domingo, 18 janeiro 2026
MEIO AMBIENTE

Sistema Cantareira opera com 19,4% do volume útil armazenado e acende alerta na Bacia do Rio Piracicaba

No mesmo período de 2025, o índice era de cerca de 50,27% de acordo com o histórico de boletins da ANA
Por
Nicoly Maia

O Sistema Cantareira, responsável por liberar uma parcela significativa de água para as bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), opera atualmente em baixa capacidade. De acordo com os dados mais recentes da Sala de Situação PCJ, na última quinta-feira (15), ele registrava apenas 19,4% do volume útil armazenado. No mesmo período de 2025, o índice era de cerca de 50,27%, de acordo com o histórico de boletins da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico).

De acordo com o coordenador da Câmara Técnica de Monitoramento Hidrológico (CT-MH) dos Comitês PCJ, Alexandre Vilella, o Cantareira exerce papel fundamental no abastecimento regional, uma vez que realiza descargas de água pelos rios Jaguari e Atibaia, que se unem e formam o Rio Piracicaba, por exemplo, no município de Americana. Esse percurso tem aproximadamente 180 quilômetros, desde os reservatórios do sistema até a cidade.

Tudo o que ocorre ao longo desse trajeto influencia diretamente tanto a quantidade quanto a qualidade da água que chega a cidades como Americana e a outros municípios. “O Cantareira faz a descarga para esses dois rios e, naturalmente, influencia o Rio Piracicaba propriamente dito. É ele que abastece, basicamente, esses municípios, além do uso industrial e rural”, explica Alexandre.

Impactos variam conforme o sistema de abastecimento
Os impactos da baixa capacidade do Cantareira variam de acordo com a forma de abastecimento de cada município. Segundo o coordenador, algumas cidades utilizam reservatórios próprios ou captam água diretamente do sistema, enquanto outras dependem de rios específicos.

Determinação conjunta da ANA e da SP Águas manteve atual Faixa 4 de Restrição para o mês de janeiro. Foto: Reprodução

“Santa Bárbara d’Oeste, por exemplo, se abastece por reservatórios próprios. Já Americana depende diretamente do Rio Piracicaba, que é fortemente influenciado pelo sistema. Outras cidades têm poços, pequenos rios ou reservatórios menores. Cada município convive de forma diferente com esse cenário”, detalha.

Além da origem da água, fatores como infraestrutura de tratamento, índice de perdas na rede, temperaturas elevadas e aumento do consumo também agravam a situação. “Nos últimos meses, muitos municípios declararam emergência hídrica; alguns enfrentam racionamento. Com menos água e maior poluição, há menos diluição, o que encarece o tratamento, exige mais produtos químicos e energia elétrica. Esses custos acabam refletindo na tarifa paga pela população”, afirma.

Sistema de faixas orienta a operação
O Sistema Integrado de Monitoramento (SIM) reúne sete reservatórios interligados, incluindo o Cantareira, e permite uma operação integrada e mais resiliente em períodos de escassez. A metodologia do Governo do Estado estabelece faixas de atuação conforme o volume armazenado ao longo do ano.

Nas faixas iniciais, o foco é a prevenção, com incentivo ao consumo consciente e ações para reduzir perdas. À medida que os níveis dos reservatórios caem, entram em vigor medidas progressivas, como gestão da demanda noturna, redução da pressão na rede e maior controle da distribuição.

Nas faixas mais críticas, o sistema passa a priorizar serviços essenciais e, em situações extremas, pode adotar rodízio no abastecimento. O objetivo é preservar os mananciais e garantir água pelo maior tempo possível.

Atualmente, o Sistema Cantareira opera na Faixa 4 – Restrição, que corresponde a volumes entre 20% e 30%, conforme critérios da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).

“Não se pode operar um reservatório da mesma forma quando ele está com 5% ou com 95%. São cenários completamente diferentes. As faixas permitem ajustes graduais na retirada de água, tanto para São Paulo quanto para as bacias do interior”, explica Vilella.

Para garantir previsibilidade, as mudanças de faixa só ocorrem após sete dias consecutivos em um mesmo cenário, e a flexibilização exige 14 dias seguidos de melhora.

Uso consciente e alerta à população
Diante do cenário de altas temperaturas, menor volume de chuvas e aumento do consumo, o alerta é para o uso consciente da água. Pequenas mudanças de hábito ajudam a preservar os mananciais e a enfrentar períodos prolongados de estiagem.

“O momento exige esforço coletivo. Cada gota importa. Os municípios precisam reduzir perdas e investir no tratamento da água disponível, muitas vezes mais poluída. A indústria, o setor rural e a população têm papel fundamental na redução da demanda. Se não conseguimos aumentar a oferta no curto prazo, precisamos agir sobre o consumo”, alerta Alexandre Vilella.

Segundo ele, em um contexto de mudanças climáticas, situações como essa tendem a se tornar cada vez mais frequentes, reforçando a necessidade de planejamento, gestão integrada e responsabilidade compartilhada no uso dos recursos hídricos.

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