
Entre confetes lançados ao vento, marchinhas que ecoavam pelas avenidas e sorrisos que atravessavam a madrugada, o Carnaval de Americana escrevia sua própria história. Era tempo de fantasia, quando a cidade pulsava ao ritmo da alegria coletiva e transformava ruas e clubes em palcos de celebração. Uma memória colorida que resiste ao tempo e segue viva nas lembranças de quem viveu aqueles dias de brilho e folia.
Uma festa que marcou gerações
O Carnaval americanense foi referência nas décadas de 70, 80 e 90. Centenas de pessoas desfilavam pelas avenidas da cidade ou faziam a folia nos clubes do município, em uma festa que mobilizava diferentes públicos e atravessava gerações.
Os primeiros passos do Carnaval de rua
O Carnaval de rua em Americana começou de forma simples, quase improvisada, mas carregada de paixão. A primeira agremiação carnavalesca saiu do Jardim Ipiranga, liderada por um homem que virou símbolo desse início: Lúcio Gabriel. Apaixonado por samba e pela folia, ele reuniu amigos e colocou um pequeno bloco na rua, descendo a Avenida Campos Salles — que, naquela época, ainda era de terra em boa parte do trajeto.
“Foi a primeira pessoa que nasceu com um carnaval de rua aqui em Americana. O Lúcio era aficionado por samba, por carnaval”, relembra o empresário Cláudio Froner.
A batucada que virou escola
A paixão pelo Carnaval também marcou a trajetória do professor Juca Show desde a infância. “Quando eu era pequeno, sempre gostei de carnaval. Eu gostava do barulho, das baterias tocando, ficava olhando de longe”, conta. Ainda adolescente, ele deu os primeiros passos na folia ao integrar o Bloco Musical Salvação. “Meu primeiro instrumento foi o agogô. Daí pra frente eu peguei gosto, toquei surdo, caixinha, até chegar a mestre de bateria.”
Após a morte trágica de Lúcio Gabriel, o movimento não parou. Novos blocos e escolas começaram a surgir, como São Domingos, Cordenonsi, Meninão e, mais tarde, a Tropicália, que reunia foliões ligados aos clubes e à elite da cidade. Pequenos bloquinhos também se formavam espontaneamente, com grupos de amigos que se reuniam apenas para brincar o Carnaval. “Os bloquinhos surgiam assim, de amigos que se juntavam num bar, numa casa, sem fim lucrativo, só pra brincar”, explica Juca Show.
Bananeira, Salvação e a rivalidade que fez história
Na metade da década de 1970, nasce um dos blocos mais emblemáticos do Carnaval americanense: o Bananeira. Criado inicialmente para rivalizar com o bloco Salvação, rapidamente ganhou força, organização e identidade própria. “Em 75 a gente veio com tudo. Já veio organizado. E deu um show”, recorda Cláudio Froner.

A rivalidade entre Bananeira e Salvação marcou época — sempre de forma saudável — e ajudou a impulsionar o crescimento da festa. “Era uma disputa construtiva, um querendo ser melhor que o outro”, afirma Juca Show, que desfilou nos dois blocos como mestre de bateria. Em seu auge, Americana chegou a ter entre 10 e 12 agremiações desfilando, exigindo até dois dias de Carnaval para que todos passassem pela avenida.
Os blocos chegaram a reunir mais de 400 integrantes, com baterias numerosas, fantasias criativas e enredos pensados como verdadeiros espetáculos a céu aberto. “Carnaval é um teatro na rua. Você parte do nada e chega a um desfile inteiro, com música, fantasia e história”, define Cláudio Froner.
Bastidores da festa e o trabalho coletivo
A produção envolvia famílias inteiras, que ajudavam na confecção das fantasias e alegorias, muitas vezes feitas de forma artesanal, em casas e quintais. “As mães, as avós colavam lantejoula, costuravam botão, todo mundo participava”, lembra Juca Show. “Era simples, humilde, mas feito com muito carinho.”
Os carnavais de clube e a força dos salões
Enquanto o Carnaval de rua ganhava corpo, os clubes sociais também viviam seu apogeu. Para o professor universitário Fabrizio Racaneli, os carnavais de salão foram fundamentais para a construção da identidade social e cultural da cidade. “Os carnavais nos clubes de Americana sempre foram muito tradicionais e prevaleceram por muitas décadas. Eu ouvia as histórias contadas pelos meus pais, que frequentavam os bailes no Rio Branco, e comecei a viver isso mais intensamente na década de 90.”
Segundo Racaneli, aquele período marcou uma geração inteira. “A gente esperava o ano todo por aquelas cinco noites de Carnaval, mais as matinês. Quem gostava de Carnaval se preparava para estar presente em tudo. Eram eventos que reuniam muita gente, principalmente jovens.”

Entre baterias, bailes e encontros
Os clubes investiam pesado nas atrações, especialmente nas décadas de 80 e 90. “As baterias das grandes escolas de samba do Rio e de São Paulo vinham tocar no Flamengo e no Rio Branco. Eu me lembro do Neguinho da Beija-Flor aqui em Americana. Era emocionante quando a bateria entrava no salão”, conta Racaneli.
A disputa saudável entre os clubes também fazia parte do clima da festa. “Às vezes a gente começava o Carnaval em um clube e, no meio da noite, pegava um táxi pra ver como estava o outro. Curtíamos metade da festa em cada lugar.”
Rua e clube: uma convivência possível
Para o professor, os carnavais de rua e de clube coexistiam. “Era possível prestigiar os desfiles no centro e depois ir para os clubes. Tinha quem gostasse mais da rua, quem preferisse o salão, mas a cidade inteira se movimentava em torno do Carnaval.”
O que mudou e o que permanece
Com o passar do tempo, mudanças culturais, custos elevados e a falta de incentivo contribuíram para a perda de força da festa. Para Juca Show, a ausência de apoio do poder público foi decisiva. “Depois de 1985, a gente não teve mais apoio.”
Racaneli avalia que houve também uma ruptura cultural no início dos anos 2000. “Houve mudanças no perfil do Carnaval e muita gente deixou de se sentir pertencente àquele ambiente.” Ainda assim, ele acredita na permanência da tradição. “O Carnaval de clube continua existindo, talvez com menos força, mas é um ambiente saudável, familiar.”
Memória que resiste ao tempo
Mesmo com as transformações, a memória segue viva. “Quem viveu essa época não esquece jamais. Toda vez que encontra alguém, fala: ‘Poxa vida, a gente era feliz’”, resume Cláudio Froner. Juca Show reforça o sentimento. “O Carnaval me emociona. Se voltasse no tempo, eu faria tudo de novo.”





