quinta-feira, 19 março 2026
INVESTIGAÇÃO

Moradores denunciam coação da polícia a testemunha-chave em caso de jovem morto por PM em Piracicaba

A SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública) negou que a presença da PM registrada no local tenha relação com a ocorrência de abril de 2025
Por
Airan Prada

Moradores da Vila Sônia, em Piracicaba, afirmam que a principal testemunha do caso que terminou com a morte de Gabriel Júnior Oliveira Alves da Silva, de 22 anos, baleado na cabeça durante uma abordagem da Polícia Militar em abril de 2025, estaria sendo alvo de coação e intimidação após a soltura de policiais investigados, ocorrida em 17 de dezembro do ano passado. Eles haviam sido presos em junho.

A denúncia se baseia em vídeos obtidos pela TV TODODIA que registram uma viatura da Polícia Militar parando em frente ao estabelecimento comercial ligado à testemunha-chave. As imagens mostram policiais realizando registros em imagem do local e foram captadas por câmeras de segurança do entorno da rua, na terça-feira (27).

Repercussão
O caso é acompanhado pela Comissão de Direitos Humanos da OAB de Piracicaba. Em entrevista à TV TODODIA, o presidente da comissão, Gustavo Henrique Pires, afirmou que também figura como vítima em investigação por ameaças relacionadas ao episódio.

Familiares e moradores se dizem preocupados com a atuação da polícia na região. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Segundo Pires, as imagens teriam flagrado a mesma viatura, identificada pelo prefixo I-10504, que atendeu a ocorrência que resultou na morte de Gabriel Júnior Oliveira Alves da Silva. De acordo com ele, a viatura agora teria sido vista realizando imagens em frente ao local ligado à testemunha, o que reforçou o temor relatado por moradores. Ainda de acordo com o advogado, o comércio permanece fechado por medo do proprietário, apontado como testemunha-chave do caso.

Testemunhas informaram que policiais estariam rondando casas de pessoas ligadas ao caso e comunicando que os dois policiais soltos estariam “na rua”. Após esses relatos, um vizinho posicionou uma câmera voltada ao comércio da testemunha e, no dia 27, o equipamento registrou uma viatura parando no local e realizando imagens. Para a comissão, a conduta representa uma tentativa de amedrontamento.

Adiamento
A soltura dos policiais investigados ocorreu às vésperas da primeira audiência do processo, que estava marcada para os dias 20 e 21 de janeiro, mas acabou não sendo realizada. Conforme apurado pela reportagem, a decisão judicial que concedeu liberdade provisória estabeleceu medidas cautelares, como comparecimento periódico em juízo, assinatura mensal, justificativa de atividades, proibição de circular no bairro onde ocorreu o crime e de manter contato com pessoas envolvidas no processo.

A audiência não ocorreu por ausência de testemunhas de acusação, que não teriam comparecido por medo, e pela apresentação de um laudo médico por outro policial investigado por ameaça e coação, alegando acidente na véspera. O Ministério Público se manifestou contrário à soltura e ingressou com recurso em segunda instância para tentar restabelecer a prisão dos investigados.

As apurações relacionadas ao caso deixaram de ser conduzidas pela Polícia Militar e passaram a ficar sob responsabilidade da Polícia Civil e do Ministério Público, conforme informações apuradas pela reportagem.

Relembre o caso
Gabriel Júnior Oliveira Alves da Silva morreu em 1º de abril de 2025, após ser atingido por um disparo na cabeça durante uma abordagem policial na Vila Sônia. À época, o boletim de ocorrência apontou resistência à abordagem e alegou que Gabriel teria avançado contra policiais com uma pedra. Familiares e moradores contestam essa versão.

A então companheira de Gabriel, grávida de oito meses na época, afirmou que ele havia saído para comprar refrigerante enquanto ela comprava milho. Ela e um primo de Gabriel relataram agressões durante a ação policial.

Segundo apuração da TV TODODIA, Gabriel tinha passagem anterior por tráfico de drogas e poderia estar sofrendo retaliação de um dos policiais envolvidos na ocorrência, que morava na mesma região e teve a casa incendiada. A suspeita seria de que o policial acreditava que Gabriel soubesse a identidade do autor do incêndio.

Ao longo das investigações foram apresentadas versões diferentes sobre o que Gabriel carregava no momento da abordagem. A perícia da Polícia Civil teria contrariado pontos do relato inicial, segundo a comissão da OAB.

De acordo testemunhas, a abordagem teria ocorrido de forma nominal, com os policiais chamando Gabriel pelo nome, e ele não teria portado pedaços de madeira nem arremessado pedra. Ainda conforme os relatos, objetos apresentados na narrativa inicial teriam sido retirados da própria viatura, e não do local.

Gustavo Pires declarou que, ao longo do caso, teriam sido apresentadas versões diferentes sobre o que Gabriel carregava no momento da abordagem. Foto: Reprodução/TV TODODIA

Gustavo Pires afirma que, na noite da morte de Gabriel, policiais envolvidos na ocorrência teriam ido ao comércio, solicitado acesso às gravações das câmeras e manuseado o celular de familiares com o objetivo de apagar registros. Parte do material, segundo o relato, só foi preservada por estar salva em nuvem ou em backup.

Pires também aponta que, em 10 de abril do ano passado, após sair do Ministério Público e ir ao bairro para coletar dados de testemunhas a pedido do órgão, teria sido abordado por duas viaturas de forma truculenta, com menção direta ao seu nome. Segundo ele, os policiais exigiram seu celular, revistaram o veículo e o material de trabalho, além de impedirem contato com a OAB. A situação só teria cessado após moradores saírem para filmar a abordagem. Posteriormente, ele registrou boletim de ocorrência.

Outro lado
Procurada, a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo) informou que a presença da viatura no local ocorreu durante diligência administrativa relacionada a um Inquérito Policial Militar de 2024 e negou qualquer relação com o caso de 2025. A pasta afirmou ainda que os policiais envolvidos permanecem afastados do serviço operacional enquanto respondem a processos administrativos.

Leia a íntegra da nota:

A Polícia Militar esclarece que, na tarde de terça-feira (27), uma equipe administrativa da 5ª Cia do 10º Batalhão de Polícia Militar do Interior esteve na Rua Raul Ataíde, no bairro Vila Sônia, em Piracicaba, para o cumprimento de diligências no âmbito de um Inquérito Policial Militar (IPM) referente a uma ocorrência de 12 de abril de 2024. O registro de imagens foi realizado apenas para fins administrativos e investigativos, em conformidade com as normas, atribuições legais e procedimentos operacionais da instituição. A referida atuação não possui qualquer relação com fatos ocorridos em abril de 2025. Os dois policiais militares relacionados a este caso tiveram as prisões preventivas revogadas pela Justiça em dezembro do mesmo ano e permanecerão afastados do serviço operacional, sendo empregados em funções administrativas internas no Comando de Policiamento do Interior 9 (CPI-9), como restrição imposta pelos Processos Administrativos Disciplinares aos quais respondem. A Polícia Militar ressalta que não compactua com desvios de conduta e que todas as ocorrências dessa natureza são rigorosamente apuradas, com a adoção das medidas administrativas e legais cabíveis. Além disso, sua corregedoria está à disposição para receber e apurar denúncias.

Receba as notícias do Todo Dia no seu e-mail
Captcha obrigatório

Veja Também

Veja Também