Sábado, 27 Novembro 2021

‘Sim’ de familiares é esperança de 53 mil na fila por transplantes

CidadesSaúde

‘Sim’ de familiares é esperança de 53 mil na fila por transplantes

Autorização de quem fica é requisito legal; doação só é possível em caso de morte cerebral, tumor ou fratura 

Transplante | Brasil tem mais de 53 mil pacientes na espera pela doação de órgãos (Foto: Bruno Cecim | Agência Pará)
Mais de 53 mil pessoas precisam de um transplante de órgãos e tecidos no Brasil, mas a oferta passa longe da metade, anualmente. Numa regulação que é feita no âmbito nacional, mas com subdivisões regionais até os hospitais, a chance de sobrevida de quem espera um órgão para ter qualidade de vida está nas mãos das famílias que perdem um ente. É delas o aval para doação, por isso campanhas buscam uma simples ação: que as pessoas expressem aos seus familiares essa vontade em vida.

O contexto é explicado por Ilka Boin, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e diretora da unidade de transplantes hepáticos do hospital da universidade.

As doações só são possíveis no caso de morte cerebral (encefálica), por tumor ou fratura.

Os procedimentos são feitos após autorização expressa da família - uma conversa difícil, mas necessária, que as equipes médicas precisam ter no momento de fragilidade, com exames que comprovem a condição irreversível do estado cerebral.

Por mais sensível que seja a decisão, a agilidade é importante para a viabilidade dos órgãos.

Os que dependem de isquemia fria, ou seja, conservação numa solução específica em gelo, com temperatura entre zero e quatro graus, têm tempo de viabilidade entre 3h e 24h. E o paciente que poderá recebê-los pode estar a horas de viagem, aérea ou rodoviária.

A professora explica que cada órgão tem critérios específicos, com pontuações distintas para o receptor em potencial, numa combinação que é feita por um sistema.

No caso do transplante de fígado, que ela considera estar entre os mais complexos, a prioridade é de quem já teve uma falência permanente, ou hepatite fulminante, pois 90% das pessoas nessas condições podem ir a óbito em até 48h.

Por mais que tratar da própria morte não seja o mais animador dos assuntos, a expressão do desejo de doar órgãos à família é necessária, já que não é mais possível fazê-lo em registro de documentos, pois muitas pessoas estavam recusando formalmente. Então, de qualquer forma, a decisão fica para a família.

Quase todos os órgãos podem ser doados: córneas, rins, coração, fígado, pâncreas, pele e até ossos.

A professora estima que, para cerca de 16 mil pacientes por ano, entre cinco mil e seis mil recebem um transplante.

Esta é uma possibilidade que também depende de recursos materiais, como UTIs avançadas nos tratamentos neurológicos e de traumas graves.

ESTATÍSTICAS
De acordo com o Ministério da Saúde, em 2020 o índice de recusa à doação de órgãos pela família vem caindo: ficou em 37,8% dos casos com morte encefálica em 2020, menos que os 39,4% em 2019 e que os 41,3% de 2018.

A identificação da morte encefálica é outro desafio - estima-se que, no Brasil, ocorram mais de nove mil mortes que propiciem a doação de órgãos, mas que passam em branco pelos profissionais de saúde.

Outro fator é redução das paradas cardiorrespiratórias do paciente durante o processo de doação, que acontece em 14% dos casos. Uma redução para 5% representaria ao menos 500 doadores a mais.

O Brasil possui hoje 53.218 pacientes na fila por um transplante de órgãos, dos quais 31.125 aguardam um novo rim.

Em seguida, vem a fila por um fígado (1.905), coração (365) e pulmão (259). Aguardam por um transplante de córnea 19.115 pessoas - esta é considerada um tecido, e não um órgão, e o procedimento pode ser considerado não eletivo.

Neste ano foram realizados 5.626 transplantes no país, segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes.

Em 2020 foram 3.937, na queda brusca no número de doadores devido às restrições provocadas pela pandemia. Em 2019, foram realizados 7.715.

De acordo com a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), a taxa de doação caiu 26% em 2020, se comparado a 2019.

Essa queda foi observada para todos os órgãos e tecidos. 

 

Comentários:

Nenhum comentário feito ainda. Seja o primeiro a enviar um comentário
Já Registrado? Acesse sua conta
Visitante
Sábado, 27 Novembro 2021

Ao aceitar, você acessará um serviço fornecido por terceiros externos a https://tododia.com.br/