terça-feira, 18 junho 2024
REVOLTANTE

Abuso sexual infantil em Americana

Série especial de reportagens mostra realidade assustadora em área carente da cidade
Por
Nayara Lourenço
Foto: Arquivo Pessoal

“O pai da minha amiga se esfregava em suas partes e tentou abusar dela enquanto a mãe não estava”; “A minha amiga foi abusada pelo tio dela quando era pequena, ela me contou, ficou muito triste e chorou muito, tentei ajudar, mas não adiantou”; “Eu tenho uma amiga que quando ela era mais nova, o pai abusou dela”; “Quando eu era pequena, meu pai ficava apertando minhas coxas e eu até hoje sonho com ele me abusando por medo. Não fiz nada por amar ele e ter medo de ele me odiar, ou acontecer algo com ele”.

Esses relatos revoltantes foram escritos por crianças da comunidade do Zincão, em Americana, em uma atividade sobre proteção ao abuso sexual, realizada pela Semear, uma Organização da Sociedade Civil que atende mais de 180 crianças cadastradas. De acordo com voluntárias, a organização ainda não recebe nenhum apoio para conseguir realizar atendimento psicológico com as crianças e adolescentes.

No Brasil, quase 130 crianças e adolescentes são vítimas de abuso sexual infantil por dia. Os dados do 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que, entre 2020 e 2021, foram registrados 45.994 casos de estupro de vulnerável, sendo a maioria cometidos contra meninas menores de 13 anos.

Na maioria das vezes, os abusadores estão dentro das residências das vítimas, como foi com a Maria*, que tinha entre seis e sete anos quando sofreu o primeiro abuso sexual. “Foram três abusos, um por volta dos seis e sete anos, o outro por volta dos nove, e um aos 13. O primeiro foi por parte de um cuidador, ele aproveitava os momentos onde a família toda ia dormir e encostava o pênis nas minhas nádegas, ele percebia que eu estava entendendo, mas usava aquilo para poder me punir, caso eu contasse para minha mãe ou um familiar. Ele me obrigava a fazer sexo oral nele, eu cheguei uma vez a enfrentar, mas ele disse que se eu fizesse isso, ele ia intensificar os abusos”, disse a vítima.

“O segundo abuso foi por parte de um vizinho, ele aproveitava os momentos que minha mãe ia trabalhar, me levava dentro de um caminhão e cometia o abuso sexual, tocava nos meus seios, na minha vagina. O último também tocava meus seios, todos foram no meu convívio familiar”, contou Maria*.

De acordo com o 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, estima-se que 82,5% dos abusadores são conhecidos, dentre eles, 40,8% são pais ou padrastos, 37,2% irmãos, primos ou outros parentes e 8,7% são avós.

Anos após ter sido vítima de diversas violências sexuais durante a infância, Maria precisou lidar com muitas marcas e traumas. “Eu tentei suicídio duas vezes por não conseguir enxergar um propósito de vida, eu me sentia culpada por tudo isso, embora eu tenha tentado fugir uma vez quando criança […] não tinha vontade de viver, me entupi de remédios e fui levada para o hospital, hoje eu vejo que isso tudo era um grito de socorro, eu só queria ser tirada daquela situação”, relatou Maria*.

Relatos e dados como estes assustam e mostram que o combate ao abuso sexual infantil é urgente. Para conversar sobre esse assunto, nós entrevistamos a psicóloga e especialista no tema, Jenefer Godoy, que vai falar sobre como reconhecer os sinais das vítimas, a necessidade do acolhimento psicológico e a prevenção dos casos. A entrevista completa você acompanha nessa terça-feira (11).

*Nome fictício utilizado para preservar a identidade da vítima.

A série de reportagens da TV TodoDia, com o tema ‘Abuso sexual infantil’, foi lançada nesta segunda-feira (10). A série conta com três episódios, que serão transmitidos até quarta-feira, durante as três edições do Jornal TodoDia – às 07h, 13h e 18h, além de nossas multiplataformas. Confira na íntegra as frases escritas pelas crianças da comunidade do Zincão:

Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal
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