PUBLICIDADE

PUBLICIDADE

O corpo não fala… mas tudo grita

Após morar 42 anos em um hospital, por conta da paralisia infantil, Eliana Zagui tem a chance de 'recomeçar'; aos 44, ela vivencia o sonho de morar em uma casa

Às vezes é preciso contar a mesma história de mais de um jeito para refletir sobre os acontecimentos. A existência de Eliana Zagui é movida por um amor poderoso. Amor à vida, ao que faz, à amizade.

PUBLICIDADE

Há pouco mais de um mês, ela ganhou um lar depois de morar 42 anos, dos 44 de idade, em um quarto no Hospital das Clínicas, em São Paulo.

O novo endereço fica em Sumaré. Em uma visita, ao nivelar olhares, é possível compreender parte dessa trajetória.

PUBLICIDADE

Da cama de onde está, com movimentos limitados, Eliana pergunta: “O que diferencia você de mim?”.

Ela mesma responde: “Nada!”. Exceto pela luminosidade dos próprios olhos esverdeados.

PUBLICIDADE

Olhos atentos, carinhosos, sorridentes e que demonstram felicidade.

A condição física é decorrente de uma paralisia causada pela poliomielite, que dificulta, mas não a impede de realizar atividades corriqueiras como qualquer outra pessoa.

Eliana nasceu em Guariba, cidadezinha do Interior do Estado.

Quando tinha 1 ano e 9 meses, foi diagnosticada com paralisia infantil.

Àquela época, a vacina contra a doença já existia, mas os pais dela ouviram restrições como “criança com febre e garganta inflamada não pode tomar a dose’.

Por falta de informação e sem a medicação, o quadro infeccioso se agravou.

Ainda criança, foi encaminhada para o HC de São Paulo.

Lá, permaneceu até 22 de dezembro do ano passado. Eliana conta que perdeu a noção de quantas vezes foi desacreditada pelos especialistas. “De hoje ela não passa. O fim está próximo”, lembra.

No entanto, ela foi sobrevivendo um dia de cada vez.

Aprendeu a ler e se aperfeiçoou para desenvolver movimentos com a boca, como escrever, pintar e digitar. “Uma luta”, confessa.

MOTIVANDO SEMPRE

Ao participar de um projeto online de uma igreja evangélica, Eliana incentivava jovens com palavras de encorajamento e aconselhava pessoas com depressão.

“O que ninguém sabia era que do outro lado da tela do computador estava uma pessoa que digitava com a boca porque não conseguia se mexer”, brinca.

Foi assim que, em 2002, conheceu Lucas Negrini e as histórias se entrelaçaram.

Eliana e Lucas trocaram inúmeras mensagens. “Quando ele foi ao meu encontro no HC, levou um susto”, conta.

Ela descreve o amigo como batalhador. “Mesmo em dias de desânimo, ele é um guerreiro. Ele é um amigão”, diz.

Para Lucas, a presença de Eliana faz com que ele enxergue outras possibilidades.

“Eliana foi a minha maior incentivadora. Ela anda, ela corre, ela dança, ela passa rasteira, ela voa. O corpo dela não fala, mas todo o resto grita”, retrata.

LAR, DOCE LAR

Casa, comida, roupa lavada, amigos, dois cachorros e dois gatos. Eliana agora mora na casa de Lucas.

Sobre a motivação para recebê-la na própria casa, o amigo define como amor.

“Foi o amor, o companheirismo, a cumplicidade que me encorajaram para essa decisão”, afirma.

A atitude repercutiu tanto que muitas pessoas escrevem comentando sobre a iniciativa. “É estranho ver as pessoas admirando bondade, mas espero que causemos impactos positivos”, comenta Lucas.

Para alcançar o objetivo, a adaptação foi gradativa e pensada detalhadamente. Faz cinco anos que Eliana frequenta a casa do amigo.

A cada três meses, ela saía do HC e o visitava. Passava 20 dias e voltava ao hospital.

Da última vez, decidiram que a permanência se estenderia por prazo indeterminado.

“Tive medo de ficar. Medo de acordar e me deparar com a ambulância na porta de casa. Mas hoje sou a pessoa mais feliz do mundo!”, declara Eliana.

Segundo Lucas, as constantes visitas os prepararam para a mudança.

“Adaptamos a casa, nosso emocional e também o psicológico”, diz. No entanto, a manutenção das despesas preocupam.

Eliana usa aparelho para ajudar na respiração e uma cama elétrica, cedidos pelo HC. O maquinário precisa de manutenção.

Ela também é assistida por enfermeiros diariamente e necessita de acompanhamento de um fisioterapeuta com regularidade.

Para custear os gastos mensalmente, os amigos precisam de, aproximadamente, R$ 9,5 a R$12 mil.

CUIDADOS

A estada da Eliana é seguida por regulamentos que asseguram o bem estar dela.

Também há ações preventivas, como protocolos de emergência para casos de chuva e falta de energia elétrica.

Para Eliana, a experiência de sair do hospital ainda é novidade. “Estou me construindo. É tudo muito diferente do que já vivi. O novo é desafiador”, revela.

Acordar tarde é a melhor parte, segundo Eliana.

No hospital, a rotina começava às 7h. “Aqui, durmo e acordo na hora que quero, leio, estudo, pinto. Estou elaborando textos para dar palestras”, comenta.

SUPERAÇÃO ATRAVÉS DA ARTE

Para enfrentar os dias de ansiedade, Eliana Zagui escreve e pinta. Autora do livro “Pulmão de Aço – uma vida no maior hospital do Brasil”, ela também registra em diários visões de mundo.

Neste último, o conteúdo é censurado para outras pessoas.

Ainda assim, dá para ver a letra cursiva, caprichada, obedecendo às margens do caderno. É preciso destacar esses destalhes porque, para não depender de ninguém, ela escreve com a boca.

Para digitar, usa uma técnica desenvolvida por ela mesma. O aparelho celular fica na vertical, segurado por um suporte de papelão decorado com tecido floral.

A canetinha do celular, usada para acessar as teclas, foi adaptada a uma espátula. E é assim que ela interage com o mundo.

Eliana faz parte da Associação de Pintores com a Boca e os Pés, com sede na Suíça. A instituição negocia as telas e aplica a imagem dos quadros em cartões.

A cada semestre, a pintora envia de seis a oito quadros. Caso haja venda, o dinheiro é revertido para custear o tratamento.

Eliana já participou de mostras e teve o trabalho exposto em vernissages.

  • Facebook
  • Twitter
  • LinkedIn
  • Pinterest

VIVÊNCIAS

Ela relembra uma experiência inesquecível: quando viu o mar pela primeira vez, em 1988. Acompanhada do Paulo, companheiro de quarto que ainda mora no HC, voluntários os levaram.

“A sensação do pé na areia, o gosto da água salgada, são lembranças que levarei para sempre”, declara.

No hospital, além de Paulo e Eliana, havia outras sete crianças com a mesma condição por conta da polio.

Todos morreram, diz Eliana. Agora, ela se prepara para dar palestras Brasil afora.

Quer divulgar seu livro autobiográfico, as pinturas e alertar sobre os cuidados com a poliomielite.

“Espero que tudo dê certo. Que empresários me convidem para palestrar e que minha história seja exemplo para muita gente”. Para colaborar, basta acessar: vaquinhaonline/elianazagui.

 

 

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE

Pin It on Pinterest

Share This