quarta-feira, 4 março 2026

Coronavírus deve redesenhar cidades

A pandemia de coronavírus deve promover mudanças radicais na configuração urbana. Depois desse momento de isolamento compulsório e medo de contaminação, as cidades precisam ser pensadas de maneira diferente. Os negócios e serviços não devem estar concentrados em uma única região. Ao contrário, a urbe saudável precisa estimular a densidade habitacional em todo o território, com “múltiplas centralidades” e autonomia.

A tese é de três professores que atuam em faculdades de arquitetura e urbanismo da região: Gabriela Celani e Sidney Piocchi Bernardini (da Unicamp) e Wilson Ribeiro dos Santos (da PUC Campinas), que integram um grupo especial de estudos sobre o tema. Eles responderam, em conjunto, às questões formuladas pela reportagem do TODODIA.

A opinião compartilhada pelo trio, aliás, é inspirada em análises publicadas por especialistas do mundo todo. Principalmente os chineses, que sentiram no próprio país, antes de qualquer outro povo, os efeitos nefastos do vírus.

O modelo atual de urbanização – com comércio e os serviços no Centro, e áreas estritamente residenciais e condomínios fechados na periferia – acaba favorecendo a dispersão do vírus, pois pessoas de todas as partes da cidade precisam circular diariamente pelo mesmo local, onde elas trabalham, estudam, vão ao médico e fazem compras.

O fato é que as lojas, os equipamentos públicos e os edifícios de escritório não sobreviveriam, hoje, em regiões de baixa densidade. Eles precisam de um grande volume de usuários para serem economicamente viáveis. Por isso, se instalam nos centros consolidados. O desafio é mudar as leis de zoneamento, criando zonas mistas, onde o comércio pode sobreviver entre as residências.

MUDANÇAS

A contaminação entre indivíduos seria muito mais lenta nas cidades policêntricas, uma vez que os moradores não precisam passar diariamente pelo local que todos os outros circulam. Consequentemente, eles também não precisariam usar os mesmos ônibus.

Grande parte deles sequer precisaria de transporte público, pois poderia ir à pé para o trabalho, a escola, o posto de saúde. Também seriam reforçadas as relações com a vizinhança, tão importantes quando lidarmos com situações como a atual, em que as pessoas estão mais vulneráveis. As entregas de produtos vindos das redondezas seriam muito mais seguras e eficientes.

A caminhada e o uso das bicicletas, além de evitarem a aglomeração no transporte coletivo, ainda contribuiriam para a redução de comorbidades como a obesidade, a pressão alta e a diabetes, três agravantes para os pacientes contaminados com a Covid-19.

As doenças respiratórias, outro importante fator de risco, são causadas ou agravadas pela poluição do ar, a qual resulta, em boa parte, do excesso de automóveis presentes na mesma região da cidade. E elas também iriam diminuir nas “novas cidades”.

APE

Pela tese já difundida pelos chineses, diante de uma epidemia, a cidade precisa ser dividida em várias APEs (áreas de prevenção epidêmicas).

Seria adotada uma “estrutura de clusters”: divisão baseada em comunidades existentes. Os serviços médicos, por exemplo, seriam enviados para onde eles são necessários. Cada APE passaria a designar lugares especiais para acomodar pessoas suspeitas e infectadas. Com parques, praças, quadras esportivas e escolas adaptados como pontos de permanência temporária ou como hospitais de campanha.

O adensamento urbano, concluem os urbanistas brasileiros ouvidos pelo TODODIA, não deve ser representado por uma região congestionada, sem insolação adequada ou sem áreas verdes.

É preciso que instrumentos de regulação urbanística permitam a ocupação adequada, com proporção definida de áreas livres, equipamentos públicos e empresariais.

“As cidades vão se tornar mais agradáveis, bem como mais resilientes no enfrentamento de grandes epidemias”, resumem os professores.

ZONEAMENTO

Eles atentam para a necessidade dos governos municipais elaborarem leis maleáveis de adensamento urbano, permitindo que no mesmo zoneamento convivam residências e empresas limpas, como as lojas e as indústrias de alta tecnologia, que não produzem barulho, fumaça e outros incômodos.

‘Até shopping pode ficar fora da nova ordem’

A descentralização do comércio não é uma ideia exatamente nova. Os shopping centers, por exemplo, brotaram nas periferias principalmente a partir da década de 90, com a proposta de atrair um número maior de consumidores, disponibilizando vagas fáceis de estacionamento e vários segmentos varejistas reunidos. Mas a sociedade pós-coronavírus vai exigir mais mudanças. No modelo que conhecemos hoje, os shopping centers podem ficar fora da “nova ordem ” das coisas.

“Mesmo longe do Centro, o shopping é ainda pior no ponto de vista da dispersão do vírus. Podemos estender o mesmo raciocínio para outros equipamentos de porte regional, como hipermercados e condomínios industriais”, explicam os professores. No entender dos urbanistas, a solução vai estar nos pequenos centros comerciais.

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