sábado, 30 agosto 2025
ARTIGO

A luta que manteve Santa Bárbara d’Oeste no mapa

Entre relatos, documentos e lembranças preservadas com zelo, emergiu a narrativa de como Santa Bárbara quase perdeu o nome que a identificava, correndo o risco de se tornar Canatiba em pleno Estado Novo
Por
Prof. Eng. João Ulysses Laudissi
Engenheiro João Ulysses Laudissi | Foto: Divulgação

Uma valiosa conversa com o historiador barbarense Antonio Carlos Angolini, somada à leitura do livro virtual Isto é Santa Bárbara d’Oeste, escrito por ele em parceria com o jornalista e escritor João José Bellani, trouxe-me os subsídios necessários para revisitar um episódio decisivo da nossa história. Entre relatos, documentos e lembranças preservadas com zelo, emergiu a narrativa de como Santa Bárbara quase perdeu o nome que a identificava, correndo o risco de se tornar Canatiba em pleno Estado Novo.

As palavras do historiador e o conteúdo do livro revelaram não apenas fatos, mas também a força de um povo que, em uníssono, se levantou para preservar sua identidade e devoção. O livro está disponível para download em: https://www.santabarbara.sp.gov.br/portal/servicos/1028/. É dessa rica fonte de conhecimento e paixão pela história local que nasce este artigo.

A história de Santa Bárbara d’Oeste guarda um episódio curioso e, ao mesmo tempo, decisivo para a preservação de sua identidade. No final de 1943, durante o Estado Novo (1937–1945), a cidade esteve prestes a perder o nome dado por sua fundadora, Dona Margarida da Graça Martins, em homenagem à sua santa de devoção: Santa Bárbara.

Naquele ano de 1943, o governo federal implementou uma medida que afetou diversas localidades chamadas “Santa Bárbara”. A ação visava padronizar e reduzir a duplicidade de nomes de cidades, distritos e vilas em todo o país. Como consequência, várias dessas localidades foram obrigadas a adotar novas denominações.

Havia então, no Brasil, cerca de dezenas de lugares identificados pelo mesmo nome de Santa Bárbara. Embora muitos tivessem sido fundados entre os séculos XVIII e XIX, a maioria ainda não havia alcançado a categoria de município. Apenas dois, à época, eram oficialmente reconhecidos como municípios: um em Minas Gerais, elevado a município em 1704, e o outro em São Paulo, a atual Santa Bárbara d’Oeste, que se tornou município em 1869 e que até então era denominada somente de Santa Bárbara.

O governo de Getúlio Vargas, por meio da Resolução nº 1.979, de 12 de novembro de 1943, determinou que, a partir de 1º de janeiro de 1944, a cidade paulista passaria a se chamar Canatiba — termo de origem tupi que significa “cana em abundância”, clara referência à principal atividade econômica da região. Com a mudança, seus moradores deixariam de ser barbarenses para se tornarem canatibanos.

A decisão foi recebida com indignação pela população. O sentimento de perda era profundo, não apenas pelo nome, mas pelo valor histórico e espiritual que carregava. Nesse cenário, o vigário da Matriz de Santa Bárbara, Padre Henrique Nicopelli, iniciou uma mobilização popular contra a medida. Ao final das missas, conclamava os fiéis a defenderem o nome da padroeira, transformando o púlpito em tribuna de resistência.

O jornal Cidade de Santa Bárbara, dirigido pelos irmãos Azael e Azor Rocha, também se engajou na causa. Nas manchetes, a indignação era explícita, e a campanha ganhou visibilidade e força. Logo surgiu a proposta de uma solução intermediária: manter o nome Santa Bárbara e acrescentar um termo que diferenciasse a cidade das demais homônimas.

Foi então criada uma Comissão Especial, composta por cidadãos influentes e lideranças locais, como o Dr. Carlos Steagall, Alfredo Maluf, Ângelo Sans e o prefeito Plácido Ribeiro Ferreira. Em 27 de novembro de 1943, a comissão viajou à capital paulista para se reunir com o interventor federal Fernando Costa, levando um memorial com cerca de duas mil assinaturas de moradores contrários à mudança.

Poucos dias depois, o prefeito levou o documento também ao Rio de Janeiro, então capital federal. O caso foi analisado pelo Instituto Histórico e Geográfico, que discutiu três alternativas: Santa Bárbara Paulista, Santa Bárbara de Piracicaba e Santa Bárbara d’Oeste.

Em março de 1944, a vitória popular foi confirmada. O Diário Oficial do Estado de São Paulo publicou a decisão: o nome definitivo seria Santa Bárbara d’Oeste, escolha sancionada pelo presidente Getúlio Vargas. O termo “d’Oeste” foi adotado para situar geograficamente a cidade no rumo oeste, quando vista a partir de São Paulo e do Rio de Janeiro.

A notícia foi recebida como um verdadeiro presente de Natal atrasado. Significava que os moradores continuariam sendo barbarenses, e não “canatibanos”.

Com isso, Santa Bárbara preservou sua ligação com a fé de sua fundadora e com a trajetória de seu povo. O episódio demonstra como a união entre comunidade, Igreja e imprensa local foi capaz de impedir que uma imposição governamental apagasse símbolos de devoção e pertencimento.

Mais do que a simples manutenção de um nome, a conquista de 1944 reafirma que a memória de um povo é construída pela vontade coletiva de preservar aquilo que lhe dá identidade. Santa Bárbara d’Oeste não é apenas uma cidade; é o reflexo da resistência de uma comunidade que se recusou a deixar sua história ser reescrita por decreto.

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