domingo, 12 julho 2026

Morador de Santa Bárbara d’Oeste completa 100 anos e relembra trajetória de migração para SP e trabalho

Completar 100 anos é um privilégio para poucos, e José João da Silva alcançou esse marco em Santa Bárbara d’Oeste carregando uma história que atravessa um século de transformações no Brasil. Nascido em 1926, em São Bento do Una, no Agreste de Pernambuco, ele faz parte da geração de migrantes nordestinos que deixou a terra natal em busca de oportunidades e ajudou a construir o estado de São Paulo.

Ao olhar para trás, Seu José diz que nunca imaginou chegar ao centenário. “Eu imaginava que nunca chegaria aos 100 anos. Completei um século de vida e nunca pensei que fosse chegar onde estou hoje. Porque 100 anos é muito tempo. Tenho muito o que contar sobre os sacrifícios que enfrentei desde que nasci.”

Infância marcada pela seca
As primeiras lembranças de José João são das dificuldades impostas pela seca no sertão pernambucano. Ainda criança, precisou conviver com a escassez de água, em uma rotina que exigia longas caminhadas para garantir o abastecimento da família.

Segundo ele, havia períodos em que era necessário percorrer cerca de seis quilômetros até uma nascente. A água era limitada e nem sempre era possível voltar para casa com os recipientes cheios. “Chegou um momento em que nem água para beber tinha. A gente caminhava cerca de seis quilômetros até uma mina para buscar água. Muitas vezes, voltava com apenas um dos recipientes cheio, porque não era permitido encher os dois.”

A viagem para São Paulo
Em busca de uma vida melhor, José João deixou Pernambuco e seguiu para São Paulo. A primeira viagem foi feita em um pau de arara e durou 15 dias, experiência comum a milhares de nordestinos que migraram para outras regiões do país em busca de trabalho.

Ele morou inicialmente em Mauá e, anos depois, se estabeleceu em Santa Bárbara d’Oeste. Na construção civil, trabalhou como pedreiro por mais de quatro décadas e participou de obras em diferentes regiões do estado. “Trabalhei como pedreiro por mais de 40 anos. Fiz 13 viagens para vir trabalhar em São Paulo.”

Família e novas gerações
Ao longo da vida, José João e a esposa construíram uma grande família. O casal teve 15 filhos biológicos e, depois da mudança para Mauá, adotou mais um filho.

Entre as lembranças, uma paixão permaneceu por décadas, a bicicleta. Foto: José Eduardo Milani

Com o passar dos anos, a família se estabeleceu definitivamente em Santa Bárbara d’Oeste. Hoje, a história iniciada no interior de Pernambuco segue viva entre filhos, netos, bisnetos e tataranetos.

A bicicleta que atravessou gerações
Entre as lembranças, uma paixão permaneceu por décadas: a bicicleta. No aniversário de 100 anos, familiares restauraram a antiga companheira de pedaladas. Mesmo com a idade, Seu José fez questão de subir novamente na bicicleta e dar uma volta, ainda que com a ajuda da família. “No dia em que completei 100 anos, eles mandaram pintar a bicicleta, que já estava toda arranhada. Aí resolvi dar uma volta. Só consegui andar porque eles me empurraram.”

O segredo para chegar aos 100 anos
Aos 100 anos, José João mantém a lucidez, o sotaque nordestino e o bom humor. No dia do aniversário, fez questão de brindar a data com uma cerveja, mas diz que nunca fumou e acredita que o equilíbrio foi essencial para alcançar a longevidade. “No aniversário de 100 anos, fiz questão de tomar uma cervejinha. O pessoal pergunta: ‘Você ainda bebe?’. Eu respondo: ‘Estou vivo, não estou?’. Agora, fumar, eu nunca fumei. Fumar é o maior veneno do mundo. O povo hoje exagera demais. Para chegar aos 100 anos, é preciso ter equilíbrio e controlar o que você consome.”

A trajetória de José João da Silva também se confunde com a história de milhares de brasileiros que deixaram o Nordeste em busca de oportunidades e ajudaram a construir cidades do interior paulista. Um século depois, ele segue compartilhando lembranças, conselhos e um legado que atravessa gerações.

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