Segunda, 27 Junho 2022

Baixa adesão se deve a 'ruídos', dizem médicos

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Baixa adesão se deve a 'ruídos', dizem médicos

Desinformação de pais e fake news sobre imunizantes seriam causas 

Vacinação infantil | Estado busca ampliar cobertura (Foto: Divulgação)
Que o índice de vacinação contra a Covid-19 em Americana está baixo entre crianças de 5 a 11 anos, não é novidade. Os números vêm sendo divulgados desde que a campanha teve início na cidade, em 27 de janeiro, e mostram o município muito atrás da média estadual. Hoje, Americana tem 39,69% de crianças imunizadas com a primeira dose, enquanto a média no Estado de São Paulo é de 74,31%.

São 8.263 crianças vacinadas (até quinta-feira, data do último balanço disponível), de um total de 20.845 estimadas nessa faixa etária na cidade. Na região, a maioria das cidades já bateu os 60%. A campeã é Hortolândia, que já soma 76% desse público-alvo imunizado.

Mas o que explica esse problema? O que está levando pais a não levarem suas crianças aos postos de saúde? Para pediatras da cidade, a explicação está nas redes sociais. Segundo vários deles ouvidos pela reportagem do TODODIA, é espantosa a quantidade de pais e mães que atualmente chegam aos consultórios com dúvidas sobre eficácia e falsas notícias sobre mortes provocadas pelos imunizantes que têm aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

"Há uma insegurança muito grande. As perguntas mais frequentes são: 'não é melhor esperar?', 'é segura mesmo?'", conta a pediatra Eliane Avólio Siqueira. Ela constata que a maioria dessas dúvidas são oriundas da internet, onde informações bem embasadas se misturam com teoria da conspiração e gente mal-intencionada. "Há muito ruído de informações, coisas desencontradas", resume.

A mesma opinião tem o pediatra Guilherme Pereira Sandim. "Eu trabalho na rede pública e em consultório particular. E nos dois casos há muitas dúvidas e pais com receio de vacinar seus filhos", observa. Para o Sandim, esse trabalho de "formiguinha" para convencer cada família é primordial.

A ampliação da vacinação em escolas também é bem vista pelos médicos. Há casos constatados por eles de pais que ainda não vacinaram seus filhos por falta de tempo. "Cada vacina aplicada neste momento é uma grande ajuda para nos ajudar a sair dessa pandemia de vez", comenta a pediatra Rebeca Andrade, que atende em consultórios de Americana, Campinas e Santa Bárbara d'Oeste.

Avançar
O secretário de Saúde de Americana, Danilo Carvalho, transparece preocupação com essa baixa adesão à vacinação infantil na cidade, mas prefere não cravar os motivos dela estar acontecendo. "É difícil aferir os motivos, mas é claro que estamos aquém do esperado. Neste momento estamos unindo forças com a educação para tentar reverter isso", avisa.

O secretário se refere ao início, nesta segunda-feira (21), da vacinação nos Ciepes (Centros Integrados de Educação Pública) do município. Inicialmente, serão vacinadas, com a primeira dose, 485 crianças matriculadas nos Cieps dos bairros Jaguari, Antônio Zanaga, São Jerônimo e Cidade Jardim. No entanto, o objetivo das secretarias é que a vacinação se estenda gradualmente para as outras unidades municipais de ensino.

No entanto, o secretário descarta ações mais duras, como a que vai começar realizar em Hortolândia. Lá, a partir de abril, pais e responsáveis por crianças entre 6 e 11 anos de idade, já vacinadas com duas doses contra o coronavírus, precisarão apresentar às escolas da rede municipal o comprovante do esquema vacinal completo contra a Covid-19 ou atestado médico que evidencie a contraindicação à vacina. Segundo a administração, a falta de apresentação do comprovante não impedirá o aluno de frequentar alguma das 59 escolas da rede municipal ou realizar matrícula ou rematrícula.

"No entanto, familiares ou responsáveis precisam informar à escola sobre isso, dentro de prazo máximo de 60 dias, sob a pena de comunicação ao Conselho Tutelar, ao Ministério Público e às autoridades sanitárias, para as providências cabíveis", diz a prefeitura, em nota.

"Neste momento, nem nós e nem a secretária de Educação estamos pensando nisso. Restringir aluno na sala de aula é algo ruim. Nosso esforço é aumentar essa cobertura vacinal de todas as outras formas possíveis", avisa. 

Pais podem ser punidos se não vacinarem filhos?
Os pais têm o direito de optar por não vacinar seus filhos numa pandemia? A pergunta vem sendo feita em várias esferas legais e divide opiniões. No Rio de Janeiro, por exemplo, uma escola particular proibiu alunos não vacinados de frequentar aulas. Uma mãe entrou com ação na Justiça e a juíza que julgou o caso deu ganho à escola.

"Nada há de ilegal no fato de uma escola exigir de seus alunos o comprovante de vacinação contra a Covid-19 para que possam frequentar as aulas presenciais", afirmou a magistrada Mariana Preturlan, da 26ª Vara Federal do Rio de Janeiro.

Elisa Cruz, professora doutora de Direito Civil da FGV (Fundação Getúlio Vargas), pensa parecido. "A vacinação não é, assim, facultativa no Brasil. O dever de se vacinar é particularmente mais importante em relação a crianças e adolescentes, uma vez que a saúde presente e futura deles deve ser assegurada."

O juiz da Vara da Infância e Juventude de Americana, Wendell Lopes Barbosa de Souza, foi procurado, mas preferiu não se declarar para não "se manifestar previamente sobre situações em que deverá atuar nos processos como magistrado".

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