O Brasil registra, todos os anos, milhares de casos de perda de visão que poderiam ser evitados. O alerta ganha ainda mais força durante o Abril Marrom, mês dedicado à prevenção da cegueira e à valorização do sistema braile, essencial para a inclusão de pessoas com deficiência visual.
Em Americana, o Centro de Promoção à Cidadania da Pessoa com Deficiência Visual (CPC), localizado no Lions Clube de Americana Centro, atua há 35 anos como referência no atendimento especializado. Fundado em 1991, o espaço possui certificação ISO desde 2014 e oferece serviços de habilitação e reabilitação para pessoas de todas as idades, além de suporte a familiares e cuidadores.
Alfabetização e autonomia
Com uma equipe multidisciplinar, o CPC desenvolve atividades voltadas à autonomia, inclusão e qualidade de vida. Entre os principais pilares está o ensino do braile, considerado fundamental no processo de alfabetização.
A pedagoga Maria Gildete, que é deficiente visual, destaca que, apesar dos avanços tecnológicos, o braile ainda é insubstituível. Segundo ela, recursos como audiobooks facilitam o acesso ao conteúdo, mas não proporcionam a mesma compreensão da escrita.
“O braile permite entender como a palavra é escrita. É uma experiência completamente diferente da leitura apenas pelo áudio”, explica.

Processo começa na infância
No centro, o atendimento começa ainda na primeira infância, com o programa de intervenção precoce, que estimula o desenvolvimento sensorial dos bebês. A partir daí, os alunos avançam para a alfabetização em braile.
De acordo com a pedagoga Isabel Cristina, o processo é semelhante ao da alfabetização convencional. “A criança cega precisa aprender a ler e escrever em braile, assim como a criança que enxerga aprende a leitura em tinta”, afirma.
O aprendizado tem início com a chamada “cela braile”, formada por seis pontos em relevo, que dão origem a letras, números e símbolos. Com o tempo, os alunos evoluem para a formação de palavras, frases e textos.
Alto custo dificulta acesso
Apesar da importância, o acesso ao braile ainda enfrenta obstáculos. Equipamentos específicos têm custo elevado, uma máquina de escrever em braile pode chegar a cerca de 10 mil reais, enquanto impressoras especializadas ultrapassam os 40 mil.
Além disso, a produção de materiais didáticos também é limitada, o que impacta diretamente o aprendizado de crianças e adolescentes.
“A falta de livros em braile nas escolas ainda é um desafio. Muitas vezes, o material não chega ou é insuficiente para atender os alunos”, ressalta Isabel.
Falta de opções limita leitura
Outro entrave é a escassez de títulos disponíveis. Diferente de quem enxerga, que pode escolher livremente um livro em uma livraria, pessoas com deficiência visual muitas vezes precisam se adaptar ao que está disponível.
“Nem sempre é possível escolher o que ler. Isso acaba desestimulando o hábito da leitura, principalmente na fase adulta”, destaca Maria Gildete.
Inclusão vai além da sala de aula
O trabalho do CPC também inclui orientação a escolas e capacitação de professores, garantindo que alunos com deficiência visual tenham acesso ao ensino regular com as adaptações necessárias.
Ao longo de sua trajetória, a instituição já contribuiu para a formação de diversos profissionais, incluindo jornalistas e psicólogos.
Transformação de vidas
Em 35 anos de atuação, o centro já atendeu mais de 550 pessoas. Atualmente, cerca de 110 alunos participam das atividades, que vão desde aulas de braile até orientação e mobilidade e inclusão digital.
Além da alfabetização, o principal objetivo é promover autonomia e reinserção social. Segundo a equipe, o impacto vai muito além da educação.
“Muitas pessoas chegam aqui após perder a visão e enfrentam momentos difíceis, como isolamento e depressão. Nosso trabalho é ajudar na reconstrução da autonomia e da qualidade de vida”, finaliza Isabel.





