No país do futebol, um grupo de imigrantes haitianos encontrou dentro de campo uma forma de construir uma nova história. Na quinta divisão do Campeonato Amador de Santa Bárbara d’Oeste, o União FC reúne jogadores que deixaram o Haiti para recomeçar a vida no Brasil.
Dos 21 atletas do elenco, 19 são haitianos e dois são brasileiros. Mais do que disputar partidas, o grupo transformou o futebol em espaço de convivência e aproximação entre pessoas que compartilham experiências semelhantes.
Antes do duelo contra o Zona Sul, que valia o acesso à quarta divisão, a reportagem da TV TODODIA conversou com o técnico Ruthson Louigene e com os jogadores Michel Sebastian e Nehemi B Joseph.

Um time criado pela comunidade
Para os integrantes do União FC, a equipe nasceu da vontade de manter vivo o futebol entre os haitianos que vivem na cidade. “Não tem muito haitiano que vem aqui para fazer um time de futebol. Eles vêm aqui só para trabalhar, só para ganhar dinheiro. A gente dá um jeito para fazer um time, porque a gente também é jogador.”
A equipe foi inscrita inicialmente com o nome FC Union, mas passou a se chamar União FC durante o campeonato. Segundo o técnico Ruthson Louigene, o elenco reúne jogadores que já participavam de uma equipe formada para amistosos em 2024.
O grupo foi reorganizado neste ano para disputar oficialmente o campeonato de Santa Bárbara d’Oeste. O nome escolhido faz referência à bandeira da comunidade e ao lema “União Faz a Força”. “Esse nome saiu da nossa bandeira, que é ‘União Faz a Força’, que é o lema da nossa bandeira. Eles veem o nome e pegam o jeito. Eles sabem que, se a gente se une, a gente consegue.”
A retomada aconteceu cerca de três meses antes da competição. Ruthson e outros quatro jogadores que permaneceram no grupo reconstruíram o elenco e decidiram ocupar uma vaga na quinta divisão, a última categoria do campeonato municipal. “A gente decidiu entrar no campeonato aqui em Santa Bárbara. Nós montamos de novo, recriamos o time e decidimos pegar a vaga na quinta divisão. Conseguimos a vaga e estamos aqui disputando o acesso.”
Futebol como lugar de pertencimento
Segundo a Associação de Desenvolvimento da Comunidade Haitiana, cerca de 400 imigrantes vivem atualmente em Santa Bárbara d’Oeste. Muitos deixaram o Haiti em meio a uma crise humanitária marcada pela violência e pelo controle de gangues armadas.
Dentro do União FC, a bola também se tornou uma maneira de manter vínculos com a cultura de origem e, ao mesmo tempo, criar novas relações no Brasil. Para o camisa 8 Michel Sebastian, vestir a camisa da equipe significa estar entre os dois países. “Enquanto eu estou com essa camisa, estou pensando que estou no meio. Meio no Haiti e meio no Brasil. Porque aqui já é minha casa também.”
O jogador também compara a estrutura do futebol encontrada no Brasil com a realidade deixada no Haiti. “Eu saí de lá quando tinha 16 anos. Hoje ouço notícias de que tem campeonato e até queria jogar um pouco, mas, infelizmente, aqui também os campos são bem melhores e o campeonato é mais organizado.”
Acesso não veio, mas história continua
O duelo contra o Zona Sul valia uma vaga na quarta divisão do Campeonato Amador. A classificação, porém, não veio: o União FC perdeu por 4 a 1 e encerrou a campanha na quinta divisão.
Mesmo com o resultado, a equipe deixou uma marca que vai além da tabela. Para os jogadores, o futebol abriu espaço para reunir uma comunidade, fortalecer amizades e construir um sentimento de pertencimento longe do país de origem.
O time começou com a intenção de jogar futebol, mas passou a representar também uma comunidade que encontrou no esporte uma maneira de estar junto e construir uma nova vida em Santa Bárbara d’Oeste.





