O primeiro porco clonado do Brasil nasceu neste mês em Piracicaba. Além dele, outros três possíveis clones estão a caminho. O feito significa um avanço rumo a um futuro em que as doações de órgãos possam ocorrer via xenotransplante, ou seja, a possibilidade de utilizar órgãos de outras espécies para suprir a escassez de doadores humanos.
A pesquisa, liderada pela USP (Universidade de São Paulo), utiliza edição genética para tornar o animal compatível com o corpo humano, atacando diretamente a fila de transplantes que hoje soma 84 mil brasileiros.

Com o domínio da clonagem, o país deixa de ser apenas espectador para se tornar um possível protagonista no futuro da produção dessa alternativa vital.
Visita à granja
A TV TODODIA foi até a granja em Piracicaba para conhecer o berço dessa tecnologia. Os pesquisadores nos guiaram pelo que eles chamam carinhosamente de ‘creche das crianças’. Foi lá que vimos de perto o porquinho de número 11: o clone que hoje representa o maior salto da ciência brasileira na corrida para salvar vidas.
O pesquisador do IB (Instituto de Biociências da USP), Luciano Abreu Brito destaca a trajetória da pesquisa. “Essa pesquisa visa gerar órgãos suínos geneticamente modificados que possam servir como uma fonte suplementar de órgãos para humanos. Hoje, a fila para transplante está aumentando, por isso, existe essa necessidade. Começamos essa pesquisa em meados de 2018 pela USP e, neste mês, alcançamos o marco que foi o nascimento do nosso primeiro clone”, afirma Brito.
Desafios e barreiras
Mas além dos desafios da genética, existe a barreira cultural. A Gerente Técnica do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo), Helena Correia de Araújo Gomes, explica como a pesquisa já planeja enfrentar o possível preconceito da população em receber um órgão suíno.
“Nós pretendemos trabalhar com toda a transparência possível para mostrar que esses animais têm um ciclo de vida voltado ao bem-estar, além de permitir que as pessoas percebam que o órgão do animal é idêntico ao do ser humano em tamanho. Não precisa existir preconceito, pelo contrário, é uma alternativa promissora para uma vida melhor”, defende Gomes.

O estudo conta com financiamento público pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), pela FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos) e pelo Ministério da Saúde, além de ser liderado pelo Genoma USP e a Faculdade de Medicina da USP em parceria com o IZ-APTA (Instituto de Zootecnia) e o IPT.
Esforço e dedicação
Para que este clone ganhasse vida, a dedicação foi muito além dos laboratórios. Foram noites de sono no chão da granja e amamentação na mão. Cada tentativa frustrada pelo caminho serviu de degrau: um aprendizado valioso que guiou os pesquisadores até o sucesso.
A pesquisadora do IZ-APTA (Instituto de Zootecnia), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, Simone Raimundo de Oliveira, compartilha o esforço que cada cientista coloca diariamente no projeto.
“É um sonho realizado. Pegamos toda nossa expertise e transformamos para a sociedade, trazendo um benefício que ainda não conseguimos mensurar. É um desafio gigantesco. Antes do parto do clone, colegas dormiram no chão, se revezando. Ficamos 24 horas amamentando de hora em hora, eram plantões revezados com grupos que vieram de São Paulo. Colocamos nossa vida pessoal em segundo plano, é o ser humano por trás da ciência, uma satisfação total”, enfatiza Oliveira.
Futuro promissor
O nascimento do clone é apenas o começo. O que nasceu em Piracicaba como um marco da ciência, promete, no futuro, sair das granjas para as salas de cirurgia, transformando a espera de milhares de brasileiros em uma nova oportunidade de recomeçar.





