segunda-feira, 8 junho 2026
DEBATE NACIONAL

Fim da escala 6×1 divide trabalhadores e empresários em Piracicaba

PEC que reduz jornada de 44 para 40 horas semanais e garante dois dias de descanso avança no Congresso e acende debate sobre qualidade de vida, custos e empregos
Por
Gabriela Lima
Mudança trará impactos para empresários e funcionários. Foto: Klorival Dorta

A aprovação, pela Câmara dos Deputados, da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6×1 reacendeu o debate sobre a jornada de trabalho no Brasil. O texto, aprovado em 28 de maio, reduz gradualmente a carga semanal de 44 para 40 horas sem redução salarial e garante dois dias de descanso por semana. A proposta agora será analisada pelo Senado Federal.

Em Piracicaba, a TV TODODIA ouviu diferentes opiniões sobre a mudança. Enquanto trabalhadores veem a medida como oportunidade de melhorar a qualidade de vida e a saúde mental, representantes do comércio demonstram preocupação com os possíveis impactos econômicos, especialmente para micro e pequenas empresas.

Senado começa a discutir proposta nesta terça
Após aprovação na Câmara, a PEC segue em tramitação no Senado. A expectativa é que o tema comece a ser debatido nesta terça-feira (9), em reunião entre líderes partidários e o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).

Embora o governo federal trate o assunto como prioritário, Alcolumbre já indicou que a proposta não irá diretamente ao plenário. Antes, deverá passar pelas comissões do Senado e poderá receber ajustes ao longo da tramitação.

O texto aprovado prevê uma transição de 14 meses para a redução da jornada. A primeira fase começaria 60 dias após a promulgação, com diminuição de duas horas na carga semanal. Doze meses depois, a jornada passaria a 40 horas. A PEC também garante dois dias de descanso semanal, preferencialmente aos domingos.

Comércio teme aumento de custos e repasse ao consumidor
Para o presidente da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de Piracicaba, Reinaldo José Pousa, a mudança deve pesar mais para pequenos negócios, que têm menor margem para reorganizar equipes e absorver custos.

Segundo ele, muitos empreendedores ainda tentam recuperar o fôlego em um cenário econômico delicado e podem ser obrigados a contratar novos funcionários para cumprir a jornada reduzida. “A pequena empresa será atingida. Estamos falando muitas vezes de negócios que possuem apenas um funcionário. Se houver necessidade de contratação de mais pessoas, haverá aumento dos custos operacionais”, afirmou.

Pousa acredita que parte desse impacto tende a ser repassado ao consumidor. “Quem acaba pagando a conta é o consumidor. Todo aumento de custo, de alguma forma, acaba sendo incorporado ao preço dos produtos e serviços”, disse. Ele destaca que setores como a construção civil também podem ser afetados, já que trabalham com contratos de longo prazo e custos previamente fechados.

Apesar das críticas, o dirigente afirma que o objetivo do setor não é barrar a proposta, mas discutir ajustes. “Nós não estamos mais discutindo a não aprovação. Estamos buscando emendas que minimizem os efeitos da medida. Defendemos mais flexibilidade para que empregadores e trabalhadores possam negociar a melhor forma de adequação”, explicou. Uma das sugestões é que os dois dias de descanso não sejam obrigatoriamente consecutivos e que haja mais espaço para acordos coletivos.

Trabalhadores apontam ganho em descanso e saúde
Entre os trabalhadores, a avaliação é diferente. Ozzy Gabryel, que atua em telemarketing e trabalha hoje na escala 6×1, afirma que a rotina com apenas uma folga semanal causa desgaste físico e emocional. Ele diz que o único dia livre muitas vezes é consumido por tarefas domésticas e compromissos pessoais.

“Além do trabalho formal, a gente tem que cuidar da casa, resolver questões pessoais e cumprir outras responsabilidades. Muitas vezes o dia de folga acaba sendo mais um dia de trabalho”, relatou. Para ele, a atual jornada dificulta a recuperação do corpo e da mente. “Existe uma exaustão mental e física. Em apenas um dia não dá para organizar tudo e descansar adequadamente. Quando a gente percebe, já precisa voltar para o trabalho novamente”, afirmou.

Ozzy ressalta que o texto prevê um período de adaptação para as empresas, com redução gradual, e vê a PEC como resultado da mobilização de quem vive a rotina da escala 6×1. “Esse movimento surgiu da realidade de quem vive essa rotina e percebeu o quanto ela afeta a qualidade de vida. Para nós, é uma vitória. Ter mais tempo para descanso significa mais qualidade de vida, mais convivência com a família e mais bem-estar”, destacou.

Debate deve se intensificar no Senado
A discussão sobre o fim da escala 6×1 deve ganhar força nas próximas semanas, com o início dos debates no Senado. A proposta ainda terá de passar pelas comissões da Casa antes de uma eventual votação em plenário.

De um lado, trabalhadores defendem mais tempo de descanso e melhoria da qualidade de vida. Do outro, representantes empresariais alertam para possíveis impactos nos custos, nos preços e na geração de empregos. O desfecho das discussões em Brasília terá reflexos diretos na rotina de milhões de trabalhadores e empresas em todo o país, incluindo Piracicaba.

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