sábado, 28 fevereiro 2026
EMANCIPAÇÃO POLÍTICA ADMINISTRATIVA

Paulínia faz 62 anos e reencontra a própria história entre trilhos, fazendas e indústria

Sem registros próprios no início, cidade teve a memória dos moradores como base para reconstruir a trajetória que vai do bairro rural à potência regional
Por
Thayla Nogueira

Paulínia completa 62 anos de emancipação neste sábado (28), mas a história do território é bem mais antiga do que a data oficial. Antes de se tornar município, a região era parte de Campinas e se organizava em torno de grandes fazendas, da lavoura e, mais tarde, de uma estação ferroviária que mudaria o rumo do povoado.

Sem arquivos consolidados nos primeiros tempos, a reconstrução desse passado exigiu outro caminho: ouvir quem viveu a cidade. Foi assim que nasceu o livro Paulínia: História e Memória – Dos Trilhos da Carril às Chamas do Progresso, assinado pelas historiadoras Maria das Dores Maziero e Meire Müller.

Vista área de Paulínia. Foto: Paulínia Drone Show

“Paulínia não tem registros históricos, ela pertencia a Campinas”, explica Maria das Dores. “Nós tivemos a ideia de trabalhar com a história oral, que é você entrevistar os antigos moradores e, a partir das informações deles, escrever essa história. De documento tradicional, nós não tínhamos nada.”

Das fazendas ao primeiro núcleo urbano
Antes de qualquer traço urbano consolidado, o território era composto por propriedades rurais. Entre as principais fazendas citadas nas pesquisas estão Deserto, São Bento e Morro Alto. A São Bento, segundo as historiadoras, aparece como referência central nos relatos dos moradores mais antigos.

“Isso aqui era uma região com várias fazendas”, afirma Maria das Dores. “A fazenda São Bento foi muito relevante. Tanto que aqui chamava Vila de São Bento, antes de ser Vila José Paulino.”

Historiadoras Maria das Dores Maziero e Meire Müller. Foto: Thayla Nogueira/TODODIA

Foi nesse contexto rural que se formou a base populacional da cidade, marcada principalmente pela presença de imigrantes italianos, além de portugueses e outros grupos que chegaram para trabalhar na lavoura.

“A maioria que veio para cá eram imigrantes italianos e portugueses. Eles vinham trabalhar na lavoura, café, algodão, nas grandes fazendas”, conta a historiadora. Com o tempo, especialmente após a crise do café, as terras começaram a ser divididas. “As fazendas começam a ser retalhadas… e as terras vão mudando de mão.”

Estação José Paulino. Foto: Acervo Municipal de Paulínia

A estação que deu nome à cidade
A construção da Companhia Carril Agrícola Funilense e a inauguração da estação José Paulino foram determinantes para o surgimento do núcleo urbano. Ao redor dos trilhos surgiram comércio, escola e igreja, estruturando o primeiro centro do povoado. “Em volta dessa estação se forma o núcleo urbano… vai ter a igrejinha, vai ter a escola, alguns comércios”, explica Maria das Dores.

O nome do município também nasceu desse processo. Inicialmente, o bairro passou a se chamar José Paulino, em referência à estação. Mas a mudança definitiva viria anos depois. “As pessoas queriam que o bairro se chamasse São Bento”, relata Meire Müller. “Mas, devido à nomenclatura José Paulino, o distrito passou a se chamar assim. Em 1944 veio uma lei que não poderiam dar nome de pessoas para as localidades, então passou a se chamar Paulínia.”

Primeiro prefeito de Paulínia, José Lozano Araújo. Foto: Acervo Cosmopolense

A emancipação e a mobilização popular
Durante duas décadas, Paulínia permaneceu como distrito de Campinas. Mesmo com arrecadação crescente, faltavam serviços básicos e infraestrutura. Foi nesse cenário que surgiu o movimento emancipatório liderado por José Lozano de Araújo. “O processo emancipatório foi uma ação popular”, afirma Meire. “Houve um plebiscito… ganhou com noventa por cento.”

Com a criação do município, em 1964, vieram as primeiras eleições e uma nova fase administrativa. A cidade começava a consolidar autonomia política, mas ainda mantinha características majoritariamente rurais.

A Replan e a transformação definitiva
A grande virada estrutural aconteceu com a chegada da Refinaria de Paulínia (Replan), inaugurada em 1972. A decisão de instalar a maior refinaria da América Latina no município alterou radicalmente o ritmo de crescimento, atraiu milhares de trabalhadores e impulsionou o desenvolvimento industrial. “A Petrobras estava procurando um município para instalar a maior refinaria da América Latina”, relembra Meire. “Foi oferecido o terreno de graça e ainda houve isenção de impostos.”

A obra provocou impactos imediatos. “A cidade foi invadida por caminhões… a questão fundiária ficou cara”, conta a historiadora, ao descrever as mudanças rápidas na paisagem e no cotidiano.

A partir desse momento, Paulínia deixou de ser essencialmente agrícola para se tornar um dos principais polos petroquímicos do país. Segundo dados do IBGE, o município tem atualmente mais de 110 mil habitantes e ocupa posição de destaque em renda per capita no Brasil.

Inauguração da Replan. Foto: Acervo Cosmopolense

Entre o progresso e a preservação
Se o crescimento econômico colocou Paulínia em evidência, a preservação da memória histórica ainda é um desafio. A cidade não possui um centro histórico consolidado, e poucos prédios remanescentes mantêm características originais. “A gente não tem centro histórico, infelizmente”, lamenta Meire.

Para as historiadoras, conhecer a trajetória do município é fundamental para fortalecer o sentimento de pertencimento e orientar decisões futuras. “A história é um contínuo”, afirma Maria das Dores. “É importante você saber quem você foi, de onde você veio. Destruir o passado, ignorar a memória histórica, é um passo muito perigoso.”

A própria Meire resume a construção da identidade local com uma metáfora: “A nossa história é igualzinho uma colcha de retalhos… cada família é um pedacinho.”

Antiga vista aérea de Paulínia. Foto: Acervo Municipal de Paulínia

Uma cidade jovem na data, antiga nas camadas
Paulínia chega aos 62 anos de emancipação como uma cidade marcada por fases distintas: o tempo das fazendas, a organização ao redor dos trilhos, a conquista da autonomia e a era industrial inaugurada pela refinaria.

Como diz o hino do município, a riqueza que hoje se expande é fruto do trabalho “do colono, do escravo, do imigrante”. Cada etapa foi construída por gerações que deixaram marcas, visíveis ou não, no território.

Mais do que celebrar uma data, o aniversário é também um convite: conhecer o passado para compreender o presente e planejar o futuro. Porque, como reforçam as autoras, nenhuma cidade começa do zero — ela continua.

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