O ambiente digital tem se tornado um terreno fértil para a propagação de ideologias perigosas. O que começa com um simples clique em um vídeo de autoajuda pode, rapidamente, levar jovens a um labirinto de misoginia formado pela tríade: machosfera, movimento red pill e grupos incel.
O documentário “Por trás da machosfera”, da Netflix, joga luz sobre esse universo onde o ressentimento contra as mulheres é a principal moeda de troca.
Basta uma pesquisa rápida para encontrar comentários ofensivos tratados como “brincadeira” e comunidades de homens que se autointitulam “machos alfa”, pregando uma suposta superioridade e exigindo obediência e fidelidade feminina como direito natural.
O recrutamento pelo pertencimento
Para a psicóloga Anna Julia Pértile, a porta de entrada para esses grupos é a carência social. Segundo ela, a adesão a comunidades que tentam diminuir as mulheres começa quando o jovem sente a necessidade de fazer parte de um grupo.
“A adesão começa quando o jovem sente a necessidade de fazer parte da turma. A escolha das mulheres como alvo tem um interesse específico de validação desse grupo. A partir do momento em que trata a mulher como ‘objeto’, ele tira a ‘humanidade’ e considera que pode tratá-la como bem entender”, explica a psicóloga.
Do teclado ao banco dos réus
No centro do Poder Judiciário, a resposta começa a ganhar forma. No último dia 25, o Senado aprovou o Projeto de Lei nº 896/2023, que criminaliza a misoginia (definida como ódio, desprezo ou aversão às mulheres). A proposta, que agora segue para a Câmara dos Deputados, prevê penas de 2 a 5 anos de reclusão e equipara a prática à Lei do Racismo.
O juiz da 1ª Vara Criminal de Santa Bárbara d’Oeste, Iberê de Castro Dias, defende o rigor da lei e faz um alerta sobre o futuro.
“O adolescente de hoje, se não for orientado e freado, pode ser o criminoso do amanhã. É o homem que daqui a alguns anos vai sentar no banco dos réus por feminicídio se não houver um limite claro da lei agora. O adolescente de 13 anos que hoje usa essas comunidades, por ser o feminicida em 2040”, afirma o magistrado.

A ilusão do anonimato
Enquanto a legislação avança, as forças de segurança reforçam que a internet não é “terra sem lei”. O delegado da DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) de Americana, Edson Antonio dos Santos, alerta que o anonimato digital é uma ilusão perigosa e que a identificação dos sinais de controle é vital.
“O segredo entre a vida e a morte da vítima está na identificação dos sinais. Sempre pergunto para as vítimas responderem algumas questões como: trabalha onde quer? Tem os amigos que deseja? Usa as roupas que decide? Se responder sim para algumas das perguntas é sinal de atenção, pois o agressor começa pelo ciclo do controle, que pode terminar no pior resultado, o feminicídio”, destaca o delegado.
Realidade em números
A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) também se mobiliza diante do cenário de machismo tóxico. Vitória Boralli, presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB de Santa Bárbara, classifica o momento como crítico. Os dados são alarmantes: o sistema de Justiça registra mais de 3,7 milhões de agressões contra mulheres.
“A misoginia não é um resquício do passado, mas uma realidade crescente. Ela se manifesta como o primeiro elo de uma cadeia de violência que pode culminar no feminicídio”, alerta Boralli.
Conclusão: O desafio da urgência
A estatística é clara: o ódio que nasce no teclado invade casas e destrói vidas. Com a nova legislação em pauta, o Brasil tenta fechar o cerco contra a intolerância.
O desafio, agora, é fazer com que a punição alcance a mesma velocidade com que o preconceito se espalha. Combater a misoginia é, acima de tudo, garantir o direito básico de toda mulher: o de simplesmente existir com segurança.





