Exposição revela poemas e anotações inéditas da atriz, que faleceu em março de 2018, aos 95 anos
Em 1954, durante uma das sessões da comédia “Negócios de Estado”, do francês Louis Verneuil, no TBC, Tônia Carrero, então com 32 anos de idade, seguia as marcas do encenador polonês Zbigniew Ziembinski escrevendo num pedaço de papel o que seriam os pensamentos de sua personagem, Irene, enquanto a cena se desenvolvia.
A atriz aproveitava para registrar sentimentos e impressões das sessões do espetáculo, de seus colegas de cena, da reação da plateia, da presença de amigos e de figuras intimidadoras, como a crítica de teatro Bárbara Heliodora, que assistiu à produção mais de uma vez.
“Por que ela veio ver essa peça de novo?” “A plateia hoje está tão fria, quase não riem.” “O prefeito da cidade veio nos ver hoje, não sei por quê.” Essas, entre muitas outras anotações, foram reunidas por um dos contrarregras da produção que, na década de 1990, presenteou a artista com uma pasta contendo todos os manuscritos.
Essas notas estão entre os materiais inéditos que fazem parte da “Ocupação Tônia Carrero”, que chega ao Itaú Cultural neste sábado e marca a 56ª edição do projeto, que já homenageou nomes como os colegas de geração da atriz Lima Duarte, Laura Cardoso, e Nelson Rodrigues, entre muitos outros.
O tributo à história de Carrero chega como carro-chefe às comemorações do centenário da artista, que nasceu em 23 de agosto de 1922. Ela saiu de cena em 2018, aos 95 anos, vítima de uma parada cardíaca. Quando morreu, já estava aposentada havia pelo menos uma década.
Sua última aparição foi em “Chega de Saudade”, filme de Laís Bodanzky que marcou sua despedida no mesmo meio que deu a ela o primeiro trabalho profissional, em 1947, no filme “Querida Susana”. Poucos anos depois, Carrero se tornaria a grande estrela do cinema nacional ao protagonizar longas dos estúdios Vera Cruz, que a eternizaram como uma das atrizes mais bonitas de sua geração.
Folclórica, sua beleza abriu muitas portas a ela, como fazia questão de frisar, e rendeu uma série de mitos, entre eles o de que sua silhueta foi a inspiração para a imagem estampada nas moedas que rodavam no Brasil na década de 1950. A Casa da Moeda nunca confirmou a informação.
Entretanto, o tópico beleza está longe de ser o ponto principal da exposição que celebra a trajetória da atriz. Sua figura política, sim, entra em cena. Pouco conhecida, mas muito viva, a militância de Carrero nunca esteve ligada a partidos, mas foi a artista a responsável por bater de frente com a censura e negociar diretamente em Brasília para que Plínio Marcos tivesse liberada sua peça “Navalha na Carne”, de 1967. A montagem foi um divisor de águas na carreira da atriz, do dramaturgo e de todo o elenco, que tinha ainda um jovem e iniciante Sérgio Mamberti.
“Desenhamos alguns eixos e escolhemos passagens de cinema, TV e teatro para jogar luz”, afirma Carlos Gomes, um dos organizadores da exposição. “A partir disso, entendemos que a beleza já foi bastante esmiuçada, então buscamos outras camadas e encontramos essa mulher que escolhe o teatro no momento em que ser atriz não era nada bem- -visto pela sociedade. E escolhe, dentro do casamento, seguir com a profissão, dando um recado forte à sociedade conservadora. Ela desafiou padrões para exercer a vocação e o desejo.”
A ideia foi mostrar também a forma que a vida dela se relaciona com a história da TV e do moderno teatro brasileiro. Nos palcos, a atriz construiu uma carreira repleta de pontos marcantes, chegando a rivalizar com Cacilda Becker no TBC e ter conseguido plateias lotadas. A exposição acontece de 13 de agosto a 6 de novembro, no Itaú Cultural, na Capital. A entrada é gratuita e a classificação livre.




