Nove meses antes de ser executado, Marco Barion, o Russo, foi abordado no estacionamento do Paço Municipal por pessoa armada, que avisou para “não mexer em contrato”: viúva confirma em entrevista exclusiva
Cerca de nove meses antes de ser brutalmente assassinado no último dia 6 de dezembro com 13 tiros em seu carro ao sair de casa para o trabalho, o então secretário de Governo da Prefeitura de Nova Odessa, Marco Antonio Barion, o Russo, 52 anos, foi ameaçado com uma arma encostada ao corpo, em pleno estacionamento da prefeitura.
O episódio, ao qual o TODODIA apurou e que, segundo fontes da reportagem, é de conhecimento geral entre servidores do primeiro escalão na prefeitura, foi confirmado nesta terça-feira (29) pela viúva de Russo, em entrevista exclusiva.
Talita Monção, de 29 anos, disse que, em meados de março, seu marido relatou ter sido ameaçado por uma pessoa armada no estacionamento do Paço Municipal.
A pessoa, relatou a viúva, chegou a encostar o revólver na barriga de Russo e dizer no ouvido do então secretário que não “mexesse” em contrato (supostamente da administração).
Apesar da ameaça, Talita diz não acreditar que a execução do marido tenha relação com esse fato específico, mas crê em crime político.
Talita aceitou falar com a reportagem pelo WhatsApp, respondeu por meio de áudios gravados, pediu Justiça, destacou que confia no trabalho da Polícia Civil e lembrou da relação com o marido, dos hobbies, sonhos e planos futuros, brutalmente interrompidos. Leia a seguir os principais trechos da conversa:
TODODIA: Como você tem reagido à execução do Russo? Você já tem algumas respostas?
Talita: Primeiro gostaria de cumprimentar todos os leitores do jornal TODODIA, deixar meu agradecimento pelo carinho, atenção, do jornal, e também colocar o meu empenho pessoal, sou uma leitora assídua do TODODIA, não tem um dia que eu passe sem ler o jornal, extremamente importante para a nossa região. É uma pergunta difícil, né, complexa. Me sinto péssima, até agora não tive tempo de assimilar 100%, a burocracia exige muito da gente. No meu caso, exigiu algumas vezes mais, primeiro por que eu não tinha registro civil do meu estado de casamento, nós simplesmente nos apaixonamos, juntamos as nossas coisas e fomos viver nosso amor. O Russo fez o reconhecimento de paternidade socioafetiva do Heitor (filho do casal, de 5 anos), portanto ele era pai do Heitor, porém, os meus documentos estavam na cena do crime e não foram recuperados e eu estava sem documento durante todo o processo, então o que já é um processo difícil naturalmente, acabou ficando mais. Então, sinceramente, eu não parei. Entreguei o apartamento, fui cuidar de lavrar o óbito 11 dias depois por conta desses problemas burocráticos, tendo que lidar com meu filho, com a família e com não ter para onde ir. Nós já estávamos em processo de mudança, estávamos alugando uma chácara e com tudo que ocorreu eu não ia morar em uma chácara no meio do nada. Voltar para a casa do pai nos primeiros dias é gostoso, mas depois é estranho.
O que a Polícia Civil tem falado nesses dias? Alguma novidade nas investigações? Eles têm apontado para quais caminhos?
Eu tenho pouquíssimo acesso à investigação. Eu acredito na investigação, eu quero dar um tempo justo para que essa investigação chegue em algum lugar. Eu já me manifestei nas minhas redes sociais, eu não vou me calar, se eu perceber que de alguma forma a Polícia Civil não está conseguindo, se precisar fazer passeata eu vou fazer, se precisar fazer greve de fome eu vou fazer, eu preciso da resposta (…).
Você acredita em crime político? O que você já sabe?
Boa pergunta, Paulo. Inclusive uma pergunta responde a outra. Sim, eu acredito em crime político e justamente por ser um crime político, não sei de absolutamente nada.
O Russo fez alguma inimizade ou incomodava alguém enquanto agente político?
Qualquer secretário de Governo que seja de mediano para mais, ele sempre vai incomodar alguém, porque dentro de um governo você sempre vai ter a situação e a oposição, e o secretário de Governo está ali para trabalhar para a situação (…). O Russo trabalhava dentro do campo democrático, era uma pessoa muito do diálogo, independente de ideologia, objetivos discrepantes, discordâncias. O Russo sempre foi a primeira pessoa a chamar qualquer pessoa que fosse até o gabinete. Se ele percebesse que ele conseguiria resolver ali no gabinete do secretário, ele resolvia ali, se não, ele abria a portinha e ia para o gabinete do prefeito. Esse governo é um governo do diálogo e até isso choca muito, o assassinato, a execução, a brutalidade, a pergunta que fica é: por quê? O cara que mais conversava com todo mundo, o cara que mais dialogava, o cara que mantinha tudo funcionando, o cara que entendia uma coisa que ele discordava, mas ele entendia (…) um cara que fazia política com P maiúsculo e não politicagem, e ser executado? Isso é o que eu não entendo.
Há comentários de que o Russo havia sido ameaçado no estacionamento da Prefeitura de Nova Odessa por um suposto fornecedor da administração, que estava armado. Esse relato procede? O Russo disse algo a esse respeito? Foi ameaçado de morte por alguém?
Assim que o governo Leitinho assumiu a Administração (janeiro de 2021) e o Russo como secretário de Governo, a primeira coisa que ele fez foi a análise dos contratos (…) O Russo, o apelido dele era “Russo”, não era por qualquer coisa. O Russo falou ‘se a galera (empresas prestadoras de serviço mediante licitação) quiser continuar, vou baixar 30% (dos valores pagos) dos contratos de todo mundo, sem exceção. Aí começaram as reuniões, contrato atrás de contrato, (Russo dizia) “ou você aceita os 30% ou você sai, a gente abre nova licitação, você pode concorrer de novo e aí vence o melhor preço”. Esse era o Russo. E, sim, aconteceu essa ameaça (em meados de março) (…) não sei se foi um fornecedor. A pessoa chegou por trás do Russo, armado, colocou a arma na barriga dele e ele estava com o celular na mão, e a pessoa jogou o celular pra longe, e deu um recado no ouvido dele: “pare de mexer nos contratos”. O Russo ficou confuso (…), ele mesmo não sabia por parte de quem ele estava sendo ameaçado naquele momento, início de mandato. Sim, ele sofreu uma ameaça por conta dessas baixas em contratos. Todo esse dinheiro economizado com contratos, o Russo ajudou pensando junto com o prefeito e a Secretaria de Administração, e eles criaram o cartão NOS (Nova Odessa Solidária). Foi a primeira cidade de São Paulo a criar uma espécie de auxílio emergencial municipal, salvo engano era o valor de R$ 250 por três meses podendo se estender a seis meses (…) e a distribuição de cestas básicas. Eu pessoalmente não acredito que a morte do Russo tenha a ver com esse momento (da ameaça) até porque se fosse, eles já teriam matado ele lá no início.
O Heitor ainda pergunta como o pai morreu? E como você administra isso?
O Heitor está frequentando terapeuta, é o que posso responder.
Quais eram os hobbies de vocês enquanto casal e quais eram os sonhos?
Nossos hobbies enquanto casal: comer, eu gostava de cozinhar pra ele, mas também adorava pedir comida no Ifood, assistir programa de crime, investigação, nós ficamos desde que a Discovery anunciou que ia lançar séries de investigação criminal, a gente adorava isso. Outra coisa, adorávamos os Simpsons, política, livros, a nossa relação com o Heitor, a relação estendida de família pra gente também é muito importante, uma concepção de família bem única e nós gostávamos de nos adaptar a isso. A gente gostava de estar bem um com o outro e sempre que possível trolando o Heitor, como se diz.
Você comentou o episódio da tatuagem do Russo. Explica como foi.
O Russo tinha uma tatuagem, uma estrela com o número 13 tatuado. Ele já tinha essa tatuagem e ele foi a um evento do MST (Movimento Sem Terra), aquele futebol que vai o Chico Buarque, vai o Lula, jogar futebol, e o Russo encontrou o Lula lá e o Lula assinou embaixo da tatuagem, na caneta. O Russo ficou sem tomar banho, pra no dia seguinte, tatuar em cima da caneta o autógrafo (do Lula). Então era a estrela, o 13 e no finalzinho da estrela tinha Lula, com a letra do Lula.
COMO FOI A EXECUÇÃO
Marco Antonio Barion, o Russo, de 52 anos, foi executado por volta de 7h40 do último dia 6 de dezembro, com 13 tiros, na esquina de um condomínio de apartamentos no Jardim Marajoara, em Nova Odessa, quando saía para o trabalho. Imagens de uma câmera nas imediações flagraram quando um Fiat Uno, branco, estacionado sob uma árvore na Rua Rute Klavin, fecha a rua no momento da passagem do carro em que Russo estava. Uma pessoa, não identificada, desce do Uno, já atirando na direção do secretário, que foi ex-presidente do PT de Americana. Após disparar várias vezes, a pessoa voltou ao banco do passageiro do Uno, que saiu em disparada. Até esta quarta-feira (29), ninguém havia sido preso pelo crime. As investigações estão a cargo de uma equipe do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) da Polícia Civil, que não comenta o caso.





