sábado, 5 abril 2025
EM CARTA

Cientistas brasileiros buscam recuperar fóssil contrabandeado pela Alemanha

Em entrevista ao TODODIA, o paleontólogo Juan Carlos Cisneros fala sobre o Irritator Chalengeri e a pressão para museus alemães devolverem o fóssil
Por
Isabela Braz
Foto: Reprodução/Twitter/Olof Moleman

Nesta última sexta-feira (28), cientistas brasileiros especializados em paleontologia publicaram uma carta aberta, cobrando do estado de Baden-Württemberg no sudoeste da Alemanha, a devolução do fóssil de um crânio de um dinossauro originário do Brasil, o Irritator Chalengeri, considerado um dos fósseis mais completos encontrados em terras brasileiras.

O fóssil foi contrabandeado por alemães em 1990 e em maio deste ano, cientistas alemães divulgaram um novo estudo sobre a espécie, assumindo o estado problemático em que a peça foi adquirida, ou em linguagem popular, assumiram o contrabando desse crânio.

Os cientistas brasileiros caracterizam como tráfico o fóssil do animal, porque desde 4 de março de 1942, por meio de um Decreto-Lei Nº 4.146, assinado pelo presidente Getúlio Vargas, fósseis encontrados no Brasil são propriedade do Estado e não podem ser comercializados.

Em entrevista à rede TODODIA, o paleontólogo e um dos coordenadores do projeto que busca a restituição deste patrimônio para o país, Juan Carlos Cisneros, comentou sobre a carta lançada e a revolta que cientistas brasileiros tiveram ao ler o artigo.

“Isso nos chocou bastante, porque a gente considera que não é correto que esses fósseis que são produtos do tráfico continuem sendo pesquisados por cientistas estrangeiros, porque, ao fazerem isso, eles estão valorizando-os, eles estão valorizando fósseis que pertencem ao Brasil, mas que saíram ilegalmente do nosso país”, diz Juan.

Nos últimos três anos, esses cientistas estão envolvidos em vários casos de lutas de restituição de fósseis de patrimônios nacionais, entre um dos casos de sucesso, o caso do Ubirajara, um fóssil de dinossauro que deve retornar ao país, ainda neste ano.

Juan comenta que o caso do dinossauro Ubirajara mostrou que o Brasil pode conseguir reaver o seu patrimônio, com organização e articulação de todos. A carta, em luta agora pelo outro fóssil, disponibilizada online para ser assinada pela população, deve ficar aberta pelo período de 30 dias antes do envio para a Ministra da Ciência do Estado, Petra Olschowski, e pode ser assinada por todos que se sensibilizarem com a causa – inclusive, até pesquisadores alemães que participaram das pesquisas do dinossauro divulgado em maio apoiam a causa brasileira.

“Isso eu acho que dá uma perspectiva diferente a esta situação, porque significa que agora estamos começando a ter apoio também do lado de lá, na Alemanha. Cada vez as pessoas estão se sentindo conscientes que esses fósseis que saíram irregularmente do Brasil não têm que estar lá, eles têm que estar de volta aqui. Então, eu acho que vamos conseguir”, afirma o pesquisador.

A carta teve boa repercussão nas redes sociais. Cisneros diz que já nas primeiras três horas em que o documento foi disponibilizado online, os cientistas conseguiram coletar mais de 200 assinaturas. “importante isso e é um sinal muito bom de que os brasileiros estão tomando consciência de que temos que defender nosso patrimônio”, afirma.

Para os interessados em assinar a carta e conhecer mais sobre o Irritator, pode acessar todas as informações por meio do site https://linktr.ee/irritator.repatriation ou encontrar diretamente do twitter do pesquisar por meio de @PaleoCisneros.

Foto: Reprodução/Twitter/Olof Moleman

A espécie

O paleontólogo explica que o Irritator é um dinossauro carnívoro do tipo espinossaurídeo – considerados um dos maiores tipos de dinossauros existentes, que se alimentavam de outras espécies. O animal viveu no período cretáceo, há cerca de 99 milhões de anos atrás.

Seu nome foi dado no mesmo período em que foi traficado. Um enxerto de gesso, terra e pedaços de ossos foi acrescentado pelos vendedores do fóssil para valorizar a peça e parecer maior e mais completa. O problema veio no momento da retirada desse material, que causou uma irritação nos compradores da peça – gerando assim, o nome Irritator.

Estudos revelam que o animal deveria possuir um pescoço relativamente longo, três dedos com garras afiadas – chamado de terópodes –, e possuía velas nas costas. O animal transitava bem entre ambientes aquáticos e terrestres.

O dinossauro foi encontrado na região da Chapada do Araripe, no nordeste brasileiro, entre os estados do Piauí, Ceará e Pernambuco. Segundo Juan, essa área é uma área muito rica em fósseis. “Esse dinossauro saiu dessa região, foi parar lá na Alemanha, e nós estamos solicitando que ele seja devolvido, porque o lugar dele é aqui no Brasil. Ele tem que estar aqui no Nordeste e que as pessoas conheçam que ele foi encontrado aqui na comunidade”, afirma.

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