quinta-feira, 5 março 2026
FORÇA DA NATUREZA

Há cerca de 20 anos, tornados deixaram rastro de morte e R$ 14 milhões em prejuízos na região

Eventos climáticos ocorreram em Santa Bárbara d’Oeste e Piracicaba
Por
Nathalia Tetzner

Em 29 de março de 2006, Santa Bárbara d’Oeste e Piracicaba foram atingidas por três tornados. Diante da força do fenômeno, a região registrou dois óbitos e prejuízos estimados em R$ 14 milhões.

Horas de destruição
O calendário marcava o fim de março, mas o relógio parecia ter parado. O que começou como uma manhã nublada, comum ao outono paulista, rapidamente deu lugar a um cenário de eclipse forçado.

Em instantes, o cinza se adensou, o dia virou noite e o silêncio da rotina foi rasgado por um barulho que a região jamais havia ouvido. Não era apenas uma tempestade; era o início de um pesadelo em forma de funil, que cruzaria cidades e mudaria para sempre a forma de olhar para o céu.

Um fenômeno da natureza
Os tornados se formam quando massas de ar tropicais e polares se encontram, provocando um contraste extremo que resulta em grandes colunas de ar giratórias e violentas. Em geral, apresentam ventos entre 65 e 180 quilômetros por hora. Os mais intensos podem ultrapassar os 480 quilômetros por hora.

De acordo com dados da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), os ventos em Piracicaba alcançaram 158 quilômetros por hora na manhã de 29 de março de 2006.

A imprensa noticiou cerca de 46 notícias diferentes sobre a ocorrência na época. Foto: Thiago Margato

Dois anos após o evento, um artigo científico escrito pelo então aluno da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Daniel Henrique Cândido e por sua orientadora, Luci Hidalgo Nunes, foi publicado em uma revista da USP (Universidade de São Paulo).

O estudo, intitulado “Condicionantes físicos e impactos dos tornados no final de março de 2006 no interior paulista”, revela detalhes específicos sobre os três tornados, classificados como F1 — o primeiro nível da Escala Fujita, criada em 1973, responsável por medir a intensidade dos ventos em até cinco níveis.

O evento em números
À época, a região contabilizou diversas ocorrências: 319 em Piracicaba, 20 em Americana e 62 em Campinas. Em relação aos feridos, foram 15 em Santa Bárbara d’Oeste, 21 em Piracicaba e três em Nova Odessa.

Os dois óbitos ocorreram em Santa Bárbara d’Oeste e Limeira. Os efeitos dos tornados foram sentidos em 17 bairros de Santa Bárbara d’Oeste, 16 de Piracicaba, 14 de Americana, quatro de Campinas e Nova Odessa, e um de Cosmópolis e Hortolândia.

Condições extremas
A reportagem ouviu Rômulo Gobbi, secretário de Segurança, Trânsito e Defesa Civil de Santa Bárbara d’Oeste, para compreender os fatores ambientais por trás do que ocorreu naquele dia.

“Diante do aquecimento global, diversas anomalias têm sido observadas nos últimos anos, como o aumento de queimadas, enchentes, chuvas torrenciais e períodos prolongados de seca. Frente a esse cenário, Santa Bárbara d’Oeste vem se adaptando a essa nova realidade, buscando reduzir os efeitos decorrentes desses fenômenos naturais”, afirma o secretário.

O evento durou grande parte do dia. Foto: Thiago Margato

As quedas de árvores foram constantes. Estima-se que entre 40 e 200 árvores tenham caído em Santa Bárbara d’Oeste; entre 1.000 e 2.600 em Piracicaba; entre 50 e 300 em Americana; e entre 40 e 228 em Campinas.

A falta de energia elétrica também afetou moradores da região. Segundo pesquisa da Unicamp, Santa Bárbara d’Oeste permaneceu 48 horas sem fornecimento de energia, Piracicaba ficou 12 horas sem luz e Americana, 49 horas.

O destelhamento foi quase inevitável nos bairros atingidos pelos tornados, com cerca de 200 ocorrências em Santa Bárbara d’Oeste, 25 em Americana e 85 em Limeira.

Susto generalizado
A repercussão foi imediata entre a população. No Orkut, rede social que estava em alta à época, uma comunidade foi criada no mesmo dia em que os tornados atingiram as cidades.

Batizada de “Ciclone em Pira: eu sobrevivi” — já que a denominação “tornado” só foi confirmada após análises meteorológicas —, a comunidade chegou a reunir 1.490 membros.

O evento durou grande parte do dia. Foto: Piracicaba Stormchaser

A imprensa da região também noticiou os tornados, incluindo a TV TODODIA. De acordo com relatos de moradores, a força e a trajetória dos ventos, o barulho e a baixa visibilidade foram os fatores que mais impactaram a população à época do evento.

Rômulo Gobbi reforçou a importância da prevenção em situações como essas.

“Na verdade, quem tem medo da tempestade é a pessoa responsável. Os irresponsáveis não têm medo. Diante de ventanias ou fenômenos semelhantes, é necessário procurar abrigo seguro e nunca permanecer próximo a árvores ou a redes de transmissão de energia elétrica”, afirma o secretário.

Avanços tecnológicos
O secretário destacou que, atualmente, a tecnologia é uma grande aliada na prevenção de desastres naturais.

“Em razão dos avanços tecnológicos, foram desenvolvidos mecanismos que permitem notificar a população com antecedência por meio de telefones celulares. É uma ferramenta que já salvou e continuará salvando muitas vidas”, ressalta Rômulo Gobbi.

Logística pós-tornados
Além das inovações tecnológicas, o processo de restauração das cidades leva tempo. À época dos tornados, as prefeituras decretaram estado de emergência diante da destruição causada pelo fenômeno.

Santa Bárbara d’Oeste, o município mais afetado, levou cerca de 240 dias para se recuperar. Piracicaba necessitou de aproximadamente 60 dias, enquanto Americana levou cerca de um mês para restabelecer a normalidade.

As cidades da região levaram tempo para se recuperar após os estragos. Foto: Thiago Margato

Hoje, os protocolos são mais eficazes. É o que afirma Rômulo Gobbi.

“Diante da ocorrência desses fenômenos, no pós-fato, temos uma ação repressiva por meio de todas as secretarias municipais, em um gerenciamento de crise específico. Isso permite que os danos sofridos pela população sejam mitigados, possibilitando que as pessoas se restabeleçam e retomem suas vidas normais”, comenta o secretário.

Memória
Os números impressionam, e as cicatrizes deixadas na infraestrutura das cidades levaram meses para desaparecer. No entanto, o impacto na memória de quem viveu aquela manhã de março de 2006 é permanente.

Hoje, com sistemas de Defesa Civil mais robustos e uma comunicação muito mais ágil, Santa Bárbara d’Oeste, Piracicaba e Americana olham para o céu de forma diferente. Relembrar o passado não é apenas narrar uma história de destruição, mas reforçar o compromisso com a segurança de todos nós.

Receba as notícias do Todo Dia no seu e-mail
Captcha obrigatório

Veja Também

Veja Também