Moradores dos bairros Parque São Matheus e Parque das Águas, em Piracicaba, afirmam que a prefeitura implantou o projeto Superação sem diálogo prévio com a comunidade do entorno. Entre outras ações, a iniciativa transferiu pessoas em situação de rua para uma chácara, conhecida como Mansão Rubi, às margens da Rodovia Geraldo de Barros (SP-304), no acesso a São Pedro.
À TV TODODIA, moradores disseram apoiar o objetivo do programa, mas criticaram a forma como a ação foi implementada pela gestão do prefeito Helinho Zanatta (PSD). Eles relatam episódios de perturbação do sossego e situações que classificam como preocupantes nas imediações do imóvel.
Relatos da vizinhança
A moradora Cláudia Coneglian criticou a falta de interlocução com o poder público. “Somos favoráveis ao acolhimento. É um direito constitucional dessas pessoas. Mas o projeto foi implantado sem que os moradores fossem ouvidos. Agora estamos convivendo diretamente com essa realidade”, relatou.
Segundo ela, há situações que geram apreensão. “Temos visto pessoas circulando pelo bairro, consumo de bebida alcoólica, uso de drogas e episódios de brigas. Não sabemos qual é o acompanhamento oferecido nem quais são os limites estabelecidos”, completou.

Pânico
Outra moradora, Michele Martim, contou que registrou boletim de ocorrência após um episódio na região. “Meu filho, de 14 anos, foi abordado por três pessoas nas proximidades da chácara. Ele e um amigo aceleraram o passo e disseram que foram seguidos. Ele chegou em casa em pânico”, afirmou.
Ela questiona a organização do projeto. “Fala-se em projeto estruturado, mas não sabemos como funciona o controle de entrada e saída, qual é a regulamentação e como é feita a supervisão”, argumentou.
José Carlos Neves também defendeu maior diálogo com a comunidade. “Retirar pessoas da rua é importante e pode representar uma oportunidade para muitos. Mas o poder público deveria ter vindo ao bairro conversar com os moradores antes de iniciar o projeto”, disse o morador, um dos primeiros a chegar à região.
Ele afirma que parte dos acolhidos tem trabalhado, mas que nem todos demonstram interesse nas atividades propostas. “Há pessoas que estão aproveitando a oportunidade, mas outras não querem aderir”, reforçou.

Discussão
O tema foi debatido em audiência pública realizada na terça-feira (24) na Câmara Municipal de Piracicaba.
O secretário de Assistência, Desenvolvimento Social e Família, Edvaldo Brito, rebateu as críticas. “Muitos episódios estão sendo atribuídos à chácara sem comprovação. Nem tudo o que acontece na região envolve pessoas acolhidas no projeto”, afirmou.
Segundo ele, há apenas um boletim de ocorrência formal relacionado diretamente a um acolhido. “Consultamos a Polícia Civil e há registro de apenas um caso, envolvendo um surto. A pessoa foi encaminhada para tratamento”, argumentou.
O secretário também apresentou números do programa, incluindo as adicionais ao acolhimento na Mansão Rubi. “Já realizamos 845 atendimentos, incluindo consultas médicas e outros serviços. Tivemos 108 internações voluntárias em clínicas da região e, ao todo, 340 pessoas passaram pelo projeto de forma voluntária”, finalizou.

Investimentos
Durante a audiência, o procurador-geral de Piracicaba, Marcelo Maroun, explicou que o contrato foi firmado em caráter emergencial, com dispensa de licitação, no valor de R$ 1.125.480.
Segurança no entorno
Questionado sobre a sensação de insegurança, o comandante da GCM (Guarda Civil Municipal), Marcos Alexandre Pavanello Rodrigues, afirmou que não é possível manter viatura fixa no bairro, pois ” comprometeria o atendimento em outras regiões da cidade”, destacou.
Representantes da prefeitura informaram que o projeto poderá ser estendido, desde que haja licitação para regulamentar o modelo de acolhimento e a infraestrutura do serviço.





