O Brasil registrou 1.568 mulheres mortas em 2025 em casos de feminicídio, segundo dados do Fórum Nacional de Segurança Pública divulgados em março. O cenário indica uma morte a cada 5 horas e reforça o alerta para um tipo de violência que, na maior parte dos casos, acontece dentro de casa e é praticado por homens próximos das vítimas.
Os números mostram que o agressor costuma estar no convívio da mulher, e não em situações isoladas nas ruas. A estatística aponta que 97,3% dos autores são homens, 21,3% dos crimes foram cometidos por ex-parceiros, 10,2% por familiares e apenas 4,9% dos autores eram desconhecidos.
RAIO-X DA VIOLÊNCIA (Fonte: Fórum Nacional de Segurança Pública)
- Agressor é homem: 97,3%
- Mortas pelo ex-parceiro: 21,3%
- Mortas por familiares: 10,2%
- Autores desconhecidos: Apenas 4,9%
Perfil da violência
Os dados desmistificam a ideia de que o principal risco está em ataques cometidos por estranhos. O levantamento indica que o perigo, muitas vezes, está dentro do ambiente doméstico ou no círculo de convivência da vítima.
A leitura desse cenário reforça que o feminicídio não costuma ser um fato isolado, mas o desfecho de uma sequência de agressões, ameaças, controle e violência psicológica ou física.
Responsabilidade masculina
Para o juiz Iberê de Castro Dias, da 1ª Vara Criminal de Santa Bárbara d’Oeste, o enfrentamento ao feminicídio precisa passar pelo reconhecimento da responsabilidade masculina nesse processo.
“Essa deve ser uma pauta predominantemente, masculina, pois nós somos os agressores, não estamos dizendo individualmente, mas como categoria antropológica, os homens são historicamente os agressores. Se nós não assumirmos isso, nós não encamparmos esse papel na prevenção ao feminicídio, da conscientização da nossa própria consciência, dos atos machistas que fazemos ao longo do ano, nós não teremos muitos avanços”, analisou o magistrado.
O prefeito de Santa Bárbara d’Oeste, Rafael Piovezan (PL), afirmou que também entende esse enfrentamento como uma pauta masculina e citou ações do poder público municipal. “Temos consciência dessa importância e por isso desenvolvemos algumas políticas públicas como a otimização dos recursos do Anjos da Guarda da Mulher da GCM (Guarda Civil Municipal), no Centro de Referência da Mulher, entre outros”, afirmou.
O presidente da Câmara de Santa Bárbara d’Oeste, Júlio César Kifú, também defendeu o debate sobre o tema. “A gente vem sentido essa necessidade, é um assunto que vem crescendo, o feminicídio em todos os lugares. Os homens devem dar apoio às mulheres, tem a necessidade de discutirmos. Nós temos esse dever”, destacou Kifú.
Medida protetiva e denúncia
Na DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) de Americana, o delegado Edson Antonio dos Santos afirmou que a medida protetiva é uma das principais ferramentas para interromper a escalada da violência, mas depende da demonstração de risco à vítima. “Uma vez sofrendo ameaças ou ofensas, a mulher pode procurar, preferencialmente, a DDM ou uma delegacia especializada para fazer o pedido da medida protetiva, que faremos e depois encaminharemos ao Ministério Público e a Justiça para a decretação da medida”, afirmou o delegado.
Segundo ele, a medida é aplicada quando já há indícios concretos de violência ou ameaça, por se tratar de uma ação que pode afastar o agressor do lar ou impedi-lo de se aproximar da vítima.
Ciclo da violência
O delegado também aponta que a identificação precoce dos sinais pode ser determinante para evitar o desfecho mais grave. O feminicídio, segundo ele, é resultado de uma escalada de abusos que precisa ser interrompida antes de chegar ao limite.
A psicóloga Anna Júlia Pértile afirma que a motivação central dos agressores costuma estar ligada ao sentimento de posse. “Tudo gira em torno do ciúme, seja por uma traição (real ou suspeita) ou pela não aceitação do fim da relação. Os agressores enxergam a mulher como propriedade, um objeto”, afirma.
Canais de ajuda
Mulheres em situação de violência ou pessoas que presenciem agressões podem buscar ajuda por diferentes canais. Em casos de emergência, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190 ou a Guarda Municipal pelo 153.
Também estão disponíveis o Ligue 180, para acolhimento e orientação, o Disque 100, para denúncias de violações de direitos humanos, além da procura presencial pela DDM mais próxima.





