domingo, 6 abril 2025

O Indiana Jones das partituras

Não é de hoje que o violonista e professor Humberto Amorim, 39, atende pelo apelido de Indiana Amorim. Nascido em Manaus e criado em Porto Velho, numa família de advogados, abandonou o curso de direito aos 19 anos para estudar violão no Rio de Janeiro. Junto da paixão pela música, viu surgir um interesse cada vez maior pela pesquisa em acervos brasileiros atrás de raridades. 

Amorim calcula ter encontrado 20 mil títulos ou mais, de 1950 para trás, de peças inéditas ou esquecidas. Em 2019, garimpou duas pepitas que vêm a público neste início do ano de 2020 em publicações especializadas. 

Ele achou na biblioteca da Unirio a partitura manuscrita da “Canção do Poeta do Século 18”, de Heitor Villa-Lobos – dada como extraviada nos dois catálogos do Museu Villa-Lobos. E descobriu um periódico brasileiro sobre violão de 1857, O Guitarrista Moderno, numa aventura em Portugal para resgatar os únicos exemplares de que se tem notícia. 

São achados que coroam a verdadeira obsessão do pesquisador e explicam a comparação com o arqueólogo do cinema em trabalho majoritariamente solitário e sem financiamento. Amorim estará nesta amanhã (23) no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, em São Paulo, apresentando o periódico e interpretando algumas das peças, como trechos da ópera “La Traviata”. 

“É um material raríssimo, do qual tive notícias quando fui pesquisador-residente da Biblioteca Nacional, entre 2015 e 2017”, diz. “Pensava-se que o primeiro periódico brasileiro sobre o violão datasse de 1928, mas, nos jornais, descobri anúncios de partituras desde 1810. São 80 anos de uma história submersa, quando o violão era protagonista nos saraus com transcrições operísticas e danças de salão burguesas.” 

A “submersão” do instrumento como personagem da burguesia e a consolidação da imagem do violão como marca da malandragem se deve, segundo Amorim, a uma “guerra de narrativas”. No olhar que prevaleceu, o violão de concerto brasileiro só surge nas primeiras décadas do século 19. 

“A partitura mais antiga que a gente conhecia até três anos atrás é de 1904, a inacabada ‘Valsa de Concerto n° 2’, de Villa-Lobos”, afirma Amorim.

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