquiatra Dr. Tobias Cardoso afirmou que já recebe pacientes que chegam ao consultório pedindo internação por causa do vício em apostas. Segundo ele, o problema também afeta a saúde mental dos familiares, principalmente quando as perdas financeiras comprometem as despesas da casa. “O mecanismo de recompensa é o mesmo, que é associado à dopamina. E o grande problema é que as bets ficam 24 horas disponíveis no celular”, explicou o médico.
Sinais de alerta
Um dos principais desafios é identificar quando as apostas deixam de ser ocasionais e passam a prejudicar a vida da pessoa. Entre os sinais estão o atraso no pagamento de contas essenciais, a contratação de empréstimos, os pedidos de dinheiro a familiares e as mudanças de comportamento relacionadas aos resultados dos jogos.
Para o psiquiatra, os prejuízos provocados pelas apostas estão entre os principais indicadores de que existe um problema que precisa de atenção. “Começou realmente a me prejudicar? Começou realmente a prejudicar a minha relação com a família? Estou tendo que fazer empréstimo, estou tendo que fazer dívida, não estou cumprindo com o mínimo daquilo que eu preciso cumprir? Eu acho que daí a gente tem um problema”, afirmou.
Dependência pode agravar o sofrimento emocional
As consequências do vício vão além das dívidas. A sensação de incapacidade, a vergonha e o medo de admitir as perdas podem intensificar o sofrimento psicológico e contribuir para quadros de depressão. Em situações mais graves, a pessoa pode desenvolver pensamentos suicidas.
O médico destaca que o acolhimento é fundamental para evitar o agravamento do sofrimento. Familiares e amigos devem observar mudanças de comportamento e oferecer apoio sem críticas ou julgamentos. “Quando, na verdade, você pedir ajuda é o primeiro passo para você conseguir reverter tudo isso”, ressaltou Tobias.
Família tem papel importante no tratamento
Ao perceber que alguém está perdendo o controle das apostas, a orientação é conversar, ouvir e incentivar a busca por ajuda profissional. O tratamento pode incluir acompanhamento psicológico e psiquiátrico e, em alguns casos, internação.
O especialista também recomenda atenção à organização financeira. Segundo ele, uma pessoa de confiança pode ajudar a administrar o dinheiro destinado às despesas e ao pagamento das dívidas, evitando que novos recursos sejam usados nas apostas. “Eu acho que o primeiro passo é o acolhimento, o não julgamento, você não brigar com a pessoa, você não fazer daquilo o fim do mundo”, orientou.
Proibição das bets não encerra o problema
Ao comentar a recente proibição federal das plataformas de apostas, o psiquiatra destacou que a medida pode reduzir a exposição à publicidade, mas não garante que pessoas que já desenvolveram dependência parem de apostar. Segundo ele, há pacientes que recorrem a sites clandestinos mesmo depois de adotarem medidas para restringir o próprio acesso às plataformas. “Na verdade, a proibição das bets não resolve o problema, porque quem já está dentro do vício vai achar outro caminho para jogar”, afirmou.
O médico defende que, além das medidas de restrição, sejam ampliadas as políticas públicas de prevenção, acolhimento e tratamento. Ele também ressaltou a importância dos grupos de apoio para pessoas que enfrentam o transtorno do jogo.
No Setembro Amarelo, a mensagem do especialista é que a dependência e os transtornos de saúde mental precisam ser tratados com seriedade e sem julgamentos. O reconhecimento do problema e a busca por ajuda são passos importantes para a recuperação.





