sexta-feira, 30 janeiro 2026
INVESTIGAÇÃO

Moradores denunciam coação da polícia a testemunha-chave em caso de jovem morto por PM em Piracicaba

A SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública) foi procurada, mas ainda não se manifestou sobre as imagens obtidas pela reportagem
Por
Airan Prada e Nicoly Maia
Familiares e moradores se dizem preocupados com a atuação da polícia na região. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Moradores da Vila Sônia, em Piracicaba, afirmam que a principal testemunha do caso que terminou com a morte de Gabriel Junior Oliveira Alves da Silva, de 22 anos, em abril de 2025, estaria sendo coagida após a soltura de policiais investigados, ocorrida em 17 de dezembro do ano passado.

A denúncia se baseia em vídeos, obtidos pela TV TODODIA, que registram uma viatura parando em frente ao estabelecimento do comerciante apontado como testemunha-chave. As imagens mostram policiais tirando fotos do local e foram flagradas por câmeras de segurança do entorno da rua na terça-feira (27).

Repercussão
O presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Piracicaba, Gustavo Henrique Pires, disse, em entrevista à TV TODODIA, acompanhar o caso e afirma constar como vítima em investigação por ameaças relacionadas ao episódio.

Segundo Pires, a gravação teria flagrado a mesma viatura (prefixo I-10504) que atendeu a ocorrência que resultou na morte de Gabriel e que, agora, teria sido vista com equipes fazendo imagens em frente ao local ligado à testemunha. Ele afirma que o comércio está fechado por medo do proprietário.

Ainda de acordo com ele, a soltura dos policiais ocorreu às vésperas da primeira audiência do caso, que estava prevista para 20 e 21 de janeiro, mas acabou não ocorrendo.

O motivo, segundo o relato, foi a ausência de testemunhas de acusação, que não teriam comparecido “por medo”, e a apresentação de um laudo médico por outro policial investigado por ameaça e coação, alegando acidente na véspera.

Pires afirma ainda que o MP (Ministério Público) se manifestou contra a soltura e já apresentou recurso para tentar restabelecer a prisão dos investigados, aguardando julgamento em segunda instância.

Receio
De acordo com o advogado, testemunhas procuraram a comissão relatando que policiais estariam rondando casas de pessoas ligadas ao caso e informando que os dois policiais soltos estariam “na rua”.

Segundo Pires, um vizinho posicionou uma câmera voltada ao comércio da testemunha e, no dia 27, teria registrado uma viatura parando no local e realizando imagens. Na avaliação dele, a atitude seria “uma evidente tentativa de amedrontamento”.

Gustavo Pires declarou que, ao longo do caso, teriam sido apresentadas versões diferentes sobre o que Gabriel carregava no momento da abordagem. Foto: Reprodução/TV TODODIA

Pires também afirma que, na noite do fato, policiais teriam ido ao comércio e pedido acesso a gravações de câmeras, além de manusear celular de familiares para apagar registros — e que parte do conteúdo teria sido preservada por estar salva em nuvem ou backup.

Relembre o caso
Gabriel Junior Oliveira Alves da Silva morreu em 1º de abril de 2025. Na época, a versão registrada em boletim de ocorrência apontou resistência à abordagem e alegou que ele teria avançado contra policiais com uma pedra, o que teria motivado um disparo que o atingiu na cabeça.

Familiares e moradores, porém, contestaram a narrativa. A então companheira, Rebeca Braga, grávida de oito meses, afirmou que ele havia saído para comprar refrigerante enquanto ela pegava milho.

Rebeca disse que sofreu agressões durante a ação. Um primo de Gabriel, Wesley Rodrigo, também relatou agressões no momento da abordagem.

Gabriel teria passagem por tráfico de drogas e sofreria retaliação de um dos policiais envolvidos na ocorrência, que morava na mesma região e teve a casa incendiada. Apuração da TV TODODIA aponta que o PM desconfiava que Gabriel soubesse a identidade do autor do incêndio.

Contradições
Gustavo Pires declarou que, ao longo do caso, teriam sido apresentadas versões diferentes sobre o que Gabriel carregava no momento da abordagem, e afirmou que a perícia teria contrariado pontos do relato inicial.

Segundo ele, testemunhas disseram que a abordagem teria ocorrido de forma “nominal”, com os policiais chamando Gabriel pelo nome, e que ele não teria usado madeira nem arremessado pedra. Pires também alegou que, conforme relatos colhidos, pedras exibidas na narrativa inicial teriam sido retiradas “da própria viatura”, e não do local.

O presidente da comissão de direitos Humanos da OAB de Piracicaba afirmou que, em 10 de abril do ano passado, após sair do MP (Ministério Público) e ir ao bairro para coletar dados de testemunhas a pedido do órgão, teria sido abordado por duas viaturas, de forma truculenta, com menção direta ao seu nome.

Ele relata que os policiais teriam exigido seu celular, revistado veículo e material de trabalho, e impedido contato com a OAB durante a abordagem. Segundo ele, a situação só teria diminuído após moradores saírem para filmar e acompanhar o caso. Depois, ele diz que procurou delegacia e registrou boletim.

Investigação e próximos passos
De acordo com Pires, as apurações relacionadas ao caso não seguiriam mais sob condução da PM (Polícia Militar), ficando concentradas na Polícia Civil e no MP (Ministério Público).

A SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública) foi procurada, mas ainda não se manifestou sobre as imagens obtidas pela reportagem. O espaço segue aberto.

Em nota, o TJ-SP (Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo) declarou que o caso corre em segredo e que, por isso, não irá se manifestar.

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