quinta-feira, 23 maio 2024

Entre os teares e as serenatas

Todo morador de Americana conhece o Hércules Borelli. O senhorzinho, de 76 anos, falante e divertido, ficou famoso fazendo serenatas pela cidade. Ao lado de um velho amigo que toca o violão de sete cordas, o homem corre os bairros até hoje, e solta o vozeirão.

Mas o que pouca gente sabe é que o seresteiro tem, em um quartinho de casa, uma coleção bárbara de vinis, de artistas clássicos que fizeram história no rádio. Nelson Gonçalves, Emilinha Borba, Isaurinha Garcia, Silvio Caldas, Vicente Celestino… E, claro, aquele que na opinião do Hércules foi o melhor de todos: Francisco Alves, o “Rei da Voz”. Astro da música, que arrebatava corações e reunia multidões quando corria o Brasil para apresentações ao vivo.

COISA DE FÃ

O Hérculea é tão fanático pelo cantor que tem, no vinil, todas as 983 músicas gravadas pelo Chico Alves. É. Todas. Raridade. Tem também fotografias, livros, recortes de jornais. Tudo, enfim, que lembra a vida do ídolo. E tem mais. O Hércules, volta e meia, vai ao Cemitério São João Batista, lá no Rio, só pra visitar o túmulo do ídolo. Já prometeu até que vai até lá, qualquer dia desses, pra limpar a sepultura, que anda meio largadinha, abandonada.

HISTÓRIA

Ah, a história de vida do seresteiro Borelli também é muito bonita, e encanta quem passeia lá pela sua casa, no Jardim Santana. O artista nasceu em Americana mesmo. A família morava na Rua Coroados, na Conserva. Desde menino, ele viu os pais trabalhando na tecelagem montada nos fundos de casa. Era cena comum dos anos 50, quando as fábricas brotavam pelos bairros.

O pai dele, Roque (tecelão, contra-mestre, espulador) comprou oito teares, botou a própria família para trabalhar e assim ganhou a vida. Ah, quando menino, o Hércules também trabalhou também como linotipista. É, tempo em que o povo dava duro e ninguém escolhia trabalho.

NASCE A PAIXÃO

Foi na adolescência, com uns 13 ou 14 anos, que o Hércules descobriu a seresta. O próprio Roque, seu pai, fazia parte de um regional e acompanhava os cantores famosos que vinham à cidade. Então, o garoto ouviu, se apaixonou e abraçou a cantoria. E fez muito sucesso. Teve Dia das Mães, por exemplo, em que o Hércules cantou de manhã até a noite, para atender pedidos feitos por amigos.

E, lógico, ele também ajudou muito marmanjo a arrumar namorada, cantando as declarações de amor nos portões e janelas. Bom, o Hércules fala que se entusiasmou com a serenata e não deu muita bola para os estudos. Deixou a escola no meio do ginásio. E a música, confessa, não rendeu muito dinheiro. Mas ele fala que não tem dinheiro que pague o prazer de cantar. Quanto não tem convite pra fazer serenata, o homem ouve os discos ao lado da patroa Dirce. Alías, ela foi conquistada com serenata, lá no passado. E ainda pede que o senhorzinho cante pra ela.

UM MUSEU?

E quais são os planos para aquele acervo incrível de discos? “Ah, sonho em montar um museu, receber as pessoas, falar de música. Quem sabe? De repente, um dia aparece alguém interessado no projeto”, diz.

CONHEÇA

Quem tem interesse em bater um papo animado com o Hércules Borelli pode entrar em contato pelo telefone (19) 3462-8168. Seja pra contratar serenata, conhecer a coleção de vinis, ou só passar horas batendo um papo divertido.

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