domingo, 11 janeiro 2026
ACESSO A DIREITOS

RMC registra mais de 3 mil emissões da Carteira de Identificação da Pessoa com TEA em 2025 

Campinas lidera número de carteiras emitidas no último ano; iniciativa busca facilitar identificação e atendimento adequado
Por
Nicoly Maia

A RMC (Região Metropolitana de Campinas) registrou 3.162 emissões da CipTEA (Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista) ao longo de 2025. A iniciativa visa ampliar o suporte e os serviços oferecidos às pessoas com TEA (Transtorno do Espectro Autista). Os dados são da Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência.

Em 2025, Campinas foi o município com maior número de emissões, com 1.404 carteiras, seguido por Piracicaba, com 452, e Sumaré, com 358. Santa Bárbara d’Oeste foi o único município da área de cobertura da TV TODODIA que não registrou emissões no último ano. Na região, desde o início do programa, já foram emitidas mais de 9 mil carteiras.

A iniciativa tem como objetivo ampliar o suporte e os serviços oferecidos às pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Foto: Reprodução.

Impacto do programa
Para o secretário estadual Marcos da Costa, os números refletem o impacto positivo da iniciativa na vida das pessoas com TEA e de seus familiares. “Em diversas situações, era exigida a apresentação de laudos médicos, que nem sempre eram compreendidos por quem os recebia, o que acabava gerando discussões desnecessárias. A carteira veio justamente para suprir essa necessidade, permitindo que órgãos públicos e empresas privadas compreendam que se trata de uma pessoa autista e possam oferecer todos os direitos que ela merece”, afirmou.

Sobre a CipTEA
A emissão da carteira é gratuita e representa uma garantia de direitos para a pessoa no espectro autista, além de contribuir para a inclusão e a acessibilidade. O documento integra o Peiptea (Plano Estadual Integrado para Pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo), política pública voltada à inclusão e à autonomia.

“O direito das pessoas com autismo é garantido tanto pela legislação estadual quanto pelas legislações municipais. Um exemplo são as vagas de estacionamento destinadas a pessoas com TEA, previstas em lei em diversos municípios. Já o Estado oferece serviços como o Centro Paulista, onde a pessoa com autismo e seus familiares têm acesso à psicoterapia, orientação jurídica, assistência social, práticas esportivas, arteterapia, além de ações voltadas ao emprego e ao empreendedorismo. A carteira facilita o acesso a todos esses serviços”, explicou o secretário.

O que é o Transtorno do Espectro Autista
Segundo o Ministério da Saúde, o Transtorno do Espectro Autista é uma condição do desenvolvimento neurológico que afeta a comunicação, a interação social e o comportamento. O termo “espectro” indica que o autismo se manifesta de formas diferentes em cada pessoa, variando de quadros leves a situações que demandam maior suporte no dia a dia.

A Região Metropolitana de Campinas registrou 3.162 emissões. Foto: TV TODODIA

O psicólogo e neuropsicólogo William Virginio explicou como são definidos os níveis do transtorno. “Quanto maior o suporte que a criança necessita, mais elevado é o nível de classificação. Existem os níveis 1, 2 e 3. O nível 3, por exemplo, refere-se à criança não verbal, que ainda não desenvolveu habilidades básicas, como beber água ou ir ao banheiro sozinha. Com a estimulação adequada e as terapias, esse repertório pode ser desenvolvido.”

Sinais de alerta e diagnóstico
Entre os sinais que indicam a necessidade de avaliação especializada estão a ausência de contato visual ou de expressões faciais, não responder ao nome até os 12 meses, atraso na fala ou perda de habilidades já adquiridas. Também chamam atenção comportamentos repetitivos, resistência a mudanças na rotina e reações intensas ou reduzidas a estímulos sensoriais.

Segundo o neuropsicólogo, a avaliação envolve testes para analisar atenção, memória, funções executivas, inteligência e possíveis dificuldades sociais. “A avaliação costuma durar de oito a dez sessões, o que leva cerca de dois meses para a criança ser analisada adequadamente”, explicou. Ele acrescenta que o diagnóstico é baseado principalmente na observação do comportamento em diferentes contextos, já que não existe um exame específico que identifique diretamente o transtorno.

Davi Gabriel da Silva Vicente e a mãe Ester Cunha da Silva. Foto: Raul Rodrigues

Vivência de famílias
O laudo de Davi Gabriel da Silva Vicente, de nove anos, foi emitido quando ele tinha quatro. A mãe, Ester Cunha da Silva, relata que o início foi marcado por dificuldades. “No começo, a gente sofreu bastante preconceito, principalmente na escola, porque ele ainda não tinha o laudo fechado. Muitas vezes, quando ele entrava em crise, as pessoas não sabiam como abordar, e eu saía da escola chorando. Hoje, a situação está mais tranquila, o preconceito diminuiu bastante, e a carteirinha ajuda muito na identificação”, contou.

Atualmente, Davi não frequenta mais o ensino regular e estuda na Apae de Santa Bárbara d’Oeste. “No começo, eu fiquei meio confuso quando comecei a estudar lá, mas depois fui me adaptando e hoje gosto bastante”, relatou.

A mãe explica que, em locais com grande circulação de pessoas, como supermercados, hospitais e shoppings, a carteira é utilizada para facilitar a identificação. Segundo ela, alguns direitos já são respeitados, como vagas adequadas e prioridade em filas de mercados, embora em serviços de saúde o atendimento prioritário nem sempre se estenda a exames agendados.

Como solicitar a carteira
A CipTEA pode ser solicitada digitalmente, pelo site ciptea.sp.gov.br, ou presencialmente em uma das mais de 240 unidades do Poupatempo no estado. Para a emissão, é necessário apresentar laudo médico que comprove o diagnóstico de TEA, além dos documentos pessoais do beneficiário e de seu responsável.

“É muito importante que a pessoa com autismo, ou, no caso de crianças, que os pais e responsáveis conheçam a carteira e entendam como ela é útil. Ela ajuda a efetivar o acesso aos direitos e contribui para que a pessoa com autismo tenha uma cidadania mais plena”, finalizou o secretário.

Instrumento de orientação
Para o psicólogo e neuropsicólogo, a carteira deve ser vista como um instrumento de orientação, e não como um rótulo. “Uma criança com TEA pode ter dificuldade de esperar em filas por muito tempo, o que pode desencadear crises e gerar julgamentos equivocados. A identificação existe justamente para evitar essas situações e reduzir o preconceito”, afirmou.

Ele destacou que, apesar de simples, o símbolo tem papel relevante no dia a dia. “Pode parecer apenas um colarzinho colorido, mas ele serve para identificar e garantir direitos. Ainda assim, é fundamental que a sociedade busque mais conhecimento antes de julgar”, concluiu.

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