domingo, 30 novembro 2025
TRANSFORMAÇÃO

Adolescentes da Fundação Casa prestam vestibular e encontram na educação um caminho de mudança

Preparação, apoio familiar e atividades socioeducativas impulsionam novos horizontes dentro e fora da unidade
Por
Nicoly Maia
Professor Ronaldo ensina Matemática aos adolescentes e se sente útil na função. Foto: Alessandro Araújo/TV TODODIA

Com roupas separadas especialmente para a entrevista, diferentes das usadas no dia a dia, três jovens se reúnem em uma sala de aula dentro da Fundação Casa Campinas. O motivo é compartilhar a expectativa para o vestibular da Escola Técnica Estadual (Etec), que aconteceria neste domingo (30).

A unidade conta com 47 adolescentes. Destes, quatro decidiram prestar a prova, um deles já está em liberdade. Os jovens cumprem medidas socioeducativas e puderam se inscrever para as modalidades de Administração, Informática para Internet, Gastronomia e Farmácia.

Segundo o artigo 143 do Estatuto da Criança e do Adolescente, a reportagem utiliza nomes fictícios para identificar os reeducandos, preservando a identidade dos adolescentes.

“Minha meta é ter um bom trabalho, ajudar minha mãe em casa, ter uma vida, ter uma família e parar de fazer coisas erradas”, comentou Murilo*, que está há cerca de 11 meses na unidade.

Transformação
Falando de forma animada, ele reforça que a mudança entre o período anterior à Fundação Casa e o momento atual é evidente. “Aqui eu aprendi muita coisa. Aprendi a escrever melhor, a ler melhor, a estudar. Agora eu guardo as coisas na cabeça. Antes eu esquecia tudo. Hoje penso mais antes de fazer as coisas. Me vejo uma pessoa mais evoluída.”

Nos corredores da unidade, encontramos a mãe de Murilo, que aceitou conceder entrevista e se identificar. Ela é Neiva da Silva. “No começo foi difícil aceitar ele aqui dentro. Depois eu vi que foi excepcional, em termos de comportamento e estudos. Ele estava desmotivado a estudar, e aqui aprendeu muito. Eu to ansiosa pra ele sair e que ele realmente encontro o caminho certo para ele”, afirmou.

A família se torna um elo ainda mais forte para os adolescentes, que mantêm o contato por meio de cartas, visitas e telefonemas. É o caso de Henrique, que está há um ano na unidade.

“Minha mãe me dá conselhos nas cartas. Ela nunca imaginou que eu ia estar num lugar desses. Eu era um menino educado, mas às vezes fugia dela também. Nas cartas ela fala para eu arrumar um serviço bom quando sair, sempre me aconselhando”, acrescentou o jovem.

Henrique* aguarda a decisão do Judiciário sobre a liberdade. E já fez planos de que, quando chegar em casa, vai pedir à mãe sua comida favorita, estrogonofe.

O adolescente Gustavo* vê a prova como uma chance de mudança. “Quero arrumar um emprego bom, mudar de vida, sair dessa”, garantiu. Para isso, ele escolheu o curso de Farmácia na Etec, e espera que a oportunidade se transforme em um novo começo.

Rotina
Os adolescentes da Fundação Casa têm uma rotina bem definida. Eles fazem cinco refeições por dia. O ensino regular acontece pela manhã e, no período da tarde, participam de cursos de capacitação.

“A gente tem parceiros como o Projeto Guri e o Senac. O Guri oferece aula de violão. O Senac dá curso de customização de camisetas. Temos curso de primeiros socorros, desenho de carta, arte e cultura, educação física… O adolescente aqui não para. Estuda de manhã e à tarde, todo dia tem atividade”, explicou o diretor da unidade, Ciro Arlei Francisco.

Os cursos ampliam as possibilidades de inserção profissional quando os jovens retornam ao convívio social. Gustavo fez customização de camisetas e bonés. Henrique já participou de cursos de docinhos de festa e PowerPoint. Murilo realizou três cursos do Senac e agora está aprendendo violão.

“Meu pai é falecido. Eu escrevi uma carta pra ele e quase chorei. Tô fazendo o curso de violão porque o sonho dele era tocar. Para mim é simbólico, é especial”, contou Murilo.

Além da realidade atual
Além das capacitações internas, os adolescentes participam de visitas educacionais a museus, faculdades e ao próprio Senac. “Tem muito adolescente que chega aqui sem nunca ter ido a um museu. Temos uma atividade de aquaponia em que eles visitam universidades e campos experimentais. Quando veem outra realidade, percebem que existe um mundo maior. É transformador”, explicou o diretor da unidade.

Dentro da sala de aula, os jovens se preparam para o vestibular com apoio dos professores, que aplicaram simulados com base na edição anterior.

Professor de Matemática há três anos, Ronaldo Guilherme reforça que “é você se sentir útil”. “É um trabalho dobrado, não é só ensinar Matemática, mas passar experiência de vida. Tentar mudar a mente deles, para que a passagem pela Fundação Casa seja um aprendizado para a vida para que não retornem”, apontou.

Expectativas
Os adolescentes esperam que a prova seja um passo para um novo futuro. “Vou voltar a estudar. Vou fazer essa prova e, se eu passar, começar o curso”, disse Gustavo.

Para Murilo, a chance de prestar o vestibular seria motivo de orgulho para o pai falecido. “Acho que, se ele estivesse aqui, ia ficar orgulhoso. Ele sempre quis o melhor para a gente. Os melhores estudos, as melhores coisas. Mas aí ele morreu e tudo desandou”, acredita o adolescente.

Henrique também acredita na mudança. “Eu não sou mais o menino de 15 anos. Consegui maturidade. Ainda tenho muito a aprender, mas me vejo mais homem, mais consciente. Não vou continuar nessa vida. Quero arrumar um emprego”, reforçou.

Para a mãe de Murilo, só o fato de o filho fazer a prova já é motivo de celebração. “Parabéns pelas suas dedicações e evoluções aqui dentro. Eu fico muito feliz, e seus irmãos também. Tô te esperando aqui fora, ansiosa. A mãe te ama muito”, finalizou Neiva da Silva.

Receba as notícias do Todo Dia no seu e-mail
Captcha obrigatório

Veja Também

Veja Também