
O medo da violência tem transformado a rotina das piracicabanas: cerca de 58% das mulheres na cidade já deixaram de realizar alguma atividade por receio de retaliação ou assédio. O dado faz parte da pesquisa “Retrato da Mulher Piracicabana”, realizada pela agência privada Olhar Público e divulgada na segunda-feira (16).
Cotidiano feminino
O levantamento apresenta outros indicadores relevantes sobre o cotidiano feminino na cidade, revelando que metade das mulheres não se sentem seguras em seus próprios bairros e que mais de 40% das entrevistadas relatam níveis críticos de sobrecarga no dia a dia.
De acordo com o CEO do Olhar Público, Walton Pousa, a metodologia consistiu em 400 entrevistas domiciliares, abrangendo mulheres a partir dos 16 anos em todas as regiões de Piracicaba. “Nós tivemos algumas preocupações com o estudo, como abordamos temas de violência e assédio, só trabalhamos com pesquisadoras mulheres para evitar situações de gatilhos. Não tivemos nenhum pedido de socorro, mas algumas entrevistadas se emocionaram com certas perguntas”, afirma Pousa.

A análise dos dados também permitiu identificar quatro perfis predominantes que desenham a identidade das mulheres em Piracicaba. O primeiro é o da mulher sobrecarregada, geralmente entre 30 e 49 anos, que equilibra a carreira com a criação dos filhos e as tarefas domésticas, enfrentando altos níveis de estresse.
Já a guardiã da família, perfil mais comum acima dos 50 anos, foca suas energias no bem-estar dos filhos e em questões de saúde. O estudo também destaca a mulher independente, composta por empresárias e profissionais de alta escolaridade com grande autonomia financeira.
Por fim, surge a jovem em construção: são mulheres no início da vida profissional, movidas pela expectativa de crescimento, mas que também compõem o grupo mais exposto ao assédio no cotidiano.
A prevalência do medo
O CEO do Olhar Público explica que a sensação de medo atinge todas essas mulheres, independentemente do perfil. “Cerca de 60% das mulheres vivem em alerta, atravessando idades e ocupações. O medo acaba sendo um limitador social. A experiência urbana feminina é marcada por essa adaptação de rotina e horários para evitar uma possível violência”, diz Walter Pousa.
O estudo vai além de apenas mapear o perfil das piracicabanas. Ao identificar os problemas enfrentados por elas, a pesquisa acaba revelando as reais necessidades da sociedade e o que o poder público precisa fazer para atender a essas demandas.
Walton Pousa destaca os principais desafios. “O maior desafio estratégico acredito que seja desenhar políticas públicas. Às vezes, um poste de iluminação já diminui a sensação de insegurança. Tentar aliviar a carga de trabalho excessivo e diminuir, principalmente, essa sensação de insegurança que a mulher tem hoje”, ressalta o CEO do Olhar Público.

Autonomia financeira
Os dados também revelam que a percepção de autonomia financeira varia diretamente conforme a ocupação profissional. Entre empresárias e mulheres no mercado formal, o sentimento de independência é significativamente maior, enquanto, entre as donas de casa, uma parcela expressiva relata baixa autonomia econômica.
Para os organizadores, tirar um projeto como esse do papel traz um sentimento gratificante pelo diagnóstico necessário, ainda que os dados revelem uma realidade difícil. “É gratificante entender certos segmentos da população, porém, também ficamos assustados com certos resultados. “Eu espero, no ano que vem, estar realizando novamente esse estudo e que esse medo da mulher vá diminuindo cada vez mais”, explica Walter Pousa.
Apesar dos desafios, as mulheres piracicabanas mantêm o otimismo: o índice de confiança para os próximos dois anos atingiu a marca de 8,1, com mais da metade das entrevistadas dando notas máximas para o futuro.
Sem desconsiderar esse otimismo revelado pela pesquisa, é preciso ressaltar que ele contrasta com uma realidade alarmante no dia a dia.

Violência de gênero em Piracicaba
Em 2025, Piracicaba registrou o maior número de medidas protetivas para vítimas de violência doméstica em seis anos. Segundo dados do Painel da Violência Doméstica, do Conselho Nacional de Justiça, esse volume quase dobrou desde 2021.
Vale lembrar: em casos de emergência, a Polícia Militar pode ser acionada pelo 190. Para denúncias de violência doméstica e contra a mulher, o canal de atendimento é o 180.





