Médicos defendem adoção de medidas ainda mais restritivas de circulação de pessoas na região para evitar a transmissão do novo coronavírus. Entre as propostas estão reforço do policiamento para evitar aglomerações em praças, fechamento de faixas de pistas de vias, restringir a circulação de veículos nas cidades e até mesmo aplicar multas para quem descumprir a quarentena.
Médicos consultados pelo TODODIA apoiam a adoção de tecnologia para avaliar o isolamento social, como a ferramenta adotada pelo governo estadual, mas apontam que é hora de apertar o cerco a quem não obedece a quarentena.
Esse aperto no confinamento seria em virtude do aumento exponencial do número de casos e o aumento da ocupação dos leitos, em especial de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) no Estado e na Região. Autoridades estaduais alertam sobre risco de colapso.
O SIMI-SP (Sistema de Monitoramento Inteligente) do Governo de São Paulo apontou que caiu de 50%, na quarta-feira (15), para 49%, na quinta-feira (16), o índice de adesão ao isolamento no Estado. Nenhuma das dez cidades da RMC (Região Metropolitana de Campinas) está no ranking das 20 cidades com maior adesão à quarentena (Confira quadro abaixo). O ideal é adesão de 70%.
A professora doutora Raquel Silveira Bello Stucchi, infectologista da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), aponta a gravidade da situação. Ela defende a ampliação das medidas de isolamento na Grande São Paulo e nos municípios do Estado com grande número de doentes e com número crescente de infecções diagnosticadas com evidências clínicas. “Os nossos hospitais e as nossas UTIS já estão ficando lotadas no Estado de São Paulo”, relatou a médica.
“O momento é de permanecer em casa. O monitoramento através de uso das novas tecnologias eu sou plenamente favorável e eu até diria mais: na minha opinião, nós deveríamos ter uma restrição mais rígida em relação à movimentação das pessoas”, defendeu Raquel. A médica sugeriu que agentes de segurança impeçam estacionamento em volta dos parques, redução do número de pistas nas principais vias da capital paulista, por exemplo, e nos acessos de rodovias como Anhanguera e Bandeirantes e só autorizar a entrada de caminhões e veículos essenciais.
“Neste momento nós temos que ter muita atenção e muito cuidado. Eu sou plenamente favorável ao uso dessas tecnologias, uma vez que parece que a população não está entendendo que se ela sair na rua quem vai ficar fora do hospital é ela mesma. É momento de cuidado maior e insistência em relação ao isolamento”, reforçou a infectologista.
Professor defende aplicação de multa
O professor de Microbiologia e Imunologia Thiago Miranda da Silva, biólogo da Faculdade de Ciências Biológicas da PUC-Campinas, explicou que os dados de geolocalização, que verificam o padrão de deslocamento dos portadores de celulares, podem ser ampliados para aumentar a fiscalização sobre o cumprimento da quarentena.
Podem, por exemplo, ajudar a apontar pontos de aglomeração de pessoas, quem desrespeita a quarentena, disparar mensagens pelos celulares sobre pontos de aglomeração e avisar que há pessoas doentes na vizinhança.
Miranda apontou que esta taxa de isolamento registrada na região de 45% a 55% não contribui para reduzir o número de infectados. O professor já esperava esta adesão menor no Brasil porque os brasileiros são calorosos e gostam de cumprimentar com abraços e apertos de mão, explicou.
“Se a gente mantiver esse nível de isolamento abaixo do ideal de 70%, a gente vai ter uma população muito grande circulando e a distribuição do vírus vai aumentar significativamente. Já tem vários estudos que mostram que porcentagens abaixo de 60% e 55% fazem com que as curvas tornem-se logarítimas, ou seja, se tornem crescentes, muito altas, e você vai ter um número alto de pessoas muito doentes e alto número de pessoas com sintomas graves”, ressaltou o professor.
“A recomendação dos estudos é que tenha no mínimo 70% de reclusão das pessoas para que o vírus diminua sua circulação ao ponto que diminua o número de pessoas infectadas. Esse número é insuficiente par diminuir o ritmo de transmissão do vírus”, ressaltou o professor universitário.
Miranda não apoia medidas repressivas pela polícia, como foi cogitado, mas que ajude na conscientização. “Que o governo não só mantenha essas políticas como aumente ainda mais a cobrança da população através da aplicação de multa. Senão, só vai aprender pela dor. As pessoas só vão começar a se conscientizar quando alguém da família morrer, quando algum parente próximo morrer, e eu tenho certeza que a gente não quer que isso aconteça”, ressaltou Miranda.
SAIBA MAIS
O SIMI-SP (Sistema de Monitoramento Inteligente) do Governo de São Paulo mostra que o percentual de isolamento social no Estado foi de 49% nesta quinta-feira (16). O coordenador do Centro de Contingência do coronavírus em São Paulo, o médico infectologista David Uip, voltou a afirmar que adesão ideal para controlar a disseminação da Covid-19 é de 70%.
A central de inteligência analisa os dados de telefonia móvel para indicar tendências de deslocamento e apontar a eficácia das medidas de isolamento social.




