Terça, 28 Setembro 2021

Aglomerações se multiplicam pelo Brasil em meio a variante delta

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Aglomerações se multiplicam pelo Brasil em meio a variante delta

A variante, mais transmissível, tem potencial para causar grandes estragos. Isso fica claro ao se observar a situação em outros países que estão avançados na vacinação em comparação ao Brasil 

Polícia acaba com festa clandestina em São Paulo durante a pandemia ( Foto: Governo SP)

Índices melhores da pandemia de Covid-19 e o consequente afrouxamento de regras de circulação nas últimas semanas têm provocado aumento de aglomerações de pessoas, acendendo alerta diante do aumento de casos registrados da variante delta do coronavírus pelo país.

A variante, mais transmissível, tem potencial para causar grandes estragos. Isso fica claro ao se observar a situação em outros países que estão avançados na vacinação em comparação ao Brasil.

"Espera-se que a deterioração da situação epidemiológica continue em vários países europeus, considerando o rápido crescimento da variante delta", aponta o relatório semanal do ECDC (Centro Europeu para o Controle e a Prevenção de Doenças, na sigla em inglês). Segundo o documento, o avanço no número de casos tem ocorrido em grupos etários mais novos, como jovens entre 15 e 24 anos.

De acordo com o ECDC, os países com tendências de alta nas taxas médias de casos (sempre ajustadas ao tamanho da população) mais críticas são Portugal, Espanha, Holanda e o Chipre, o pior entre eles. Nessas nações, pelo menos até o momento, não há tendências de aumento na taxa de mortes, porém.

Em Israel, a situação também preocupa. Com mais de 60% da população vacinada, o país viu as infecções crescerem de poucos casos para algumas centenas e precisou reintroduzir medidas de proteção.

Os casos europeu e israelense servem de alerta para as discussões e ações no Brasil. "Aqui muito provavelmente não vai ser diferente, agora que já temos transmissão comunitária", afirma Ethel Maciel, epidemiologista e professora da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo). "É um momento muito delicado e precisamos agir com muita cautela."

A variante delta já circula no estado do Rio de Janeiro ""que confirmou neste final de semana ter 74 casos registrados em 12 municípios"" e em São Paulo. Também há casos no Maranhão, em Minas Gerais, no Paraná e em Goiás.

No Brasil, até agora, somente pouco mais de 20% da população com mais de 18 anos está totalmente imunizada.

Segundo Maciel, devido a falhas no planejamento do combate à pandemia, é difícil ter noção real da expansão atual da cepa no país. "Fazermos pouca vigilância genômica e poucos testes", afirma. "Até hoje não temos um programa de testagem. Tudo isso vai fazendo com que a nossa resposta seja muito atrasada. Estamos sempre atrás do que está acontecendo."

Por isso, a reabertura dos espaços e atividades gera preocupação, considerando também a possibilidade de crescimento nas internações por outras motivos que não a Covid-19, como traumas em acidentes de trânsito.

Após mais de cem dias com medidas rígidas para funcionamento de comércio e serviços, Curitiba (PR) teve aglomerações no primeiro final de semana sob regência da bandeira amarela, a mais branda.

Vídeos compartilhados em redes sociais mostram a parte externa de bares da região central da capital lotados.

Segundo a prefeitura, de sexta-feira (9) a domingo (11), 11 locais foram interditados e 14 autos de infração foram lavrados em 42 vistorias realizadas no final de semana pelas equipes de fiscalização.

Mesmo com as regras menos rígidas, a prefeitura afirma que as fiscalizações seguem com a mesma frequência em Curitiba, com vistorias intensificadas nos finais de semana.

Paralelamente à reabertura das atividades, a Secretaria da Saúde do Paraná já confirmou oito casos da variante delta no estado, um deles na região metropolitana da capital. Segundo o órgão, por se tratar de episódios isolados em diferentes municípios, ainda não há como apontar que haja transmissão comunitária.

Em Pernambuco, o governo estadual anunciou flexibilização das medidas restritivas no mesmo dia em que confirmou os dois primeiros casos da variante delta no estado. A cepa foi detectada em tripulantes filipinos de um navio cargueiro do Chipre, que está atracado no porto do Recife.

Bares e restaurantes tiveram horários de funcionamento ampliados em uma hora, e música ao vivo será permitida a partir do dia 19 de julho. Há flagrantes de desrespeito às regras em alguns estabelecimentos, embora o governo afirme que quem descumprir as normas será penalizado.

O governo também aumentou a capacidade de eventos sociais, como casamentos. As festas podem ocorrer com no máximo de cem pessoas e 30% da capacidade do local.

De acordo com o governo, as mudanças foram possíveis porque os números da pandemia no estado, apesar da variante delta, estão em queda.

Em Belo Horizonte (MG), as aglomerações também voltaram a ser registradas com maior frequência, sobretudo nos finais de semana.

Na Savassi, região centro-sul da cidade, grandes grupos de pessoas, principalmente jovens, se reúnem em pelo menos dois pontos do bairro, ambos com vários bares um ao lado do outro. A maioria não usa máscara.

O funcionamento dos bares está autorizado até as 22h, mas é comum os estabelecimentos fecharem e os grupos permanecerem.

O município afirma ter intensificado a fiscalização em todas as regiões da capital para garantir o cumprimento das medidas de combate à Covid.

Enquanto isso, o índice que registra a circulação do coronavírus na cidade não para de subir. O chamado número médio de transmissão por infectado, divulgado pela prefeitura, passou de 0,94 em 6 de julho, ainda na faixa considerada verde, para 1,03, já na faixa amarela, no dia 15 do mesmo mês. O índice mede a capacidade de transmissão do vírus de uma pessoa a outra. Quanto menor o índice, mais baixa a possibilidade de contaminação.

Em Boa Vista (RR), onde o comércio pode funcionar até 0h, no último final de semana a prefeitura inspecionou 17 estabelecimentos e registrou descumprimento de medidas sanitárias, principalmente aglomerações. Seis foram autuados e em todos a fiscalização teve que fazer dispersões.

O médico José Rocha Faria Neto, pesquisador do Centro de Epidemiologia e Pesquisa Clínica (Epicenter) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), avalia que, com os indicadores da pandemia em baixa, a reabertura é possível e necessária, mas diz que é preciso colocar na balança os casos cada vez mais frequentes da variante delta em todos os estados.

"É só olhar o que está acontecendo no Reino Unido hoje, que tem uma cobertura vacinal maior do que a nossa e está tendo um aumento exponencial dos novos casos, com o crescimento da variante delta", afirmou.

O Reino Unido vai retirar todas as restrições à circulação, comércio e serviços relacionadas à pandemia nesta segunda (19), apesar do aumento de infecções.

Richard Horton, editor-chefe da revista científica Lancet, criticou recentemente o plano, dizendo que "nós sabemos o que vai acontecer. Sabemos que haverá um aumento de casos. Sabemos que está havendo um aumento de hospitalizações. Sabemos que haverá uma epidemia de Covid longa. E sabemos que estamos criando as condições para que surjam novas variantes. Temos um governo movido pela ideologia que está se comprometendo a forçar a população a aceitar um nível mais alto de mortes e de sequelas, para que possamos sair da situação em que estamos".

Faria Neto ressalta que, apesar do aumento nos casos não se refletir necessariamente em um crescimento das mortes por Covid-19 em outros países, isso pode não ocorrer no Brasil.

"Lá, eles estavam já num patamar muito baixo de casos e mortes [na reabertura]. Nós ainda estamos num patamar alto, então não precisa de muito para sobrecarregar o sistema de saúde outra vez."

A maior circulação de pessoas está levando hospitais a ampliarem o atendimento de outras causas que não a Covid-19, como acidentes de trânsito.

"No Paraná, as cirurgias eletivas já voltaram a ocorrer. Isso traz uma taxa de ocupação maior aos hospitais. E o aumento da circulação aumenta outras causas de internação. No momento, isso não sobrecarrega o sistema, mas, se voltarmos a ter um aumento no número de internamento por Covid-19, voltamos 

 

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