domingo, 5 abril 2026

Sem conscientização, isolamento patina

Uma semana após o início da fase emergencial do Plano São Paulo de combate à pandemia, a taxa de isolamento social nas cidades de Americana, Hortolândia, Nova Odessa, Santa Bárbara d’Oeste e Sumaré subiu, em média, apenas 5%, ficando longe do ideal esperado pelo estado – e necessário para conter a proliferação do coronavírus. Para a infectologista da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Raquel Stucchi, a falta de resultados positivos no período se dá pela não adesão da população às medidas de restrição, falta de punição e também pelos discursos contra o isolamento e o uso de máscaras por parte do governo federal.

Conforme informações do Simi (Sistema de Monitoramento Inteligente de São Paulo), que utiliza dados das operadoras de celular para identificar, de maneira anônima, o índice de adesão da população ao isolamento social, na primeira semana de março, quando a região estava na fase laranja, a média de isolamento nas cinco cidades foi de 38,7%.

Na semana seguinte, já na fase vermelha, foi de 39,7%. Na última semana, com a fase emergencial, a expectativa era de elevação considerável no isolamento, mas ele ficou em 40,6%.

A cidade com melhor índice de isolamento social neste mês de março é Hortolândia, ficando acima dos 40% nas três semanas. Nessa semana de fase emergencial, o município empatou com Americana: ambas tiveram 41,7% de isolamento médio, com pico de 50% em Americana no domingo (21).

Santa Bárbara d’Oeste tem o pior isolamento entre as cinco cidades, não chegando nem à média regional de 40,6% desta semana. Em nota, a prefeitura afirmou que tem adotado as medidas do Plano São Paulo e feito fiscalizações, mas que citou que “ações propostas para o controle da pandemia somente terão resultado se cada cidadão fizer a sua parte”.

O objetivo do estado é alcançar o nível de isolamento do início da pandemia, em março e abril, quando a região tinha 55% das pessoas em isolamento. Na análise da especialista, porém, dificilmente esse número voltará a ser alcançado após um ano de pandemia, mesmo com o cenário de colapso no sistema de saúde.

“Agora está mais evidente a polarização e o impacto das falas do presidente recomendando exatamente o contrário. As pessoas já estão cansadas, preocupadas com a sobrevivência econômica, e o presidente falando que não precisa de máscara, que o novo ministro vai checar número de mortos, pra ver se está morrendo tanta gente mesmo. Tudo isso, somado, faz como que a realidade fique fantasiosa. É um desserviço difícil de recuperar”, afirmou Raquel.

A médica ressaltou ainda que discussões entre prefeitos sobre a necessidade de adotar ou não lockdown, a falta de fiscalização e a liberação de algumas atividades como o futebol profissional (ainda que sem partidas disputadas oficialmente), faz com que as pessoas desacreditem do cenário da pandemia e se sintam injustiçadas de terem suas atividades econômicas proibidas.

“A gente vê o futebol treinando, jogando em outro estado, isso não contribui. Não podemos ter exceções nesse momento, porque se não, levamos ao descrédito e à baixa adesão das medidas. Nós que estamos trabalhando na área não estamos conseguindo mostrar de fato toda a dramaticidade do momento que estamos vivendo”, afirmou a infectologista.

A especialista disse que é preciso ampliar a fiscalização e endurecer a punição para as aglomerações, e elogiou a multa estabelecida em Sumaré essa semana – R$ 16,5 mil para organizadores de eventos clandestinos e R$ 3,5 mil para frequentadores.

“As pessoas podem desacreditar da pandemia em si, mas ao verem amigos punidos, multados, podem se conscientizar, talvez pensando no bolso, e não na própria vida, mas vão acabar deixando de descumprir as determinações”, disse.

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