A discussão sobre estereótipos de gênero e a falta de incentivo desde a primeira infância da presença feminina na ciência encerra a série especial produzida pela TV TODODIA em comemoração ao Dia Internacional da Mulher. No total foram produzidos três episódios que tratam sobre autocobrança acadêmica, falta de presença feminina em cargos de liderança e estereótipos de gênero.
O estereótipo seria uma opinião ou preconceito sobre características que homens e mulheres deveriam possuir e as funções sociais que ambos desempenham ou deveriam desempenhar, de acordo com o Escritório do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Para a pesquisadora Taícia Pacheco Fill, química e coordenadora do Laboratório de Biologia Química Microbiana, o contato com a ciência deve começar ainda na primeira infância. Segundo ela, é fundamental que meninas tenham acesso a modelos femininos visíveis na área científica. “É preciso que as meninas tenham contato com mulheres cientistas. Precisamos de representatividade, de modelos femininos em posições de destaque. São nessas posições que conseguimos promover mudanças e criar políticas institucionais”, afirma.
A importância da representatividade
De acordo com a pesquisadora, a ausência de referências femininas impacta diretamente na construção da carreira das mulheres. Ela destaca que, ao não visualizar mulheres em livros didáticos, palestras ou cargos de liderança, muitas jovens deixam de se enxergar naquele espaço. “Se eu não tenho um modelo, se eu olho e não vejo nenhuma mulher ministrando uma palestra ou ocupando determinado cargo, isso mexe com a gente, porque não nos vemos ali. A ausência de referências femininas reforça a ideia de que é um ambiente masculino o que não é verdade”, ressalta.
Mesmo entre as mulheres que escolhem a carreira científica, o ambiente ainda é predominantemente masculino. Durante a trajetória, Taícia afirma ter enfrentado situações recorrentes que classifica como “microagressões”. “Às vezes, essas microagressões podem nos desanimar ou até nos fazer pensar em desistir. Por isso, é importante que as mulheres permaneçam unidas”, pontua.
Pesquisa e impacto na citricultura
Taícia Pacheco Fill desenvolve pesquisas voltadas ao estudo de doenças que afetam frutos cítricos, entre elas o greening, uma das mais graves para a citricultura.
Do ponto de vista químico, o trabalho busca compreender as estratégias utilizadas pelos microrganismos para causar infecção, com o objetivo de desenvolver métodos de controle mais sustentáveis. “Investigamos como esses organismos causam a infecção para que possamos encontrar estratégias de controle. Trabalhamos com moléculas naturais, buscando substituir agrotóxicos amplamente utilizados e que trazem impactos ao meio ambiente e à saúde”, explica.
Entre as descobertas da equipe estão moléculas naturais com potencial para controlar o fungo Penicillium digitatum, principal responsável pelo bolor verde que afeta laranjas no período pós-colheita.
A pesquisa que levou à identificação dessas moléculas rendeu à cientista, em 2019, o Prêmio Para Mulheres na Ciência, concedido pela parceria L’Oréal-UNESCO-ABC. Em 2025, ela também recebeu o Prêmio Otto Gottlieb na categoria Jovem Pesquisador.
Atuação institucional
Atualmente, Taícia também é coordenadora do Núcleo Mulheres da Sociedade Brasileira de Química. O grupo atua na promoção da visibilidade feminina na área por meio de eventos, palestras, rodas de conversa, redes de apoio e produção de materiais em parceria com a Sociedade Brasileira de Matemática e a Sociedade Brasileira de Física. “O que queremos é que essas mulheres permaneçam na carreira e alcancem posições de liderança. Só assim conseguiremos mudar essa história”, afirma.
Mudança de cenário
Para a pesquisadora, o cenário atual das mulheres na ciência pode ser mudado a partir de políticas de incentivo desde os primeiros anos da vida da mulher. “A gente nasce com curiosidade científica, mas, ao longo do tempo, isso pode se perder. Quando entramos em uma loja de brinquedos, por exemplo, percebemos que há uma divisão clara: brinquedos de lógica e ciência costumam estar na seção destinada aos meninos, enquanto às meninas são oferecidos brinquedos ligados ao cuidado. Precisamos trabalhar isso desde o início, para que as meninas tenham contato com mulheres cientistas”, ressalta.





