
O promotor de Justiça do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do MP-SP (Ministério Público do Estado de São Paulo), Lincoln Gakiya, afirmou nesta sexta-feira (29) que a decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas não traz benefícios práticos ao Brasil neste momento. A declaração foi dada durante entrevista ao jornalista José Luiz Datena, no programa Alô Alô Brasil, da Rádio Nacional.
Segundo Gakiya, países que já adotaram medidas semelhantes contra facções e cartéis não conseguiram reduzir o poder dessas organizações criminosas. “Os Estados Unidos já classificaram organizações mexicanas, venezuelanas e de El Salvador como terroristas e isso não diminuiu o poder delas”, afirmou o promotor.
O governo norte-americano anunciou nesta quinta-feira (28) a mudança na classificação das duas maiores facções criminais do Brasil. A medida passa a valer em 5 de junho.
Cooperação pode ser afetada
Para o promotor, a nova classificação pode atrapalhar o trabalho conjunto já realizado entre Brasil e Estados Unidos no combate ao tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro.
Gakiya destacou que, com a mudança, órgãos de inteligência e setores militares dos EUA passam a atuar de forma mais direta nesses casos. “A CIA passa a agir nesses casos e também os militares. Não só mais o FBI e a DEA”, declarou.
Na avaliação dele, o Brasil precisa fortalecer acordos de cooperação técnica e de investigação, sem transformar o tema em disputa política. O promotor defendeu a criação de forças-tarefas conjuntas entre os dois países para ampliar o combate às facções criminosas.
Soberania e risco diplomático
Especialistas em relações internacionais e segurança pública apontam que a classificação abre margem para sanções financeiras, pressão diplomática e até operações internacionais mais agressivas.
Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), grupos considerados terroristas normalmente possuem motivação política, ideológica ou religiosa, característica que não costuma ser associada ao PCC e ao CV.
Durante a entrevista, Gakiya classificou como remota a possibilidade de uma atuação militar norte-americana em território brasileiro, mas reconheceu que a legislação dos EUA permite operações externas em determinadas situações. “Não dá para comparar a força do Estado brasileiro com a Venezuela”, afirmou.
Preocupação do governo
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva já havia manifestado preocupação com a possibilidade de a medida abrir espaço para sanções e interferências externas.
Até o momento, o Itamaraty não divulgou novo posicionamento oficial sobre as declarações do promotor ou sobre os possíveis impactos da decisão norte-americana.





