O mecânico nigeriano Alfred Johnson foi condenado pelo Tribunal do Júri de Hortolândia a 15 anos, seis meses e 20 dias de reclusão, em regime inicial fechado, pelo homicídio triplamente qualificado do ativista cultural Wagner Luiz Alves, de 37 anos, e pela tentativa de homicídio de um segundo homem, atingido por dois disparos da mesma pistola. Ele já estava preso. O crime ocorreu em abril de 2021, após uma reunião em uma chácara da cidade, e o julgamento terminou por volta das 21h de quinta-feira (05), no Fórum de Hortolândia.
A Promotoria Pública já interpôs recurso por considerar a pena baixa. Já a defesa de Alfred Johnson informou que analisa a sentença para decidir sobre eventual recurso. Durante o julgamento, ao menos oito testemunhas foram ouvidas até que os sete jurados chegassem ao veredito.

Sobrevivente detalha ataque sofrido
A primeira testemunha foi a segunda vítima do ataque, integrante do movimento negro que participava da mesma reunião que Wagner. Ele levou um tiro no pé e outro nas nádegas, projétil que permanece alojado, e conseguiu fugir até um condomínio vizinho. Em seguida, segundo o relato, o réu voltou ao interior da chácara e disparou contra Wagner Luiz Alves, atingindo-o com um tiro fatal na nuca.
O sobrevivente afirmou que, durante toda a tarde do dia do crime, quando o grupo discutia a criação de uma ONG para projetos sociais, não houve qualquer desentendimento que sustentasse a tese de legítima defesa. Johnson e a esposa grávida eram convidados do dono da chácara, também nigeriano, e estavam no local para realizar pequenos serviços no imóvel e no carro do anfitrião, sem ligação com a reunião das lideranças.

Manifestação do movimento negro e frustração da viúva
A direção do Fórum não autorizou a gravação de imagens da sessão. Antes do início do júri, integrantes do movimento negro de Hortolândia e Campinas fizeram uma manifestação musical em frente ao prédio.
Viúva do ativista, Cristiane Dias de Silva Alves disse ter sentido alívio com a condenação, mas demonstrou frustração com o tempo de pena e afirmou esperar que o Ministério Público consiga aumentar a condenação. “Eu esperava que fosse um pouco mais, né? Meu companheiro tinha 37 anos, o homem que assassinou ele pegou 15 anos de cadeia, então não é nem um terço do que ele deveria pegar. E ele foi, no final, réu confesso. Acredito que ele tenha feito isso já para ganhar menos tempo (de pena) mesmo, né? Mas é isso, não foi satisfatório, mas eu vou recorrer”, afirmou.
Apesar da insatisfação com a dosimetria, ela relatou sensação de alívio com o resultado. “Sim. Porque ele já está preso, né, há quatro anos. Vai cumprir, eu não sei ao certo (quanto tempo a mais), porque infelizmente as leis no Brasil são muito desatualizadas, né? Precisaria ser feita uma atualização”, declarou.
Cristiane disse ainda que continua sem entender o que levou o réu a cometer o crime. Segundo ela, no momento de fala no júri, o condenado teria passado a se comportar de maneira confusa, o que foi questionado em plenário. “Não, para nós ele não explicou nada, porque na hora ele começou a se fingir de louco. No momento de fala dele, ele puxava um assunto de 2015, ele falava umas coisas estranhas. Teve um momento até em que o juiz contestou, e foi falado que ele não aceitou fazer o exame de sanidade mental, então que ali não era o momento de ele fazer o que ele estava fazendo agora. Então percebia-se que ele estava fingindo”, relatou.

Defesa avalia fundamentos da decisão
O advogado do réu, Antônio Gonzales Filho, nomeado pela Defensoria Pública, informou em nota, nesta sexta-feira (6), que “a defesa já está analisando tecnicamente os fundamentos da decisão e da dosimetria da pena, a fim de verificar a viabilidade jurídica de eventual interposição de recurso”.
“Caso sejam identificados elementos que justifiquem a revisão do julgamento ou da pena aplicada, as medidas recursais cabíveis serão oportunamente apresentadas perante o Poder Judiciário, nos autos do processo”, acrescentou o defensor.





