O trabalho mudou de forma ao longo das décadas, incorporou tecnologia e reduziu parte do esforço físico em várias atividades, mas continua sendo apontado como base para o sustento, a dignidade e a estabilidade. Em Cosmópolis, histórias de trabalhadores com décadas de experiência ajudam a retratar essas transformações e os valores que atravessam gerações.
Os relatos de Otávio Marsólla, de 78 anos, e Yoshinori Teshima, de 83, mostram trajetórias marcadas por adaptação, esforço contínuo e diferentes fases do mercado de trabalho.

Da lavoura ao volante
Taxista em Cosmópolis, Otávio Marsólla conta que começou a trabalhar ainda criança, ajudando os pais no campo. “Comecei praticamente na lavoura da cana, ajudando meus pais, com sete, oito anos. Era arroz, feijão, milho… era tudo na força mesmo”, relembra.
Segundo ele, naquele período, as tarefas eram feitas manualmente e exigiam resistência física. Com o passar dos anos, deixou a lavoura e passou a atuar no transporte, influenciado pela profissão do pai. “Em 1965 comecei com o carro dele. Depois adquiri minha placa e fui trabalhando, fui caminhoneiro, fiz de tudo na vida.”
Mesmo aposentado, Otávio continua trabalhando. “Pra levar o pão e o leite pra casa, tem que trabalhar”, afirma.
Mudanças e dificuldades
Ao comparar diferentes épocas, ele avalia que o trabalho ficou menos braçal com o avanço das máquinas. “Naquela época era tudo serviço bruto. Hoje é tudo com máquina… ficou mais fácil.”
Apesar das mudanças, ele afirma que as dificuldades para manter a renda continuam. “Sempre foi difícil, que nem tá agora. A vida tem que ser bem controlada”, diz. Segundo o taxista, o retorno financeiro exige planejamento e não permite grandes avanços. “É um ganho regular, não é aquele ganho que você consegue fazer grandes coisas.”
Otávio também faz uma avaliação sobre o comportamento das novas gerações diante da tecnologia e do mercado. “Hoje, com a tecnologia, as pessoas não querem pegar no trabalho… tudo é máquina”, afirma. Ainda assim, resume o que considera essencial: “A melhor coisa é se interessar no trabalho e trabalhar.”
Recomeço e crescimento
A trajetória de Yoshinori Teshima revela outro aspecto do trabalho: a reconstrução da vida em um novo país. Hoje aposentado e morador de Cosmópolis, ele chegou do Japão ainda jovem e encontrou na lavoura a primeira oportunidade. “Quando nós veio, não sabia falar português… a única coisa era mexer com a terra.”
Com o tempo, passou por diferentes cidades e atividades até alcançar estabilidade. Depois, deixou o trabalho rural e ingressou na indústria. “Comecei de ajudante, depois soldador, supervisor, fui subindo até ser responsável da obra.”
Segundo Yoshinori, o crescimento profissional foi resultado de dedicação e persistência. “Ganhava pouco, mas tinha muito serviço. O pessoal dava sangue pra trabalhar.”

Legado para a família
Para Yoshinori, o trabalho foi decisivo não apenas para o sustento imediato, mas para a construção da vida da família ao longo dos anos. “É através de mim que minha família tá aí hoje”, afirma.
Ele também observa diferenças no comportamento das gerações mais novas. “Hoje pessoal não quer trabalhar, quer ganhar dinheiro fácil”, diz. Mesmo reconhecendo as mudanças no mercado, reforça que o esforço continua sendo determinante. “Tem que lutar. Ninguém traz nada de graça. Depende do esforço de cada um.”





