terça-feira, 17 março 2026
QUEM É O CULPADO?

Especialistas explicam a alta dos combustíveis que afeta cidades da região

Especialistas comentam as principais causas para cenário atual
Por
Nicoly Maia
Dados do sindicato apontam que o diesel está custando R$ 2,40 mais caro para importar do que o valor praticado pela Petrobras nas refinarias. Foto: Reprodução/ José Cruz/Agência Brasil

As distribuidoras de combustíveis registraram aumento de cerca de R$ 2,00 no preço do diesel e mais de R$ 0,30 na gasolina no estado de São Paulo, segundo o Recap (Sindicato dos Postos de Combustíveis de Campinas e Região). O reajuste impacta diretamente a Região Metropolitana de Campinas, onde o repasse ao consumidor já começa a ser sentido.

Segundo o sindicato, a alta é reflexo direto da tensão no Oriente Médio. O novo Líder Supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, afirmou que manterá o Estreito de Ormuz fechado, região por onde passa cerca de 25% do petróleo mundial. O bloqueio provocou uma alta de 40% no preço do barril em 15 dias.

“Subiu muito o preço do petróleo no mercado internacional e, apesar de a Petrobras negar, ele [petróleo] é uma commodity com cotação global. Quando o preço cai no mundo, cai no Brasil; quando sobe, sobe aqui também. Como o Brasil importa cerca de 30% do diesel e mais de 10% da gasolina que consome, o preço internacional acaba sendo repassado automaticamente”, comenta o vice-presidente do Recap, Eduardo Valdívia.

Dados do sindicato apontam que o diesel está custando R$ 2,40 mais caro para importar do que o valor praticado pela Petrobras nas refinarias.

O conflito e sua influência no preço do petróleo
A guerra no Irã se estende por mais de duas semanas e tem como centro uma luta militar iniciada por Estados Unidos e Israel contra a República Islâmica. O conflito atingiu o topo do poder iraniano logo no primeiro dia, quando um bombardeio resultou na morte do então Líder Supremo, Ali Khamenei. Agora, sob o comando de Mojtaba Khamenei, o país responde aos ataques com o bloqueio do Estreito de Ormuz, uma região vital por onde passam cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás.

Este bloqueio marítimo é o principal motivo para a disparada nos preços dos combustíveis, já que o gargalo na região reduz a oferta global de energia. Em apenas 15 dias, a cotação do barril de petróleo saltou de US$ 70 para perto de US$ 100, uma alta de aproximadamente 40%. 

Impacto direto na região de Campinas
O cenário nacional tem reflexo imediato na região de Campinas. Embora o Brasil seja autossuficiente na extração de petróleo, o país exporta o produto bruto e importa (compra de outros países) derivados, como gasolina e diesel, devido à defasagem no parque de refino.

O engenheiro e ex-diretor-geral da ANP (Agência Nacional do Petróleo), Décio Oddone, analisou o cenário e destacou a pressão internacional sobre os preços. “O preço do combustível depende de três fatores principais. O preço da comodidade em si, do produto, que é dado no mercado internacional, porque o Brasil é um país exportador de petróleo e importador de alguns derivados. As margens de distribuição e revenda, que são as margens das distribuidoras e dos postos de gasolina. E os impostos.”

Medidas e limites do governo
Décio avalia que a principal forma de atuação do governo em crises globais é o ajuste de impostos. A análise ocorre após o governo federal zerar as alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel na última quinta-feira (12).

A medida tenta segurar o reajuste anunciado pela Petrobras sobre o aumento de R$ 0,38 por litro nas refinarias. Segundo o Ministério da Fazenda, sem a isenção dos tributos federais, o impacto para o consumidor seria o dobro do registrado.

Para o engenheiro, subsídios amplos não são a melhor solução, mas ajudam. “É uma decisão legítima do governo federal subsidiar ou reduzir impostos. Mas o subsídio direto, como foi feito em 2018 na greve dos caminhoneiros e agora, afeta todo mundo, ricos e pobres. Sou mais favorável a um subsídio direcionado às populações mais pobres.”

Privatização e formação de preços
A privatização da BR Distribuidora, concluída em 2019, também entra no debate. Para o sindicato, a mudança não interfere diretamente no preço final ao consumidor, já que os postos têm autonomia. “Eu sempre decidi o preço que eu vou pôr na bomba. Eu posso comprar por R$ 5,00 e vender a R$ 5,10 como posso comprar por R$ 5,00 e vender a R$ 8,00. O posto é meu, sou eu que administro. A BR Distribuidora nunca teve um único posto e nunca interferiu, como a Shell não interfere, como a Ipiranga não interfere.”, comenta o sindicato 

Já o especialista defende que a privatização aumenta a concorrência. “Para você conter as margens dos postos de gasolina e das distribuidoras, a única maneira que existe é competição. Então, a concentração é ruim para a competição. Sou favorável a um aumento da competitividade, com mais empresas operando no mercado.” reforça Décio 

Alerta contra pânico e lembrança de 2018
O cenário reacende o temor de desabastecimento, como ocorreu na greve dos caminhoneiros em 2018. O sindicato faz um alerta para evitar corrida aos postos. “É para não criar pânico na população.” O vice-presidente reforça que há oferta de etanol no mercado. “Gente, etanol tem, e tem muito. Estamos no início da safra, então não vai faltar combustível para carro flex. Com a alta da gasolina, a tendência é que o consumidor migre para o etanol.”

O que dia a Petrobras
A Petrobras informou que, apesar da volatilidade no mercado internacional, não há falta de combustíveis no Brasil. Segundo a estatal, o fornecimento segue acima do volume pactuado com as distribuidoras.

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