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O Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp realizou, em janeiro, um procedimento inédito na instituição para auxiliar uma criança que enfrentava problemas cardíacos. Trata-se do uso de uma espécie de “coração artificial”. Diante do sucesso no caso, o HC divulgou a informação agora, em fevereiro.
A tecnologia foi empregada pela primeira vez na instituição para tratar um paciente de um ano e sete meses na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) pediátrica. A criança havia contraído uma virose, que causou uma miocardite viral e evoluiu para uma insuficiência cardíaca gravíssima, que poderia levar a uma falência irreversível do órgão.
Para evitar isso, a princípio foram utilizados medicamentos e um suporte mecânico, popularmente chamado de respirador: o ECMO-VA, que assume temporariamente as funções do coração e dos pulmões, conforme explica o médico cirurgião Orlando Petrucci Júnior, coordenador da cirurgia cardíaca do HC. “Essa criança já estava em ECMO, uma situação muito grave. Ela chegou ao hospital com várias paradas cardíacas e estava em um estado muito crítico quando a colocamos no ECMO. Assim que vimos no ecocardiograma que o coração estava muito danificado, já a listamos para transplante, mas ela tem um tamanho pequeno, então os doadores são limitados para essa população de pacientes.”
Após 18 dias, não houve melhora suficiente na função cardíaca, e a equipe optou por uma tecnologia mais duradoura: a bomba centrífuga externa CentriMag, que atuou como uma espécie de “coração artificial” temporário.
“Decidimos usar a CentriMag nessa criança porque ela estava em um quadro de insuficiência cardíaca aguda, ou seja, o coração não estava funcionando como bomba e ela estava em risco de morte. Após cerca de três semanas com a CentriMag, observamos uma melhora progressiva do coração. Ela foi mantida na lista de transplante, e houve algumas ofertas para ela, mas os doadores não eram compatíveis. Para a sorte dela, o coração foi se recuperando, o que nos permitiu retirar a CentriMag”, conta Petrucci. Depois disso, a criança saiu da UTI, passou por um período de recuperação na enfermaria e, neste mês, obteve alta hospitalar, podendo finalmente voltar para casa.
Uso em adultos
Os dispositivos utilizados são essenciais para manter o paciente estável enquanto aguarda um transplante ou para dar mais tempo ao coração para se recuperar. Esta foi a primeira vez que a CentriMag foi utilizada no HC da Unicamp e na região. A utilização dessa tecnologia é tratada como um avanço significativo para o hospital, ampliando as opções de tratamento para pacientes, não só pediátricos, mas também adultos, que estejam em estado crítico.
“Esse equipamento pode ser implantado em adultos também, existem tamanhos diferentes. Esses equipamentos são mecanismos de assistência ventricular prolongada, que permitem manter pacientes com o coração em um estado muito ruim, aguardando um órgão ou esperando a recuperação do coração, o que pode acontecer em algumas situações, como foi o caso desta criança. Mas existem pacientes que ficam nesses sistemas por períodos prolongados, de seis meses, às vezes até um ano, aguardando a doação de um órgão compatível. Então, é um grande passo, foi um avanço muito importante, e estamos bastante entusiasmados com isso”, finaliza o cirurgião.
Poucas instituições no Brasil possuem experiência com essa tecnologia, sendo o Instituto do Coração (INCOR), em São Paulo, uma das referências no uso do equipamento, que agora deverá ser utilizado com mais frequência em nossa região.