quinta-feira, 5 março 2026
DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Desistência feminina nos níveis mais altos da carreira científica é destaque no segundo episódio da série Mulheres na Ciência

Entrevista com Ana Maria Frattini, pró-reitora da Unicamp, debate o papel e o exemplo das mulheres em cargos elevados na ciência
Por
Nicoly Maia
Ana Maria Frattini Fileti, pró-reitora de Pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), cargo de liderança com mandato e responsabilidades definidas pelo estatuto da instituição. Foto: TV TODODIA

A desistência feminina ao longo da carreira científica e a baixa presença de mulheres em cargos de liderança são pontos centrais do segundo episódio da série especial Mulheres na Ciência, produzida pela TV TODODIA.

Apesar de ingressarem na universidade em proporção semelhante à dos homens, as mulheres ainda são minoria nos níveis mais altos da carreira acadêmica. É o que afirma Ana Maria Frattini Fileti, pró-reitora de Pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), cargo de liderança com mandato e responsabilidades definidas pelo estatuto da instituição.

“As mulheres entram para serem cientistas mais ou menos em uma mesma proporção que os homens, 50% de cada. Mas, à medida que o tempo passa, as mulheres vão ficando pelo caminho. Então, nos níveis mais altos da carreira, a gente vê uma queda que chega a aproximadamente 25% de mulheres”, afirma.

Ela destaca que a presença feminina em cargos administrativos também ainda é reduzida. “O fato de eu estar em um cargo administrativo, que também é uma pequena porcentagem de mulheres, eu acho que tem servido como um exemplo para as mulheres que trabalham nessa universidade.”

Desigualdade nos números
Levantamento da Unicamp mostra que 58% das publicações científicas da instituição são assinadas por homens, enquanto 42% têm autoria feminina. Em áreas como Ciências Físicas e Ciências Sociais, a participação das mulheres é ainda menor, com 33% e 39% das produções, respectivamente. Já nas Ciências da Saúde e Ciências da Vida, os números se aproximam da paridade, com 51% de autoria feminina em ambos os casos.

“Apesar das mulheres estarem, elas ainda não são as líderes”, observa Ana. Segundo ela, a universidade lançou, no ano passado, um edital específico para incentivar as pesquisadoras a assumirem a liderança de grupos de pesquisa. “Ela tem que ser a líder desse grupo para poder submeter o projeto. E nós financiamos com dinheiro da própria instituição para que essas mulheres tenham esse aporte financeiro e façam uma trajetória mais arrojada na carreira.”

Carreira na engenharia 
A escolha pela área de Exatas começou cedo. Ana conta que, ainda adolescente, tinha curiosidade sobre o funcionamento de máquinas e sistemas de controle. “Sempre tive muita curiosidade de como os processos aconteciam, como as máquinas poderiam trabalhar bem ao comando humano”, relata.

Hoje, a pesquisadora atua na área de controle e automação de processos industriais, com foco em segurança. O trabalho envolve o desenvolvimento de softwares e hardwares capazes de monitorar equipamentos e tomar decisões automáticas para garantir padrão de qualidade e reduzir riscos na produção de produtos químicos, plásticos e farmacêuticos.

“Primeiro tem que conseguir medir o que está acontecendo nesse maquinário. Depois, é preciso tomar ações automáticas no próprio processo para que haja segurança de produção e um padrão de produto com determinada pureza e qualidade”, explica.

Segundo a pró-reitora, a inteligência artificial já é aplicada há cerca de três décadas em processos industriais que exigem alto nível de segurança. “Isso já existe há muito tempo em comandos de avião e em estruturas industriais”, afirma. Para ela, o avanço recente está relacionado à popularização da tecnologia e à redução de custos de hardware.

Reconhecimentos ao longo da carreira 
Durante a pandemia, Ana transformou o conteúdo de uma disciplina em livro. A obra “Tudo sob(re) controle: fundamentos e estudos de casos” surgiu a partir da adaptação das aulas para o formato remoto. “Eu não sentei para escrever um livro. Sentei para tentar traduzir o melhor possível a disciplina em um formato mais fácil para os alunos que estavam em casa”, conta.

A trajetória acadêmica rendeu à pesquisadora o Prêmio de Reconhecimento Acadêmico “Zeferino Vaz”, concedido a docentes com destaque em ensino, pesquisa e extensão na Unicamp.

Para a conquista do prêmio os estudos se basearam na adaptação de técnicas de ultrassom, comuns na engenharia biomédica, para monitorar fluidos em tubulações da indústria química. O objetivo é identificar a presença de gás ou partículas sólidas nos dutos e, assim, aumentar a segurança dos processos industriais.

Desafios como mulher na ciência
Ana afirma que enfrentou resistência no início da carreira, especialmente ao tentar ingressar na indústria. “Eu tive dificuldade ao ir para a indústria. Foi por isso que optei por trabalhar na academia”, diz.

Mesmo no ambiente universitário, relata ter percebido preconceito no começo da docência. “Eu era jovem, era mulher, para um grupo predominantemente masculino. A gente enxergava algumas fisionomias que pareciam desconfiar de você.”

Segundo ela, o cenário vem mudando gradualmente, mas ainda há situações em que a presença feminina é invisibilizada em espaços majoritariamente masculinos. “Às vezes, alguns administradores não percebem a presença feminina e te pulam. Aos poucos, você tem que saber lidar com as situações. São questões culturais, mas isso vai modificando, e a gente vai mostrando o potencial da liderança feminina.”

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