
Campinas anunciou, nesta terça-feira (27), um conjunto de medidas voltadas ao enfrentamento da violência contra as mulheres. As diretrizes gerais do plano foram apresentadas pelo prefeito Dário Saadi durante reunião com secretários municipais e representantes das forças de segurança.
Segundo o prefeito, Dário Saadi, a proposta parte do princípio de que o combate à violência deve envolver toda a estrutura da administração municipal e não ficar restrito a uma única secretaria. Ele destacou a necessidade de responsabilização dos agressores e da adoção de políticas articuladas entre diferentes áreas do governo.
“É importante colocar os homens como o objeto principal dessas ações. Esse homem que agride mulher não pode ser visto como valente, ele precisa ser tratado como alguém fraco, que só tem argumento de violência”, afirmou. Dário acrescentou que o plano é coordenado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres, mas com participação direta de todas as pastas. “Não é uma questão de uma secretaria só, é uma questão de governo”, completou.
Plano integrado e atuação intersetorial
As iniciativas preveem ações nas áreas de prevenção, acolhimento e atendimento às vítimas, além de propostas ligadas à segurança pública, educação e desenvolvimento social. Segundo a administração municipal, o planejamento reúne programas já existentes e novas ações, estruturadas integradamente.
A secretária de Políticas para as Mulheres, Alessandra Herrmann, afirmou que foi criada uma força-tarefa entre as secretarias para acelerar a execução das medidas. “A gente fez essa força-tarefa para colocar em prática quanto antes todas essas ações”, disse. Ela destacou ainda que os dados indicam impacto das medidas protetivas, embora reconheça limitações. “As medidas protetivas são eficientes, mas a gente sabe que existem pessoas que, mesmo com essas medidas, acabam cometendo o crime”, afirmou.

Mudanças na assistência social
Na área de assistência social, a Prefeitura informou que o prazo para solicitação de auxílio-moradia por mulheres em situação de violência será reduzido de 30 para 15 dias, contados a partir do atendimento no Centro de Referência de Assistência Social (Creas).
O benefício mensal é de R$ 994, com duração inicial de seis meses, podendo ser prorrogado por até 12 meses. Dados municipais apontam aumento no número de atendimentos registrados nos últimos anos.
Educação e capacitação profissional
A Secretaria de Educação anunciou ações voltadas à formação de profissionais das redes municipal e estadual, além de atividades com estudantes do ensino fundamental. As propostas incluem cursos on-line para educadores, concursos de redação e debates sobre prevenção da violência e relações de gênero, que devem integrar o planejamento pedagógico a partir de 2026.
Na área da saúde, está prevista a capacitação de profissionais da atenção primária para a identificação de sinais de violência de gênero. A primeira etapa envolve o mapeamento das demandas por região, seguido da oferta de curso on-line para cerca de 3,2 mil trabalhadores da rede municipal.

Segurança pública e dados oficiais
Na área de segurança pública, o Município informou que será criado um grupo executivo com participação da Guarda Municipal e das polícias Civil e Militar.
Segundo o 18º Boletim Sisnov (Sistema de Notificação de Violência em Campinas), publicado em dezembro de 2025, os registros de violência contra mulheres adultas residentes na cidade aumentaram 12% entre 2023 e 2024, passando de 1.585 para 1.777 notificações. Entre 2019 e 2024, foram contabilizados 6.818 registros, sendo que companheiros ou ex-companheiros responderam por 42,1% dos casos.
O comandante do CPI-2 da Polícia Militar, coronel Takahashi, informou que, na região, foram registrados 20 feminicídios consumados, sendo nove em Campinas. “Na região do CPI-2 tivemos 20 feminicídios consumados e 38 tentados”, afirmou. Ele também citou a atuação da cabine lilás do Copom 190, criada para orientar e atender mulheres em situação de violência doméstica.
O diretor do Deinter-2, Oswaldo Diez, destacou a integração entre os entes públicos. “As secretarias municipais têm papéis fundamentais, e a Polícia Civil está integrada com todo mundo nesse objetivo. É uma atuação conjunta do governo municipal e do governo estadual”, afirmou.
Tecnologia e inteligência artificial
A proposta também prevê a integração de análise de dados, monitoramento de ocorrências e planejamento de ações conjuntas entre a Prefeitura e as forças de segurança. Está previsto um chamamento público para que empresas desenvolvam, em ambiente de testes controlados, uma ferramenta com uso de inteligência artificial voltada à identificação de riscos de violência contra a mulher.
O prefeito informou que o chamamento já está aberto e que uma empresa demonstrou interesse. “O sandbox é um ambiente de teste, não prevê pagamento. A ideia é usar dados anonimizados para identificar padrões e traçar perfis de risco”, explicou. Segundo ele, o objetivo é permitir alertas preventivos a partir da análise dos boletins de ocorrência.
Durante grandes eventos, como o carnaval, a administração municipal também prevê ações de orientação e atendimento, com espaços de acolhimento para mulheres que relatem situações de importunação ou violência, além da distribuição de materiais informativos.





